sábado, 25 de março de 2017

Reflexão sobre Deus e a Filosofia

UMA REFLEXÃO SOBRE DEUS À LUZ DA FILOSOFIA.

Por Alacir Arruda

A filosofia é, sem nenhuma sombra de dúvida, a mais  bela área do conhecimento humano, uma vez que nos permite refletir sobre tudo, inclusive Deus. Grandes pensadores discutiram em diferentes épocas e, ainda hoje discutem, a ideia de Deus como uma força sobrenatural. Essa busca por entender essas questões metafisicas perseguem o homem desde as cavernas, mas será que se víssemos Deus acreditaríamos? Porque acreditamos naquilo que não vemos? Que provas temos da existência de Deus? Jesus Cristo, o mais famoso líder religioso, existiu realmente ou tudo não passa de criações da mente humana? Ele é comprovadamente o filho de Deus? Alguém viu seu exame de DNA, ou ele é como dizem os padres e/ou pastores em seus inflamados sermões "o filho (criação) do Homem? Os textos sagrados das diversas religiões monoteístas, politeístas e orientais ou ocidentais são relatos de fatos verídicos ou são códigos de ética muito bem elaborados por pessoas eruditas de diferentes e remotas épocas?
Estas questões são limitadas diante da amplitude dos assuntos pertinentes à Religião e ao Divino. É notável como disse o filósofo Feuerbach (1804-1872), autor de "A Essência do Cristianismo", que, segundo a qual, para se conhecer o "Deus"de um homem (ou mulher), como método, inicialmente pergunta-se a este ser humano como ele é, e logo se terão as características de seu "Deus". Portanto o que o filósofo alemão quer nos dizer, é que cada indivíduo "cria Deus a sua imagem e semelhança", isto é, cria seu mito . Tanto é assim que no campo da Filosofia, é no pensamento de alguns filósofos Deus se nos apresenta das mais "variadas formas", a saber:
Na Metafísica de Aristóteles (384-322 a.C.), o filósofo de Estagira nos mostra Deus como o Primeiro Motor Imóvel, a causa de todo o movimento do Universo, ou seja, Deus e o homem estão num "plano vertical" de cima para baixo.
Nas Meditações Metafísicas do filósofo francês René Descartes (1596-1650), Deus é uma "deusa": A Razão, ou seja, Deus e o homem horizontalizaram-se, tendo em vista que a razão é inseparável do ser humano. Deus varia de formas tanto entre os filósofos, quanto entre as religiões.
Voltando aos nossos questionamentos iniciais sobre a existência ou a inexistência do Sagrado eis que surge uma nova questão: Porque algumas pessoas que rotulam-se de crentes em Deus, também acreditam no Diabo de uma forma ou de outra?
Quando o filósofo Nietzsche (1844-1900), declara em seu "Choque das Contradições" o conflito do sim e do não, do bem e do mal, do amor e do ódio, e notando estes choques dialéticos, diríamos que há também num mesmo contexto uma colisão entre o Céu e o Inferno e entre o Diabo e Deus.
É evidente para quem possui um aguçado poder de observação, encontrar pessoas de algumas religiões que, num tom vulgar da expressão, podemos dizer que "assinam ponto" nos templos. E a ira quando os pega por um ou outro motivo, já se encontram no direito de mandarem seus semelhantes ou os seres vivos e/ou seres não-vivos para o diabo, assim; "vá para o diabo que te carregue" ou "vá para o inferno". Portanto "fiéis contraditórios". Afinal a quem é canalizada a fé? A Deus ou nesse anjinho endiabrado? Porque os dois caminham juntos e ao mesmo tempo são tese e antítese?
É a fé uma faca de dois gumes? Seria Deus uma espada ou um escudo?
Todas estas questões levantadas, caro leitor, têm respostas e estas respostas estão em seu interior, pois aqui não nos cabe respostas prontas, devido ao fato de que respostas prontas são dogmas e por dogmas basta a hermenêutica dos textos sagrados. Sugiro ao leitor que não aceite idéias pré-estabelecidas, mas construa suas próprias idéias, através da reflexão, não só abre possibilidades da existência ou inexistência de Deus, mas busque respostas acerca do universo de seu cotidiano.
Há também aquelas crenças que dependem do anjo-mau para formarem-se diante de seus fiéis absorvendo o problema do crente num processo de alienação, pregando o fatalismo, como disse Karl Marx (1818-1883) "a religião é o ópio do povo", ou seja, o indivíduo transfere a sua dor moral e, em alguns casos, até suas dores físicas para que seja resolvida definitivamente ou solucionada provisoriamente por um Ser superior a ele (o fiel) nesse transferir, alguns deles, ignoram até a própria realidade, tornando isso uma "dependência optativa" mergulhando num "fideísmo fundamentalista".
Por um ponto de vista subjetivo, se me permitem, as religiões deveriam ser entidades que despertassem o ser humano para o conhecimento, ou seja, para a abertura dos seus horizontes, como disse o filósofo grego e pré-socrático, Hráclito (540-480 a.C) "a fé, como condição para o verdadeiro conhecimento". E Sócrates (470-399 a.C.) disse "só sei que nada sei" essa ironia socrática nos leva a sempre buscarmos o conhecimento quer seja nas fontes primárias, nas fontes secundárias, nas fontes das fontes, ou nas fontes empíricas e/ou teóricas. Todavia o que observamos é literalmente o contrário, as religiões aprisionam e limitam a criatividade inserindo o homem em um "positivismo ético", isto é, em leis morais rígidas que para o atual contexto são obsoletas.
As religiões devem modernizar-se, mas não uma modernização tecnológica, do tipo "show" que entorpece aos olhos e degrada a mente, luxuosa que invade a mídia, revestida de "uma nova aparência" transformando-se em produtos, para o consumo das massas alienadas, que são despejados aos olhos e ouvidos, pelas emissoras de rádio e televisão, além da Internet.
Religião é fé, amor, Deus na representatividade. Por isso não deve estar em pé de igualdade com os modismos lançados pelos mercados para o "sabor" das mentes dos menos avisados. Mas modernizar-se nos conceitos e na eticidade, adequar-se ao século XXI que está cercado por mudanças profundas nas sociedades nacionais, numa palavra: inserir-se no contexto do homem atual de forma eficiente; tornando-se um instrumento de conscientização e não de inculcação, uma vida paralela ou simplesmente "uma metafísica para o povo" como disse Schopenhauer (1788-1860).
O tema acerca das busca sobre a compreensão de Deus é infinito e complexo aqui ou alhures. Por isso despeço-me aqui deixando uma mensagem final ao leitor inspirado em Nietzsche:
Antes de agir, qualquer que seja sua ação, pense e aja com a razão, pois quem age é o seu ser, e em seu ser existe o bem e a justiça, Deus insere-se nestes dois conceitos. Portanto Deus é o ser do Homem, logo Ele não é absoluto e nem objetivo. É a nossa "vontade de Potência", o nosso querer fazer, o ir além, o sobrepor-se a si mesmo, é a nossa auto estima alta.
Enfim Deus é o nosso Mito mais  intenso..

Contato: agaextensao@gmail.com

sexta-feira, 24 de março de 2017

Viver é a arte de fazer escolhas


"SARTRE E A ANGÚSTIA DO VIVER"

Por Alacir Arruda

Por 17 anos ministrei Filosofia e Sociologia em graduações e pós-graduações de psicologia em alguns Estados brasileiros e, durante as aulas, uma pergunta era recorrente: "professor o que é viver?". É evidente que para cada turma uma explicação era utilizada, e, também é evidente que eu nunca soube a resposta correta, mesmo tendo estudando filosofia, antropologia, ciência politica e sociologia por mais mais de 20 anos. Na verdade, não há uma resposta objetiva para algo, absolutamente, subjetivo que é viver. 

