quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Prefiro infelicidade 2

PREFIRO A INFELICIDADE CONSCIENTE, QUE UMA FELICIDADE CONFORMISTA  2.

Por Alacir Arruda

Como dizem os cariocas, fico "bolado" com as pessoas que afirmam ter encontrado um caminho para a felicidade plena, como se essa felicidade fosse algo  raro destinado  a poucos. Aliás, sempre achei esse lance de felicidade um embuste do nosso Ego,como afirmou  Freud. Porém, quando toco nesse assunto muita gente me olha com aquela cara,: "do que é que você está falando?"   "Você está maluco?"E por ai vai. 

A grande verdade é que a nossa sociedade é viciada em felicidade. Aprendemos desde cedo que nossas decisões na vida devem ser tomadas baseadas no potencial que as escolhas à nossa frente possuem de nos proporcionar uma vida feliz. Com quem vou me casar? Vou ter filhos? Que profissão vai me realizar mais?  A cada passo que damos, supostamente, devemos fazer a matemática da felicidade em nossa mente e analisar qual opção tem maior potencial. Ficamos furiosos quando depois de um tempo descobrimos que a escolha que fizemos não era a que trazia felicidade, mas sim a outra que abrimos mão.  Um pouco disso e a  culpa da nossa moral Judaico-cristã ocidental. Essa idéia de pecado original nos aflige,   como diria Nietzsche. 

Esse raciocínio está tão impregnado em nossas mentes que temos muita dificuldade em percebermos toda a sua armadilha e decepção. A reação natural quando toco nesse assunto é o questionamento contrário: "então se não vamos procurar a felicidade, vamos fazer o que? Procurar a infelicidade? Aceitar uma vida que não queremos? Qual o propósito disso?"

Esse raciocínio provém da noção de que se não buscarmos a felicidade na vida, então nada nos sobra. Bom, vamos pensar um pouquinho aqui com lógica, ok?! 

O que é realmente essa tal de felicidade? Não de uma forma concreta, mas o que as pessoas estão buscando quando elas medem alternativas tentando descobrir qual delas as fará felizes? 

Conforto, ausência de problemas e desafios, alegria, tranqüilidade, paz…humm…isso  parece ótimo, não? Do ponto de vista social, o final feliz é esse, não é mesmo? Mas você já parou para pensar que não há final algum? Não há final feliz, nem triste, não há final até que sua própria vida acabe! Nossa vida não é um filme que acaba depois que alcançamos nossos objetivos. Então porque tanta gente persegue “sonhos utópicos” como se esses carregassem seus finais felizes? 

Mas vamos um pouco mais fundo..Ja imaginaram que  vidinha mais medíocre essa feliz, hein? Nenhum problema, nenhum desafio, só alegria, só conforto, só paz, só tranqüilidade…Fico imaginando o  quanto demoraria para você se sentir infeliz com toda essa felicidade?! 

Mas Alacir, você está dizendo então que deveríamos ser infelizes? 

É aí que muita gente não entende exatamente do que é que estou falando… 

Felicidade ou infelicidade são percepções do ego. Freud afirma que o nosso ego e nosso algoz, ele só quer elogios,tranquilidade e orgia. Inclusive, já falei sobre isso em artigos anteriores, mas percebi pelos comentários que muita gente não entendeu direito o que eu estava falando… 

Nosso lado egoísta, aquele que tem vontade, que quer as coisas, é que quer ser feliz. Nosso ego não gosta de nada que atrapalhe seu prazer. Se dependesse do nosso ego, ficaríamos em casa o dia inteiro sentados na frente da TV, comendo pipoca e pizza e só levantaríamos para fazer coisas que também são prazerosas. Jamais aceitaríamos qualquer situação que nos proporcionasse qualquer tipo de desconforto… a não ser que visualizássemos um benefício futuro resultante do sacrifício de abrir mão do próprio prazer. 