Viver é uma experiência, é algo introspectivo e só pode ser explicada e sentida por cada individuo que tem, ou teve, o privilégio de passar por essa dimensão. Todavia, eu sempre achei a explicação Existencialista, para tal fato, algo que devemos analisar com um certo carinho. Para quem não é do ramo, o existencialismo é uma corrente filosófica -psicológica que surgiu na Europa do século XIX a partir de filósofos como: Schopenhauer, Kiekergaard, Nietszche e Hursel mas, sem duvida aquele que mais colaborou para a disseminação dessa corrente foi o filosofo francês do século XX Jean Paul Sarte.

Jean Paul Sartre é um pensador extremamente atual, e tem sido um dos filósofos mais cobrados nos últimos exames do ENEM. Segundo Sartre: "Viver é isto ficar-se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequências". Sartre era um ateu convicto portanto, ele não tinha a menor dúvida de que o homem não foi criado por Deus , assim para ele a existência precede a essência, ou seja, o homem não é uma criatura de Deus, logo,  tudo começa a partir do nascimento. Desta forma, fica patenteado que o homem é um ser que tem a imensa responsabilidade para de se construir , assim, o ente humano é o construtor de sua própria vida, e tudo acontece através do seu cognitivo , e de sua liberdade , pois, o ser humano é livre para sua auto realização, e mesmo sem querer esta liberdade, uma vez que ela gera responsabilidade, o homem é detentor da liberdade existencial , portanto, vitória e fracasso são consequências de suas escolhas e de sua ação.

Já para criacionistas como Santo Agostinho, o homem é criatura de Deus, que criou o homem feito sua imagem e semelhança , assim, o homem é uma criatura de Deus, nesta ótica a essência precede a existência ,assim, o homem tem de cumprir determinações de Deus, caso consiga realizar os desígnios de Deus o ente humano ,após morrer , viverá para sempre no mundo pós morte, denominado paraíso, e os fracassados, os que não conseguiram sua realização serão condenados eternamente, com muito sofrimento. 

Apresentei duas formas antagônicas de definição do viver: A filosofia existencialista e a filosofia criacionista. Então surge a pergunta : Qual a mais correta ? qual a mais benéfica para a humanidade? A meu ver cada proposta existencial tem pontos importantes e negativos,irei ao longo do texto de acordo com a minha visão defini-los em cada visão existencial. Assim, o existencialismo sartriano apresenta como positividade os seguintes fatores: Liberdade existencial, responsabilidade existencial,valorização da existência. No que concerne aos pontos fracos ao meu ver : Eliminar do homem a segurança pois não crê em Deus, é uma filosofia ateísta; Ausência da metafísica eliminando as possibilidades do pós morte. 

Os pontos mais questionáveis da filosofia agostiniana: Limitar tudo a questão da fé no dogma criacionista, tudo fica resumido a questão da fé ; Desvalorização do mundo do aqui , pois o que importa é o céu, o inferno, mundos do pós morte, super valorização do pecado e da culpa para controlar o homem.Mas, esta visão apresenta como ponto forte a ideia da superação dos defeitos, a preocupação com os atos ,porque poderá trazer enormes consequências no pós morte; oferecer ao homem uma resposta para a questão da morte , eliminando de muitos o enorme medo do morrer. 

Após esta pequena reflexão , deixo a critério do leitor a sua escolha, e nesse aspecto volto a citar Sartre: "Na vida tudo se resume em fazer escolhas sucessivas e arcar por tais escolhas, pois, até para escolher qual das filosofias adotar tem que ser uma escolha de cada pessoa." Como a minha de agora as 5 da manhã escrever este texto. 


Contato: agaextensao@gmail.com 


terça-feira, 21 de março de 2017

TEXTO PARA O ENEM 2017

SIGMUND FREUD E O PENSAMENTO POLÍTICO.

Por Alacir Arruda

O objetivo dessa reflexão não é abordar as relações entre Psicanálise e Política, mas, a contribuição de Freud para o esclarecimento do fenômeno político. Isso significa limita-lo a seu universo discursivo, sem ampliar a análise do político, abrangendo as várias correntes psicanalíticas, de Reich a Adorno, de Guatari a Lacan. A volta de Freud significa a preocupação em compreender a sua contribuição específica ao estudo do fenômeno político, sua pertinência e atualidade.
Durante mais ou menos um século, o estudo do “político” centrou-se nas instituições. Fourier esperava que, através delas, o vício individual se transformasse em virtude social.
A preocupação de Freud com o “social” se acentua após o impacto da Primeira Guerra. Nos seus dois ensaios a respeito, um escrito em 1915 e outro em 1922, procurou ele mostrar a hipocrisia da sociedade moderna, a coerção social funcionando e o caráter primário das tendências agressivas. Impressionado, como Max Weber, com o empobrecimento da vida, ele valoriza, inicialmente, a guerra como alternativa ao conceito convencional de morte, porem, a guerra condicionou seu interesse o estudo da agressão, como o câncer que o vitimaria, levou-o a aprofundar o conceito de “instinto de morte”.
Admitindo que o nosso inconsciente mata, mesmo por motivos insignificantes, vê na eclosão da guerra uma prova disso. Os homens não desceram tão baixo por ocasião da guerra, dizia ele, porque nunca estiveram tão alto como pensavam achar-se. assim, o homem renuncia a seus instintos agressivos substituindo-os pelas agressões estatais, o Estado proíbe ao indivíduo infrações, não porque queira aboli-las, mas sim, para monopolizá-las.
A autenticidade e espontaneidade podem andar vinculadas ao instinto da morte. Pode a pessoa “autenticamente” matar alguém e “espontaneamente” apertar o botão que despeja centenas de bombas, espalhando a morte. Embora admitisse a existência de soluções culturais; sugere a existência de uma autoridade universal para julgar os conflitos de interesse entre as nações.
A sua admissão da existência de uma agressividade “inata” não o impediu de considerar os meios indiretos de satisfação. O ódio básico em Freud, é fundido com as tendências sociais na medida em que o indivíduo amadurece.

Hobbes e Freud

Como Burke, admite a Freud a positividade das restrições sociais que nos livram da escravidão às paixões.
Enquanto, para Hobbes, o homem natural é egoísta, em Freud também o é, com a diferença de que ele tem necessidade social. Enquanto, para Hobbes, o homem segue a lei da astúcia e da força, Freud reconhece a sua existência, porém, afirma, concomitantemente, a existência do amor e da autoridade, daí a ambivalência. A figura do contrato social, em Hobbes, Locke e Rousseau, era para explicar a legitimidade original da sociedade capitalista. Para Hobbes, o pacto social funda-se na existência do medo, que torna o homem prudente.
Para Freud, a sociedade política corresponde ao desejo irracional do homem em restaurar a autoridade; com a morte do pai primitivo, surge no homem a “nostalgia do pai”. Para ele, o governo não surge de um contrato social, mas, de uma resposta contra-revolucionária, que emerge após a queda do governo patriarcal e representa o desejo majoritário dos cidadãos-irmãos, não é uma manifestação de prudência do grupo. Os mitos do contrato social, no universo psicanalítico, podem ser vistos como reafirmação da vontade do pai acima dos impulsos rebeldes dos filhos.
O contrato social, na medida em que significa o ingresso da sociedade na organização política histórica, representa a aceitação da derrota da maioria, ela que, mediante a restrição exogâmica de novas conquistas sociais, ninguém pode alcançar outra vez o supremo poder do pai, embora todos tivessem lutado para isso. Na forma de horda, família ou governo, para Freud o que existe é o controle da liberdade de ação. A existência da lei mostra a força dos desejos ocultos, a existência de uma necessidade interna, que a consciência desconhece. Daí Freud reconhecer que o desejo funda a necessidade da lei. O caráter complexo dos desejos explica a complexidade das interdições sociais.

As proibições

Freud relaciona as proibições auto-impostas, mediante as quais os neuróticos controlam os impulsos proibidos com as complicações rituais, mediante as quais os povos primitivos se defendem da “desordem”, os sentimentos libertários que possam surgir originam auto-controles compensadores, e esses, por sua vez, a renúncia a uma posse ou liberdade entendida como repressão e objetivada como tabu ou lei. A ambivalência, o tabu significam a existência de uma dialética que oscila entre repressão e rebelião; essa leva a nova repressão. A luta entre a lei e o impulso só pode ser sintetizada pelo “ego”. A liberdade procurada é a liberdade para se tornar um amo. Os impulsos conscientes de rebelião, para Freud, originam-se na inveja. O desejo de poder pe contagiante, todos querem ser reis. O excessivo respeito, a cortesia, e as regras estritas de etiqueta em relação ao “chefe” são derivadas do “medo de tocar” do primitivo, segundo Freud, medo de contatar pessoas pelas quais sente hostilidade inconsciente, sejam chefes, mortos ou recém-nascidos. Para ele, todos os gestos de submissão são ambivalentes, daí o respeito e o afeto esconderem hostilidade inconsciente. Freud venera quem estabelece regras como Moisés e simpatiza com que as contraria, como Ricardo III. Todos nós sofremos alguma ferida narcisista, daí a nossa simpatia para com ele.
Ao produzir Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud estava abandonando o evolucionismo linear de Totem e Tabu e a preocupação pelas origens pré-históricas cedia lugar à análise contemporânea. Essa preocupação transparece no seu texto Novas Contribuições à Psicanálise, onde relata seu conhecimento da obra de Marx. Embora reconhecendo que as pesquisas de Marx sobre a estrutura econômica da sociedade e a influência das distintas formas de economia sobre a vida humana impuseram-se com indiscutível autoridade, mantém seu ponto de vista, segundo o qual as diferenças sociais se originaram por diferenças raciais. Assim, para Freud, fatores psicológicos, como o excesso de tendências agressivas constitucionais, a coerência organizatória da horda e a posse de armas, decidiram a vitória; os vencedores se transformaram em senhores e os vencidos em escravos; isso exclui o domínio exclusivo dos fatores econômicos. Na sua crítica a Marx, partia ele do conceito de ato econômico como “ato puro”, difundido pela Escola Clássica.
Freud não só se preocupava com a herança de Marx, como, também, com o fenômeno da ascensão das massas após a revolução industrial, para tanto, fundado em Gustavo Le Bon, a quem corrigia em algumas particularidades, procurava estudar as vinculações da massa com o líder. Para Freud, a relação política básica consistia numa relação erótica, da massa com a autoridade. Para ele, a autoridade sempre existe personificada. A horda supõe um chefe, o hipnotizado, um hipnotizador, o amor, um objeto, a massa, um líder. Para ele a condição de líder exige que este se aparte de seus subordinados e, ao mesmo tempo, evite que eles o abandonem. O líder atua como um “centro” para organizar vidas que procuram um sentido. Porém, situações de pânico e desorganização social podem levar a massa a reorientar-se em torno de novos líderes. Para Freud, o líder toma a forma de pai perseguidor, como o pai primitivo, ou perseguido como Cristo. O líder aparece como figura segura de si, com poucos vínculos libidinosos; a sua vontade é reforçada pela dos outros. Freud vê toda a atividade política, sem distinção, como influenciada pela autoridade. Segundo Freud, isso dá um sentido permanente às manifestações de autoridade.

A psicologia

Sua psicologia tem implicações conservadoras no caso. Assim, na História não há acontecimentos qualitativamente diferenciados. O líder na figura de pai e seus seguidores, enquanto filhos, tornam a luta política uma luta geracional. Na ambivalência, as mudanças sociais se tornam recorrências e as relações sociais só tem sentido pelas necessidades psicológicas que preenchem. A crítica social é desvalorizada, na medida em que é vista como manifestação da ambivalência geral das emoções. A desconfiança dos governados ante o poder não se dá por uma visão nacional de suas vitórias e fracassos, mas como expressão de sentimentos hostis. Freud vincula o fenômeno político aos delírios paranóicos, no exagero da importância de uma pessoa. Partir da participação libidinal é, para ele, decifrar a genética do poder. Totem e Tabu e Psicologia das Massasmantém uma visão liberal clássica: o indivíduo ante o Estado, sem ninguém como permeio, nenhum grupo intermediário. Para Freud, o governante tem verdadeiro poder mediante atribuição ilusória de seus partidários.
A imagem freudiana do pai, como modelo de autoridade, vincula-se diretamente à idéia, que, na sociedade ocidental, qualquer tipo de autoridade está submetido a pressões e crises. A atitude psicanalítica reforça o distanciamento à crítica do conceito de legitimidade, muito desenvolvida nas ciências sociais.
Para ele, a esfera política opera como extensão da esfera particular, a veneração exagerada do homem público é vista como recorrência da admiração do filho pelo pai. Quanto mais carente de atenção e afeto, nas relações pessoais, tanto mais tende a personalidade a “externalizar-se” à esfera pública; nessa procura de aceitação, amor e cumplicidade. Não é possível o fanatismo na política, quando o partidário reconhece no seu líder o deslocamento da imagem paterna, da mesma forma como o crente fraqueja quando analisa sua conduta religiosa com destino à ilusão. Freud realiza uma crítica da política na media a que vincula neurose e poder, sintetizados em Ricardo III. Freud colocou em xeque o exercício ‘livre’ da cidadania, na medida em que descobriu o quanto de ‘irracional’ esconde a conduta do cidadão médio.