Como a maioria das pessoas não pode se dar ao luxo de só fazer o que quer de acordo com suas próprias vontades, elas desgostosamente fazem os sacrifícios que a vida lhes impõe, mas seu “sonho” é voltar à condição de prazer máximo. É por isso que buscam a felicidade com tanto ardor. O que elas querem na verdade é eliminar todas as atividades que a vida lhes impõe para que elas possam então desfrutar de tudo de bom que a vida tem a oferecer. 

Muitas pessoas erroneamente interpretam a filosofia Carpe Diem dessa forma. O motivo é que simplesmente não entendem o que poderia haver na vida além de se buscar a própria felicidade. Esse raciocínio, como eu mencionei, é resultado de uma vida inteira tendo essa idéia martelada na cabeça, assistindo filmes de Hollywood que mostram exatamente esse conceito – o filme sempre acaba quando o herói finalmente conquista seus objetivos e então supõe-se que depois do final da estória, ele viveu feliz para sempre. 

A minha percepção sobre esse assunto é altamente influenciada pelas diversas teorias orientais que abominam o ego e suas vontades. 

Esse meu background me leva a crer que não viemos a esse mundo para curtir a vida e sermos felizes, mas sim para evoluir e ajudarmos uns aos outros. Dentro dessa perspectiva, a felicidade parece ser uma grande perda de tempo, um poço sem fundo de mediocridade. 

Acredito que temos uma programação de vida, uma missão (ou várias!) e que a realização desse propósito não envolve conforto, alegria ou tranqüilidade. Quem sente essas emoções é o ego, justamente a parte de nós que não está a fim de cumprir missão alguma, está a fim de ficar quieto, sem ser perturbado ou melhor, só curtir a vida no maior conforto. O ego não gosta de nada difícil, evidentemente! “Difícil” envolve desconforto, desafios e muitas vezes sacrifício sem benefício do final das contas. O ego não quer saber desse tipo de coisa, o ego só topa o sacrifício se ele estiver de olho no benefício que vai usufruir quando terminar. 

O próprio conceito de evolução carrega inerente consigo uma interpretação de benefício, porém, muitos de nós, na condição de seres humanos sem visão de conjunto alguma, não conseguimos ver os benefícios reais. Nosso ego, por sua vez, não topa desafio algum se não for para ganhar nada em troca de todo o sacrifício. É por isso que muita gente simplesmente não entende porque precisamos abrir mão da felicidade. Nossa sociedade está tão impregnada com a idéia de que se não há benefício, não vale à pena, que muita gente não consegue deixar cair a ficha. 

Não é uma questão de ser infeliz, não é isso que estou defendendo! A minha posição é que se preocupar com felicidade ou infelicidade é uma atividade puramente egoísta. O que defendo é não se importar com felicidade ou com infelicidade, simplesmente fazer o que tem que ser feito e ponto final. É difícil? Ok. Vou ter que fazer sacrifícios sem benefício algum? Ok. Viver seu propósito de vida requer esse tipo de postura. 

Não acredito que a felicidade seja o propósito de ninguém! Se fosse pra ser fácil, você não estaria nesse mundo! Você já pensou nisso? 

O negócio então é aceitar a dificuldade sem reclamar, sem ficar dizendo com aquela voz chorona   “minha  vida não é fácil!!”… ( e por que deveria ser?) 

Ao aceitar o que vier, encarar as dificuldades, vencer os desafios sem fugir deles, sem ficar tentando eliminá-los porque você quer ser feliz, porque você quer sombra e água fresca, ao ter essa postura, você encontra sua força interior. É só a partir daí que você pode realmente viver seu propósito de vida! 

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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Reino da idiotice 2

"A GENTE NÃO SABEMOS ESCOLHER PRESIDENTE": MAS TEMOS FACE, WHAT, INSTA, SNAP...(..) O REINO DA IDIOTICE.


Por Alacir Arruda

A Banda de rock paulista Ultraje a Rigor lançou em 1983 uma música chamada "Inútil", a letra é do vocalista Roger e do musico Nelson Motta e vendeu, apesar da censura, 30 mil cópias. Essa música, apesar do tempo, eu considero um desenho tragicômico do nosso país. Ela é mais ou menos assim :

" A gente não sabemos Escolher presidente
A gente não sabemos 
Tomar conta da gente 
A gente não sabemos 
Nem escovar os dente 
Tem gringo pensando 
que nós é indigente. 