O conselho de Laswell

Isso levou um político psicanalítico, Laswell, a aconselhar o liberalismo medicinal, vinculando o exercício da liderança democrática à saúde e não à doença.
Visualizar o fenômeno político, como expressão da esfera individual, em sua dimensão subjetiva, e tendo como fundamento a ansiedade, pode levar a negar a situação política objetiva. Da mesma forma, o protesto social, na visão psicanalítico política, pode ser visto como sintoma neurótico, abrindo espaço à Psiquiatria considerar a sociedade conforme as malhas do modelo médico mais autoritário: o modelo hospitalar clássico.
Ao rechaçar o maniqueísmo ingênuo, que consiste em rotular como “boa” ou “má” tal ou qual política, a Psicanálise vincula como “soluções dramatizadas”, de uma temática que tem a sua gênese na vida pessoal.
O governante tem o verdadeiro poder, mediante a atribuição ilusória de seus partidários.
A imagem freudiana do pai, como modelo de autoridade, vincula-se diretamente com a idéia de que na sociedade ocidental qualquer tipo de autoridade será submetido a crises.
A atitude psicanalítica reforça o distanciamento ante a autoridade. Freud agrega a contribuição da análise psicanalítica à crítica do conceito de legitimidade, já muito desenvolvida nas ciências sociais. Para Freud, a dimensão política é uma extensão da esfera privada; assim, a veneração exagerada ante o homem público é uma recorrência da adoração do filho pelo pai. Freud considera a personalidade pública como um carente de atenção e afeto, derivado das relações pessoais.
Dessa forma, não é possível o fanatismo político quando o partidário reconhece, no seu líder, o deslocamento da imagem paterna; o crente, a fraqueza, quando analisa sua conduta religiosa, endereçada à ilusão. No fundo, Freud realiza uma crítica da política, na medida em que, fundado em Ricardo III, vê no homem que exerce o poder um neurótico. Por outro lado, funciona o mecanismo de identificação, daí as dinastias de poder dos Roosevelt aos Kennedy. A psicanálise colocou em xeque o exercício “livre” da cidadania na medida em que descobriu o muito de “irracional” na conduta do cidadão médio, daí, um político; logo, como Laswell aconselhar um liberalismo medicinal.
A grande receptividade da Psicanálise nos EUA constitui no fato dela postular a vinculação das idéias de mudança social à conduta neurótica, assim, revolucionário, seria aquele que estivesse em rebelião contra o seu pai. O público e o aspecto social mascaram “conteúdos latentes”, as ideologias revolucionárias seriam “racionalizações” de complexo edípicos.
Como confidente das fantasias e desejos do homem, Freud aprova o caráter repressivo da sociedade. Enquanto sugere uma atitude conciliadora da mesma ante os instintos, admite que seus interesses conflitam com o indivíduo. Assim, a debilidade, credulidade e passividade das massas é acompanhada pela aquisição de poder pelos líderes políticos. Segundo Freud, por natureza, os homens são incapazes de esforço contínuo, de um trabalho regular e planejado, porém só ele é fonte de independência e maturidade.
Isso é privilégio de algumas minorias, daí não esconder Freud a sua admiração pelas minorias que sabem o que querem. Na sua Novas Contribuições à Psicanálise, ele imagina a existência de um pequeno grupo de homens de ação, imbatíveis em suas convicções e impermeáveis à dúvida e ao sofrimento, como condição de regeneração social. No mesmo estilo, em carta a Einstein imagina ele uma espécie de República Platônica, cujos governantes se constituam como comunidade subordinando sua vida instintiva à ditadura da razão.
Para Freud o homem se compõe de uma estrutura instintiva básica, daí tentativas de supressão da opressão política; para ele, resultariam na troca de um autoritarismo por outro. Embora admita que a massa possua qualidades éticas acima da norma, isso não basta para redimi-la do fato, de que, o calor do companheirismo entre seus pares anule a racionalidade do comportamento. Na medida em que a sociedade mantém sua coesão graças ao sentimento de dependência e respeito pelo líder, possuí um fundamento autoritário. A sociedade para Freud é sempre uma sociedade de desiguais, a igualdade é vista como utópica. Freud, parte do pressuposto liberal, que, sem a desigualdade erótica, a escassez e competição erótica, parcialmente sublimada em benefício da sociedade, não faltariam antagonismos e identificações que a mantivessem unidas. Se trocarmos a recompensa econômica pela emocional, veríamos Freud como aquele que traduz a linguagem da economia clássica em código ético moral. O ethos liberal subjacente a Freud transparece na sua admissão da desigualdade como um “destino”, sua resignação ante a fatalidade da existência da autoridade, buscando sua adequação ao social nunca sua abolição. Por sua vez, ao comparar a autoridade pública à paterna, a massa à crianças, destrói qualquer idealização da autoridade pública. A analogia entre a estrutura familiar ao Estado e sua técnica analítica encaminhada à emancipação dos vínculos familiares, constitui-se numa crítica ao “respeito” social e político.
Como o comportamento político tem raízes inconscientes, a política dever ser a catarse das massas, com função idêntica à arte no plano individual. Assim, nas guerras as nações postulam interesses como “racionalizações” de suas paixões; a ação coletiva representa regressão à barbárie; assim, o Estado se permite atos que o indivíduo jamais o faria. A maior parte das decisões “heróicas” se dá sob o signo do instinto da morte. Freud critica o Estado na medida em que o identifica com as massas, vendo-o como um ídolo que esmaga cegamente a consciência individual. Quando condena o caráter repressivo da sociedade política, o faz na medida que a categoria indivíduo constitui o fundamento de seu discurso e assegura a unidade de seus pontos de vista.
Para o fundador da Psicanálise, a política era algo que ocorria na psique dos indivíduos, daí sua psicologia ser tanto individual como social, visto essa como “externalização” de fantasias e desejos pessoais. O interesse pelo social, tem como base o individual. A psicoanálise freudiana se insere na tradição liberal da defesa do indivíduo.
No intuito de domar o indivíduo associal, Freud reconhece a importância civilizadora da sociedade, porém, encara suas exigências sob o ângulo da “renúncia”. Nega o conceito organicista, segundo o qual os indivíduos se realizam através da Igreja, comunidade sagrada ou Estado. A visão freudiana comparte a noção segundo a qual a sociedade significa sempre sacrifício da individualidade, neste sentido, amplia as posturas de Nietzsche e Max Sttirner a respeito do “único”. Daí sua tentativa terapêutica em separar as paixões particulares de sua transferência neurótica sobre a autoridade. Seu tema gira em torno do custo sacrifício da liberdade individual à tirania social. encara o auto-sacrifício como doença. Sua tarefa consiste em controlar o custo entre o princípio de prazer (satisfação) e o princípio de realidade (renúncia), nisso define-se a Psicanálise como terapia e doutrina.
Procura defender o indivíduo da submissão inevitável a preceitos comunitários, mediante a análise do fundamento destes e sua gênese. Nesse sentido, sua doutrina é a realização do liberalismo, onde a medicina atua como mediadora entre o conflito individual e a coerção social, analisando esta nos momento em que coíbe aquele outro. O interesse pelo indivíduo, herdado do romantismo, traz consigo uma visão elitista. Seus sujeitos são os “cultos” que alcançaram sua individualidade reconciliando-se com seus instintos, é a maturidade como meta de chegada da existência. Perfila o tipo do homem racional, prudente, liberto interiormente da autoridade, quites com sua quota de conflito e neurose. A psicanálise postula uma espécie de alienação racional entre os entusiasmos públicos. Freud é cético em relação a todas as ideologias, menos a que tange à vida pessoal.
A psicanálise parece como doutrina do homem “particular” que se defende contra a invasão da esfera “pública”, a preocupação pela esfera “pública” se dá por motivações conscientemente “particulares”. A medida psicológica, para ele, não é perfeição social, é a saúde individual. Há luta individual pelo auto-domínio; a psicanálise é a vitória do ego (consciente) sobre o Id (inconsciente) condição do domínio sobre o ambiente. Dessa maneira, é que a ética darwiniana transporá à psicologia, vai mais além do liberalismo sobrevivendo ao seu declínio.

A liberdade

Para Freud, a liberdade é uma metáfora, só tem existência real do indivíduo, quando entendida como um equilíbrio entre o ego e o superego e o id. A procura de liberdade social, para ele, é uma contradição lógica, entende a liberdade e a tirania como estados psíquicos, na base dela há a “tirania psíquica”, entendida como domínio dos temores e compulsões inconscientes. A psicanálise postula o indivíduo antipolítica que procura a autoperfeição num contexto o mais possível separa da comunidade. Para ele, toda política é sinônimo de corrupção, seja num Estado liberal ou autoritário.
Na medida em que, para ele, a liberdade é um estado psíquico, sua possibilidade de existência se dá em qualquer sociedade. Assim, pode haver escravos livres em Roma Antiga, como cidadãos escravizados na Europa. A Psicanálise com sua ênfase na vida interior e no equilíbrio das três instâncias do psíquico como condição de saúde, questiona os regimes políticos. Dessa maneira, Freud desloca a questão da análise do sistema político, para ele, ela passa pela equação pessoal e pela interrogação de até que ponto o indivíduo deve ser limitado no marco das relações sociais predominantes. Ele é o máximo de consciência possível do ‘ethos liberal’, que tem como base o inconsciente.


Contato: agaextensao@gmail.com
Obra consultada
S. Freud. Obras Completas. Trad. Luiz Lopes Ballesteros y De Torres. Ed. Americana, Buenos Ayres, 1943. 

quarta-feira, 15 de março de 2017

ENEM 2017- Síria, a bola da vez

SÍRIA: O VIETNÃ DO SÉCULO XXI


Por Alacir Arruda

A Síria se transformou no Vietnã moderno.  Para aqueles que não sabem, nas décadas de 60 e 70  esse pequeno país do sudeste asiático se tornou o centro das atenções mundiais. EUA e URSS se digladiaram, cada qual,  defendendo suas ideologias. Foram mais de 100 mil vietnamitas  mortos, grande parte desse montante eram crianças. Enquanto esses dois gigantes disputavam áreas de influência,  o mundo assistia atônito a destruição do pobre Vietnã.

Com os recentes avanços das forças militares sírias, e seus aliados russos,  na batalha contra o Estado Islâmico e outros grupos fundamentalistas e mercenários em Aleppo, surge uma forte tendência de vitória do atual governo de Bashar Al-Assad e de seus aliados nesse prolongado conflito que envolve interesses dos EUA e das potências europeias, de um lado, e mais diretamente interesses da Russia e do Irã, mas também da China, de outro.

Depois do início das revoltas árabes em 2011, se desenhou uma nova   Geopolítica naquela região sob a batuta  dos Estados Unidos. As rebeliões ocorridas  da Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio, foram os  motivos dessa intervenção dos Estados Unidos da América (EUA) e das potências europeias no Oriente Médio e na região do Magreb. Manter o  controle do Mar Mediterrâneo e a contenção e isolamento do Irã, além de evitar a presença da Rússia, e ainda da China, nessa região. 

Diferente do caso da agressão militar à Líbia, quando a Rússia e a China se abstiveram e não utilizaram o seu direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, e assim não tensionaram o equilíbrio de poder, desta feita no caso da Síria, os dois países tiveram outra posição.

Moniz Bandeira, o maior analista de relações internacionais brasileiro da atualidade, descreve e analisa o que se passou na preparação da agressão multinacional à Síria, que se deu paralelamente ao incitamento de conflitos internos no país árabe.

Os EUA e potências ocidentais como a França e a Inglaterra, aliados a outros países da região, se empenham, desde os preparativos feitos para o conflito, para derrubar o governo do presidente Bashar  Al -Assad.

O papel específico do Catar e da Arábia Saudita consiste no financiamento e na mobilização de mercenários, além do abastecimento de armas para que esses grupos, como o Estado Islâmico, lutem contra as forças armadas e contra o regime sírio.

Uma intensa campanha de mídia e de guerra psicológica, como a realizada contra o governo de Kadafi na Líbia, foi feita para influenciar a opinião pública, na Síria e no mundo, contra o governo de Bashar al-Assad, e para criar um ambiente para a aprovação, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, de uma resolução que permitisse aos Estados Unidos, à Grã-Bretanha e à França usarem a Otan para bombardear a Síria, como fizeram na Líbia.

No entanto, o plano esbarrou na posição da Rússia e da China. Moniz Bandeira relata que as propostas de resolução contra a Síria, apresentadas pelas potências ocidentais em 4 de outubro de 2011, e em 4 de fevereiro de 2012 no Conselho de Segurança da ONU, foram vetadas pela Rússia e pela China, que, com esses vetos deixaram claro que não abririam mão de sua presença na região, nem facilitariam os planos dos EUA e das potências europeias de alterar o equilíbrio regional de forças e de dominar completamente o Mar Mediterrâneo.

Meses depois, durante o ano de 2013, a Rússia foi além, realizou movimentos diplomáticos e militares, e não permitiu que a Otan bombardeasse a Síria com mísseis Tomahawk, a partir de navios localizados no Mediterrâneo, e o chanceler russo Sergey Lavrov liderou uma saída diplomática.

O conflito na Síria, porém, continuou.

A tentativa de contenção da Rússia, que vem recuperando parte da autonomia nacional e regional que tinha no período da União Soviética, fica muito evidente no conflito que envolve a Síria.

A Rússia, desde o período soviético, tem duas bases navais na Síria, em Tartus e Latakia. Moniz Bandeira sustenta que os EUA nunca aceitaram a presença militar da União Soviética, e depois da Rússia, no Mediterrâneo, por isso seu intento de derrubar o governo de Bashar al-Asssad, e depois pressionar o eventual novo governo para que as bases navais russas na Síria desapareçam.

A China tinha investimentos em petróleo na Líbia, e ampliava a cooperação econômica com o país de posição privilegiada no Mediterrâneo. Com as agressões à Líbia e à Síria, também são objetivos dos EUA e seus aliados da Otan a contenção da China e do Irã nas regiões do Oriente Médio e norte da África. O Irã, desde o início se aliou ao governo sírio e se envolveu militarmente no conflito.

Por isso tudo, para Moniz Bandeira, o conflito na Síria é na verdade uma guerra pelo controle do Mar Mediterrâneo, que é uma região de grande relevância geopolítica e geoestratégica, e essa guerra faz parte de um conflito maior, mas não declarado, que ele denomina a Segunda Guerra Fria.

Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, em discurso na ONU, dia 27 de setembro de 2014, criticou duramente os EUA ressaltando que “Washington declarou abertamente seu direito ao uso unilateral de força militar onde bem entenda, para fazer avançar seus próprios interesses”, citando as agressões militares no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria, entre outras.

No conflito da Síria os interesses da Rússia, da China do Irã convergiram, e ao mesmo tempo conflitaram com os dos EUA. Não parece que China, Rússia e Irã, com esses movimentos conjuntos e alianças entre eles, deliberadamente querem confrontar-se com os EUA ou desafiar a supremacia do chamado Ocidente.

Pelo contrário, evitam isso ao máximo, mas não deixam de defender seus interesses nacionais e estratégicos, dentro dos princípios da Carta da ONU. Isso já é demais e inaceitável para os EUA e as potências ocidentais.

A aliança, que se verifica no caso do conflito na Síria, entre Rússia, China e Irã, para defender os interesses comuns desses países frente aos EUA e as potências europeias, é de fato estratégica e duradoura?

Segundo Joseph Nye, em seu livro Compreender os Conflitos Internacionais: uma introdução à Teoria e à História:  em sistemas internacionais “multipolares ou de poder disperso”, as alianças entre os estados são mais flexíveis, e as chances de guerra são menores que em sistemas internacionais bipolares e mais rígidos.

Em sistemas de bipolaridade, são maiores as chances de um conflito mais alargado ou mesmo em escala global. As futuras relações entre os EUA, China, Rússia e Irã – o seu grau de flexibilidade ou de enrijecimento, e se prevalecerá a cooperação ou o conflito entre esses países –, dirão muito sobre a ordem mundial futura.

Na verdade, são os EUA que retomam, para buscar defender a sua hegemonia mundial e tentar relançar o seu status de única superpotência global, elementos de sua estratégia imperialista utilizada durante a Guerra Fria contra a União Soviética e seus aliados de então.

Resta saber como se comportarão agora os EUA em sua política externa,  com a posse de Trump. O desfecho do conflito na Síria será importante para definir o que virá pela frente neste século XXI.


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segunda-feira, 13 de março de 2017

Declínio da Esquerda AL

O DECLÍNIO DA ESQUERDA LATINO-AMERICANA.

Por Alacir Arruda

O que está acontecendo com a esquerda latino-americana? Quase 20 anos depois de conquistar o poder em grande parte do Continente,  a esquerda regional necessita de uma autocrítica e deverá encarar um futuro imprevisível  após a posse de Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos e,  ainda, sobreviver sem um de seus maiores símbolos: Fidel Castro, que inspirou e apoiou ex-guerrilheiros e líderes sindicais que chegaram ao poder nos anos 2000, como Lula e Dilma Rousseff no Brasil, José Mujica no Uruguai ou Evo Morales na Bolívia.

Sob a orientação de Lula e do falecido Hugo Chávez, na Venezuela, uma esquerda heterogênea tomou o poder em toda a América do Sul, com exceção da Colômbia, e com avanços na América Central. Mas, no momento da morte do pai da revolução cubana - em 25 de novembro, aos 90 anos -, muitos presidentes esquerdistas já tinham caído.

Com as recentes eleições presidenciais no Peru e na Argentina, o  referendo na Bolívia, e reformas  legislativas na Venezuela: a esquerda acumula derrotas nas urnas e teve de assistir, em 2016,  impotente ao impeachment de Dilma Rousseff, acusada de maquiar as contas públicas.

E, em 2017, o grupo deve se reduzir ainda mais: Rafael Correa (Equador) não quer um terceiro mandato, enquanto a chilena chilena Michelle Bachelet se prepara para deixar o poder com um balanço de escândalos e promessas não cumpridas. Dois fatores, entre outros,  foram determinantes para o enfraquecimento da esquerda: “a queda dos preços das commodities que sustentaram esses governos e um desejo natural de mudança”.

Influência em declínio

Estes reveses sucessivos provocaram a perda de influência de Cuba, referência histórica da esquerda do continente, que também enfrenta o impacto da grave crise atravessada por seu principal aliado e fornecedor de petróleo com facilidades de pagamento: a Venezuela. Ainda em meio a esta situação e sem fazer grandes concessões, Cuba iniciou uma aproximação histórica com os Estados Unidos que realçou sua imagem perante o resto do mundo.