"Inúteu"! 
A gente somos "inúteu"! 
"Inúteu"! 
A gente somos "inúteu"! 

A gente faz carro 
E não sabe guiar 
A gente faz trilho 
E não tem trem prá botar 
A gente faz filho 
E não consegue criar 
A gente pede grana 
E não consegue pagar 

"Inúteu"! 
A gente somos "inúteu"! 
"Inúteu"! 
A gente somos "inúteu"! 
"Inúteu"! 
A gente somos "inúteu"! 
"Inúteu"! 
A gente somos "inúteu"!"Inúteu"! 
A gente somos "inúteu"! 
"Inúteu"! 
A gente somos "inúteu"! 

É evidente que na época não havia ainda a internet, mas a letra brinca com a nossa forma coloquial de tratar a linguagem, além de exaltar a grande capacidade que temos de tratar a politica como algo distante do nosso  dia-dia, afinal, cumprimos com o nosso papel cívico a cada 4 anos quando votamos, o resto é com eles não é?. . Carregamos uma crença, quase deística, de que o problema do nosso país são os políticos e não nós, então, para que preocupar com Reforma Politica, Previdenciária, Tributária ou Trabalhista, se tenho Face e Insta....para me entreter.

Gosto muito de ler Umberto Eco, premiadíssimo escritor italiano. A pouco tempo, em uma entrevista à TV italiana, ele profetizou que: " o problema das redes sociais é que elas acabaram, por dar o direito à palavra a uma "legião de imbecis", que antes falavam as suas besteiras em um bar, geralmente depois de uma dose, sem prejudicar a coletividade". Em nossa cultura contemporânea surgiu uma nova forma de retórica, trata-se da arte de escrever para idiotas que, entre nós, tem feito muito sucesso. Pensávamos ter atingido o fundo do poço em termos de produção de idiotices para idiotas, mas proliferam subformas, subgêneros e subautores que sugerem a criação de um nova ciência.

Estamos fazendo piada, mas quando se trata de pensar na forma assumida atualmente pela “voz da razão” temos que parar de rir e começar a pensar.

Artigos ruins e reacionários fazem parte de jornais e revistas desde sempre, porém, com o advento da internet, a arte de escrever para idiotas vem se especializando ao longo do tempo e seus artistas passam da posição de retóricos de baixa categoria para príncipes dos meios de comunicação de massa ( Facebook que o diga) . Atualmente, idiotas de direita tem mais espaço do que idiotas de esquerda na grande mídia. Mas isso não afeta em nada a forma com que se pode escrever para idiotas. 

Diga-se, antes de mais nada, que o termo idiota aqui empregado guarda algo de seu velho uso psiquiátrico. Etimologicamente, “idiota” tem relação com aquele que vive fechado em si mesmo. Na psiquiatria, a idiotia era uma patologia gravíssima e que, em termos sociais, podemos dizer que continua sendo.

Uma tipologia psicossocial entra em jogo na história, baseada em dois tipos ideais de idiotas: o idiota de raiz, dentre os quais se destaca a subcategoria do idiota representante do conhecimento paranoico, e o neo-idiota, com destaque para o “idiota” mercenário que lucra com a arte de escrever para idiotas.

Vejamos quem são:

1- Idiota de raiz é fruto de um determinismo: ele não pode deixar de ser idiota. Seja em razão da tradição em que está inserido ou de um déficit cognitivo, trata-se de um idiota autêntico.