Mas a ilha já não é essencial para o continente, e os líderes da Revolução terão que se concentrar em dois grandes desafios: a reforma de um modelo econômico obsoleto e a transferência de poder do presidente Raúl Castro à nova geração, esperado para dentro de 15 meses.  “A representação internacional no funeral de Fidel não esteve ao nível esperado. Isso sugere que o status de Cuba está em declínio”, opi­na o ex-diplomata Paul Webster Hare, professor de Relações Internacionais da Universidade de Boston.  Neste contexto, Webster Hare espera “que países como Rússia e China convoquem Raúl Castro a romper com o sentimentalismo da velha revolução e realizar reformas genuínas na economia”.

O desafio Trump

Em um continente atingido por dois anos de recessão, a mística socialista e as políticas de redistribuição foram superadas por uma realidade marcada pelos erros de alguns líderes, sem sucessores à vista.  Em países como Bolívia e Equador, por exemplo, onde o poder está altamente personalizado, as coalizões no poder há quase 10 anos “terão que aprender a se organizar como partidos de oposição”, afirma Christopher Sabatini, da Universidade de Columbia, em Nova York.

Além do acima exposto, os governos de esquerda terão que enfrentar um novo desafio ainda maior: a chegada à Casa Branca de Donald Trump desde janeiro.  Para a maioria dos especialistas, ainda é muito cedo para falar de uma possível “ameaça Trump”, já que o magnata imobiliário parece não ter a América Latina entre suas prioridades, com exceção do tema migratório.

Para alguns especialistas,  a propensão de Trump pela provocação pode fazer o movimento socialista renascer na região.  Se Trump tentar restaurar uma estratégia hegemônica na América Latina, com um tom e estilo agressivos, isto provocaria uma reação em toda a região, não apenas nos países de esquerda,  e  isso pode levar ao surgimento de novos líderes,   " salvadores da pátria", de esquerda no continente.

O presidente Correa  chegou a considerar , em outubro , que a chegada de Trump seria “melhor para a América Latina”, lembrando que a rejeição à administração de George Bush permitiu “a chegada de governos progressistas” durante seu mandato (2001-2009). Quem viver verá.

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domingo, 12 de março de 2017

Brasilia nossa Sodoma

BRASÍLIA A NOSSA SODOMA
Por Alacir Arruda
“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá"  (Cassimiro de Abreu)
Esse pequeno  fragmento da poema,  " Meus Oito Anos" , do grande poeta Cassimiro de Abreu escrito com toda a nostalgia no século XIX,  revela um país lindo, maravilhoso, onde deveríamos ter orgulho de morar. Um país com tantas belezas naturais, abençoado e que está livre de desastres naturais  – como tsunamis, erupções vulcânicas, terremotos e ciclones – deveria ser considerado um paraíso na terra, porém esse paraíso está infestado de cobras que seduzem o seu povo pela maçã do mal, a corrupção.
O nosso país sofre por mãos humanas, por mentes que não possuem  qualquer sensibilidade em orientar e conduzir um povo sofrido. Vivemos em um país que foi tomado pela enchente da corrupção há muitos anos e, ao invés dessas águas baixarem, elas só aumentam, matando seu povo afogado em escândalos.
Não e novidade para ninguém que esse nosso  espírito corruptivo veio a bordo das caravelas portuguesas, que enviavam trabalhadores às terras tupiniquins lhe oferecendo liberdade para fazer o que bem entenderem aqui. O primeiro caso de nepotismo aconteceu com Pero Vaz de Caminha, que pediu ao Rei D. João que seu sobrinho viesse para cá assumir um cargo de confiança. Já o primeiro caso de ficha suja, aconteceu quando o rei enviou ao país Pero Borges para exercer o cargo de ouvidor-geral. Pero foi um político corrupto que havia desviado muito dinheiro em obras que supervisionava em Portugal e, como o rei não o queria por lá, lhe enviou para cá.
De lá para cá se passaram mais de 500 anos e diversos escândalos. Seria impossível, nesse artigo, citar todos, mas, só para refrescar nossa memória, vale lembrar do “caso Collor-1992”, “anões do orçamento-1994”, “escândalo dos bingos-1998”, “escândalo dos correios- 2000”, “mensalão-2010”, “escândalo das ambulâncias-2009” e por último,  a tão famosa “operação lava-jato”, conhecida como “petrolão” e, segundo o procurador da república, Hélio Telho, teremos um escândalo muito maior que o da Petrobrás, e para ele será o do BNDES.
“Que País é esse?” Já perguntava Renato Russo em 1983. Que país é esse que perde cerca de 3% do seu PIB anualmente para a corrupção?
Para servir de base, o Brasil investe cerca de 3,8% do seu PIB na saúde, então você pode imaginar o quanto essa quantia faz falta.
Não sou religioso, e  todos os meus alunos sabem disso, aliás, tenho  sérias criticas a esse comportamento. Porém, julgo a bíblia um importante livro histórico (e apenas histórico) interessante. Estava lendo Gênesis outro dia, quando vi a passagem onde Abraão bateu um papo com Deus e o perguntou insistentemente se houvesse 50, 40, 30 justos em Sodoma o que Deus faria, se Ele pouparia a cidade. Deus todas a vezes disse que pouparia sim, por amor a esses justos.
Seguindo esse pensamento mítico, e o Brasil? Quantos justos ainda há nesse país ao ponto de Deus ainda estar tendo misericórdia?
Infelizmente, para tristeza dos religiosos de plantão, não há tantos justos assim no meio politico brasileiro. Me refiro aqui aqui aos lideres de bancada e presidentes  de partidos, sobretudo, aqueles pequenos, verdadeiras siglas de aluguel, que se vendem em períodos eleitorais com interesses em cargos e acesso as benesses da coisa pública. A politica brasileira pode ser definida assim: "cada um por si e o satanás por todos", a sanha pelo poder dos nossos homens públicos não mede as  consequências. Os interesses dos grupos que se instalaram no poder estão acima dos interesses nacionais e a consequência principal disso, todos  nós sentimos diariamente na pele,  ou melhor, no bolso.
O problema, como ja disse anteriormente, é que a corrupção no Brasil parece estar no nosso DNA.
Usando a mítica bíblica: e se o Brasil fosse Sodoma? Onde estaríamos eu e você?
Será que como cidadãos comprometidos com a nação  seríamos poupados como Ló e sua família? Ou será que seríamos queimados vivos pela ira de Deus? Lembrem-se que Ló era sobrinho de Abraão e estava, juntamente com tio, a caminho de Canaã, a terra prometida, até que foi convencido pela sua esposa de que Sodoma era melhor que Canaã. Sodoma era uma especia de Brasilia, onde a orgia rolava solta a corrupção as trocas de interesses e, sobretudo, a ilegalidade eram comuns. Segundo o mito hebraico-cristão, Deus não teve piedade dessa terra, destruindo-a juntamente com seu povo. Sobre essa ótica, coitada de Brasilia..


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quarta-feira, 8 de março de 2017

As universidades brasileiras e o fundo poço


POR QUE AS NOSSAS UNIVERSIDADES SÃO TÃO RUINS?

Por Alacir Arruda


Se não bastasse uma economia na bancarrota, um governo suspeito e sem rumo, uma horda de políticos corruptos presos, os Estados quebrados e um desemprego astronômico, o Ministério da Educação divulgou hoje a avaliação dos cursos de graduação públicos e privados. O resultado não é bom: somente uma minoria dos cursos alcançou a nota máxima possível. Participaram da prova 447 mil universitários, que estavam se formando. Mais de oito mil cursos foram avaliados em mais de duas mil faculdades. Esse resultado deixa claro que está tudo errado no ensino superior. Não é aceitável  que apenas 1,2% das instituições de ensino superior no Brasil recebam nota 5 (nota máxima do Enade), isso não é razoável para um país que faz parte dos Brincs e figura entre as 10 economias mundiais. Só uma coisa pode justificar tal fato: elas são muito ruins mesmo. 

Essa tragédia da educação superior brasileira começa com a chamada “privatização” no final da década dos 60 e implementada vigorosamente a partir dos anos 70, pela Revolução Redentora. Antigos motoristas de lotação, caso do Sr. Veiga de Almeida, viraram, de maneira prodigiosa donos de faculdades, depois dono da Universidade Veiga de Almeida. Acho que o Brasil é o único país do mundo onde se pode ser dono e senhor de universidade, assim como se é dono de um botequim ou de um bordel ou de um motel. 

No Rio, além do antigo chofer de lotação, tivemos o caso da Universidade Gama Filho, que emergiu de pequeno colégio secundário, de péssima reputação e acabou falindo em 2014. Nos últimos anos estamos alimentado alguns monstros, capitaneados pelo grupo Kroton, que tem hoje, mais de um milhão de alunos em todo o Brasil, com ações na bolsa, que coroará de maneira grandiosa o grande sonho de transformar o ensino brasileiro no mais degradado e prostituído do mundo, e o mais lucrativo. Vamos comprar ações do empreendimento e lucrar com a imbecilização da juventude brasileira.

No plano internacional

Ai a vergonha é maior ainda, a USP é a única universidade Brasileira que figura entre as 250 melhores do mundo, chegou a ser 158º, e em 2012 caiu para 226º. Quem era bom continua bom. Os EUA continuam dominando o ranking. A melhor universidade do mundo, Caltech, é norte-americana. Além disso, 77 das 200 melhores do mundo estão em solo dos EUA.

Reino Unido também vai bem. A Universidade de Oxford ganhou casas e empatou com Harvard, considerada a melhor do mundo por muito tempo, em 2º lugar na lista. Os britânicos têm mais duas universidades no ‘top ten’ (Cambridge e Imperial College).

Nos últimos relatórios internacionais o Brasil foi o único país que saiu do grupo de países com universidades entre as 200 melhores do mundo. Noruega, Espanha e Turquia entraram para o grupo de elite.

Por que estamos indo tão mal?

Não dá para colocar a culpa na metodologia, que não mudou do ano passado para a atual edição. A base de periódicos científicos analisados continua sendo a Web of Science. O problema, ao que parece, é a falta de inglês nos corredores acadêmicos. Como publicamos trabalhos científicos essencialmente em português, quem não fala a nossa língua não consegue nos ler e nem nos citar – algo essencial na atividade científica. E assim, despencamos.

Para piorar o cenário, recentemente foram incluídos na base Web of Science livros e capítulos de livros — que, no caso da produção brasileira, são em português na sua quase totalidade. Essa inclusão foi destacada pelo cienciometrista Rogério Meneghini, responsável pela coleta de dados do RUF (Ranking Universitário Folha). “Citações” é justamente um dos indicadores que fez a USP cair (caiu de 30,2% para 29,4%), ao lado de “ensino” e “pesquisa”.

Outro entrave, poucos estrangeiros:

Não falar inglês prejudicou também outros indicadores, como “internacionalização”. Temos poucas aulas em inglês e, consequentemente, temos poucos alunos e poucos professores estrangeiros, como aponta um dos indicadores em avaliações  o THE. Na Unicamp, a queda do indicador “internacionalização” de 20,9% para 19% foi um dos motivos que levaram a universidade para o fim da fila.

Há quem diga que o problema está no fornecimento de dados pelas universidades brasileiras. Como não temos uma cultura de avaliação, não passamos dados corretamente aos elaboradores de rankings. Outras universidades fazem isso com profissionalismo. É outra hipótese. A USP alegou que vai bem em outros rankings, como no também britânico QS, em que ficou em 127º no mundo. E que está investindo em internacionalização.

Uma verdade é inquestionável, faz-se necessário uma intervenção - "urgente"- do MEC nessas instituições que pensam somente em lucro, onde o aluno é visto como cifrão e são verdadeiras fábricas de diplomas. Já imaginaram  os nossos advogados, médicos engenheiros,  entre outros profissionais do futuro? Em nenhuma parte do mundo se concebe uma universidade que não faça pesquisa, no Brasil pode. Apenas o Brasil dispensa as chamadas "instituições privadas" dessa obrigação, ou seja: enquanto o mundo pesquisa, nós damos aula e aulas muito ruins.  

A minha unica dúvida é: o MEC terá "coragem" de fazer essa intervenção?

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terça-feira, 7 de março de 2017

ENEM E A REFORMA DO ENSINO MEDIO

   COMO FICA O ENEM APÓS A REFORMA DO ENSINO MÉDIO? 


Por Alacir Arruda

Essa é uma das grandes dúvidas que hoje permeia a cabeça de milhões de jovens que se preparam para o ENEM 2017. Porém, é necessário ter muita calma nessa hora. É importante que o aluno saiba que a reforma está prevista, segundo o MEC, para ter inicio a partir de 2018, e as escolas tem até 2022 para sua total implantação. Em face disso, os alunos que prestarão o ENEM neste ano não serão afetados. Porém, aqueles que irão prestar o exame partir de 2018 sofrerão os impactos da reforma. O MEC estuda várias possibilidades, uma delas é de fazer o ENEM por áreas escolhidas pelos alunos, em suma, seriam confeccionados vários exames.

Essa reforma do Ensino Médio, que foi transformada em lei pelo presidente Michel Temer no dia (16) de fevereiro, vai influenciar quem for fazer em 2019. A mudança vai afetar bastante as escolas públicas, que vão ter de se adaptar. O horário integral é o mais impactante, já que nos colégios particulares já se tem uma carga horária grande no Ensino Médio.

Com a sanção presidencial, o próximo passo é a publicação do texto final da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que está sendo debatido e elaborado por um comitê no Ministério da Educação. A BNCC vai ocupar o máximo de 60% da carga horária total do Ensino Médio, aumentando de quatro para cinco horas diárias de aula. O tempo restante deve ser preenchido por disciplinas escolhidas pelo aluno, de acordo com a formação desejada em uma das cinco áreas de interesse — linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional. 

A reforma, além de aumentar a carga horária em sala de aula nos anos do Ensino Médio, afeta também o Ensino Fundamental, quando torna o estudo da língua inglesa obrigatório a partir do sexto ano. 

O objetivo do governo é aprovar primeiramente a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), para somente depois começar a implementar a reforma, gradualmente, a partir de 2018. O texto aprovado divide o conteúdo do ensino médio em duas partes: 60% para disciplinas comuns a todos, a serem definidas pela BNCC, e 40% para que o aluno aprofunde seus conhecimentos em uma área de interesse, entre as opções Linguagens, Matemática, Ciências Humanas, Ciências da Natureza e Ensino Profissional. Originalmente, na MP, o governo federal defendeu uma divisão 50% a 50%.

Outro pilar da medida é ampliar a oferta de turno integral de 800 horas para 1,4 mil horas anuais, mediante financiamento da União aos Estados e ao Distrito Federal durante dez anos. As disciplinas de Filosofia, Sociologia, Educação Física e Artes funcionarão como matérias “optativas”. As escolas serão obrigadas a oferecer as matérias, mas ficará a cargo do aluno escolher estudar as disciplinas ou não.

Pode-se concluir então, que o ENEM 2017 está imune a todo esse conjunto de mudanças e a celeuma que envolve a reforma do Ensino Médio. Se a reforma será positiva ou não só o tempo dirá, o que se tem questionado é a forma autoritária ( por medida provisória) usada pelo governo para aprová-las. Não houve uma discussão mais profunda acerca dessas mudanças, nem a participação efetiva daqueles que, indiscutivelmente, são a espinha dorsal do sistema educacional, os professores. Oxalá essas mudanças atinjam seus objetivos, pois continuar ostentando a ante-penúltima posição, entre 80 nações, como o pior ensino médio do mundo, não é razoável.


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segunda-feira, 6 de março de 2017

ENEM 2017- 100 anos da revolução Russa

100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: UM ESPECTRO RONDOU O CAPITALISMO MUNDIAL.



 Por Alacir Arruda

O que aconteceu  com a ideia politica  que mais se aproximou do cristianismo? Por que o socialismo não vingou? Bom, segundo o maior historiador vivo, Eric Hobsbawn, o socialismo cometeu dois erros cruciais: 1) Colocar a igualdade acima da liberdade.  2) Imaginar que uma economia planificada não criaria  a figura de  ditadores.  Esse ano marca o centenário dos eventos históricos mundiais de 1917, que começaram com a Revolução de Fevereiro na Rússia e culminou em outubro com "dez dias que abalaram o mundo" – a derrubada do governo capitalista provisório e a conquista do poder político pelo Partido Bolchevique, sob a liderança de Vladimir Lênin e Leon Trotsky. A derrubada do governo capitalista num país de 150 milhões de habitantes e o estabelecimento do primeiro estado socialista de trabalhadores em toda a história foi o evento de mais profundas consequências de todo o século XX. Na prática, pôs no poder de um grande país a perspectiva histórica proclamada 70 anos antes, em 1847, por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista.

Ao longo de um ano, o levante da classe trabalhadora russa, reunindo atrás de si dezenas de milhões de camponeses, não pôs fim só a séculos de mando de uma dinastia autocrática semifeudal. O extraordinário salto na Rússia "do czar a Lênin" – o estabelecimento de um governo baseado em conselhos de trabalhadores ("sovietes") – marcou o início de uma revolução socialista mundial que despertou a consciência da classe trabalhadora e das massas oprimidas pelo capitalismo e pelo imperialismo em todos os cantos do planeta.

A Revolução Russa – que irrompeu cercada pela horrenda carnificina que foi a 1ª Guerra Mundial –  foi uma tentativa de provar que é possível um mundo além do capitalismo, sem exploração e sem guerra. Os eventos de 1917 e tudo que se seguiu a eles penetraram fundo na consciência da classe trabalhadora internacional e foram a inspiração política profunda das lutas revolucionárias do século  XX em todo o globo.

O Partido Bolchevique baseou numa perspectiva internacional a sua luta para chegar ao poder em 1917. Reconheceu que a base objetiva da revolução socialista na Rússia tinha fundamento, em última análise, nas contradições internacionais do sistema imperialista mundial – sobretudo no conflito entre o arcaico sistema de estados nacionais e o caráter altamente integrado da moderna economia mundial. Daí portanto que o destino da Revolução Russa dependeria de o poder dos trabalhadores ser ampliado para além das fronteiras da Rússia Soviética. Como Trotsky explicou tão claramente:

"A revolução socialista não pode realizar-se nos quadros nacionais. Uma das principais causas da crise da sociedade burguesa reside no fato de que já não há reconciliação possível, dentro dos limites do Estado nacional, das forças produtivas que a própria sociedade burguesa engendra. Daí as guerras imperialistas, de um lado; e a utopia dos Estados Unidos burgueses da Europa, de outro lado. A revolução socialista começa no terreno nacional, desenvolve-se na arena internacional e completa-se na arena mundial. Por isso mesmo, a revolução socialista se converte em revolução permanente, no sentido novo e mais amplo do termo: só termina com o triunfo definitivo da nova sociedade em todo o nosso planeta" [A Revolução Permanente, nov.1929].

O destino do Partido Bolchevique, da União Soviética e da revolução socialista no século XX dependia do resultado do conflito entre duas perspectivas irreconciliáveis: o internacionalismo revolucionário promovido por Lênin e Trotsky em 1917 e ao longo dos primeiros anos de existência da União Soviética, e o programa nacionalista reacionário da burocracia stalinista que usurpou o poder político da classe trabalhadora soviética. A perspectiva stalinista antimarxista de "socialismo num só país" subjaz às políticas econômicas desastrosas dentro da União Soviética e às derrotas internacionais catastróficas da classe trabalhadora que culminaram em 1991, depois de décadas de ditadura burocrática e desmandos, na dissolução da União Soviética e na restauração do capitalismo na Rússia.

Para os defensores da idéia socialista, o fim da URSS não invalidou a Revolução Russa nem a teoria marxista. Na verdade, ao longo de sua luta contra a traição stalinista, Leon Trotsky já antevia as consequências do programa nacional de "socialismo num só país". A IV Internacional fundada sob a liderança de Trotsky em 1938 alertava que só a derrubada da burocracia stalinista, com restabelecimento da democracia soviética e a renovação da luta para a derrubada revolucionária do capitalismo mundial, poderia evitar a destruição da URSS.

Os líderes imperialistas e seus cúmplices ideológicos saudaram com brados entusiasmados a dissolução da URSS em dezembro de 1991. O fato de que virtualmente nenhum deles ter previsto o tal 'evento' não impediu nenhum deles de proclamar a "inevitabilidade do colapso dos soviéticos". Sem ver um palmo além do próprio nariz, improvisaram teorias que reinterpretaram o século XX do modo que mais bem atendia àquela arrogância coletiva de classe. Todo o nonsense de autossugestão e estupidez das elites governantes e de seus braços alugados nas universidades encontraram expressão máxima na tese do "Fim da História" de Francis Fukuyama. 

A Revolução de Outubro, dizia ele, nada fora além de ponto fora da curva; e assim sendo estava fora do curso capitalista burguês atemporal da história. Na forma de economia capitalista e democracia burguesa, a humanidade chegara ao mais alto e final estágio de desenvolvimento. Depois de dissolvida a União Soviética já ninguém poderia cogitar de encontrar alternativa ao capitalismo, muito menos alternativa baseada no poder dos trabalhadores e da reorganização socialista da economia mundial.

Endossando a revelação de Fukuyama, o historiador Eric Hobsbawm, toda uma vida dedicada ao stalinismo, descartou a Revolução de Outubro e, com ela, todos os levantes revolucionários e contrarrevolucionários do século XX, que definiu como acidentes desafortunados. Os anos entre 1914 (da eclosão da 1ª Guerra Mundial) e 1991 (da dissolução da União Soviética) não teriam passado de desnorteante "era dos extremos", dentro de um "século XX curto". Hobsbawm não diz que sabe o que o futuro trará, nem se o século 21 será curto ou comprido. Só tem certeza de uma coisa: nunca mais haverá revolução socialista comparável, nem de longe, com os eventos de 1917.

Se Passaram 25 anos desde que Fukuyama proclamou o "Fim da História". Supostamente livre da ameaça da revolução socialista, a classe governante teve oportunidade para demonstrar o que o capitalismo pode realizar, se deixado livre para saquear o mundo como bem entenda. Mas qual o resultado das orgias do capital? 

Lista breve dessas 'realizações' incluirá necessariamente o enriquecimento de uma porção infinitesimal da população do planeta; desigualdade social vastíssima e pobreza em massa, infindáveis guerras de agressão que custaram milhões de vidas humanas, o continuado reforço dos órgãos estatais de repressão e a decadência de formas democráticas de governo, a instituição do assassinato e da tortura como instrumentos básicos de política externa, e a degradação de todos os aspectos da cultura.

25 anos depois do fim da União Soviética, é impossível negar que todo o mundo entrou em período de crise econômica, social e política profunda. 


Todas as contradições não resolvidas do século passado estão reemergindo com força explosiva à superfície da política mundial. Os eventos de 1917 adquirem hoje uma relevância contemporânea nova a intensa. Em incontáveis publicações, comentaristas burgueses chamam a atenção, nervosamente, para paralelos já visíveis entre o mundo de 2017 e o mundo de 1917.

A Revolução de 1917 ergueu-se da catástrofe do imperialismo, que foi a 1ª Guerra Mundial. No torvelinho que se seguiu à derrubada do regime czarista, o Partido Bolchevique emergiu como força dominante dentro da classe trabalhadora. Mas o papel que os bolcheviques cumpriram em 1917 foi, ele próprio, o resultado de longa e difícil luta para que se desenvolvesse uma consciência socialista dentro da classe trabalhadora e para fazer prosperar uma perspectiva revolucionária correta. Talvez esteja ai a explicação do porquê a idéia socialista tenha caído em  desuso.


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