O Idiota de raiz divide-se em três subtipos:

1. 1 – Ignorante orgulhoso: não se abre à experiência do conhecimento. Repete clichês introduzidos no cotidiano pelos meios de informação que ele conhece, a televidão e os jornais de grande circulação, em que a informação é controlada. Sua formação é “ miditizada', mas ele não sabe disso e se orgulha do que lhe permitem conhecer. No limite, o ignorante orgulhoso diz “sou fascista”, sem conhecer a experiência do fascismo clássico da década de 30 e o significado atual da palavra, assim como é capaz de defender sem razoabilidade alguma ideias sobre as quais ele nada sabe. Um exemplo muito atual: apesar da violência não ter diminuído nos países que reduziram a maioridade penal, a ignorância da qual se orgulha o idiota, o faz defender essa medida como solução para os mais variados problemas sociais. Ele se aproxima do “burro mesmo” enquanto imita o representante do conhecimento paranoico, apresentados a seguir.

1.2 – “Burro mesmo”: não há muito o que dizer. Mesmo com informação por todos os lados, ele não consegue juntar os pontinhos. Por exemplo: o “burro mesmo” faz uma manifestação “democrática” para defender a volta da ditadura. Para bom entendedor, meia palavra…

1.3 – Representante do conhecimento paranóico: tendo estudado ou sendo autodidata, o representante do conhecimento paranoico pode ser, sob certo aspecto, genial. Freud comparava, em sua forma, a paranoia a uma espécie de sistema filosófico. O paranoico tem certezas, a falta de dúvida é o que o torna idiota. Se duvidasse, ele poderia ser um filósofo. O conhecimento paranoico cria monstros que ele mesmo acredita combater a partir de suas certezas. O comunismo, o feminismo, a política de cotas ou qualquer política que possa produzir um deslocamento de sentido e colocar em dúvida suas certezas, ocupa o lugar de monstro para alguns paranoicos midiaticamente importantes.

Curioso é que o representante do conhecimento paranoico pode parecer alguém inteligente, mas seu afeto paranoico o impede de experimentar outras formas de ver o mundo, abortando a potência de inteligência, que nele é, a todo momento, mortificada. Isso o aproxima do “ignorante orgulhoso” e do “burro mesmo”.

Em termos vulgares e compreensíveis por todos: ele é a brochada da inteligência.

2 – Neo-idiota: o neo-idiota poderia não ser um idiota, mas sua escolha, sua adesão à tendência dominante, o coloca nesse lugar. Não se pode esquecer que, além de cognitiva, a inteligência é uma categoria moral. O neo-idiota não é apenas um idiota, mas também um canalha em potencial.

Há dois subtipos de neo-idiota:

2.1 – O “idiota” mercenário quer ganhar dinheiro. Ele serve aos interesses dominantes, mas é um idiota como outro qualquer, porque não ganha tanto dinheiro assim quando vende a alma. Nessa categoria, prevalece o mercenário sobre o idiota. Por isso, podemos falar de um idiota entre aspas. Ganha dinheiro falando idiotices para os idiotas que o lerão. Seu leitor padrão divide-se entre o “burro mesmo” e o “idiota cool”. Ele escreve aquilo que faz o “burro mesmo” pensar que é inteligente. O idiota cool, por sua vez, se sente legitimado pelo que lê. O que revela a responsabilidade do idiota mercenário no crescimento do pensamento autoritário na sociedade brasileira. Apresentar Homer Simpson ou qualquer outro exemplo de “burro mesmo” como modelo ideal de telespectador ou leitor é paradigmático nesse contexto.

2.2 – O “idiota cool” lê o que escreve o idiota mercenário. Repete suas ideias na esperança de ser aceito socialmente. De ter um destaque como sujeito de ideias (prontas). Ele gosta de exibir sua leitura do jornal ou do blog e usa as ideias do articulista (do representante do conhecimento paranoico ou do idiota mercenário) para tornar-se cool. Ele segue a tendência dominante. Ao contrário do “burro mesmo”, nele sobressai o esforço para estar na moda. Como, diferentemente dos seus ídolos, ele não escreve em jornais ou blogs famosos, ele transforma o Facebook e outras redes sociais no seu palco.

Diante disso, temos os textos produzidos a partir da altamente falaciosa arte de escrever para idiotas. O sucesso que alcançam tais textos se deve a um conjunto de regras básicas. Identificamos dez, mas a capacidade para escrever idiotices tem se revelado engenhosa e não deve ser menosprezada:

1- Tratar como idiota todo mundo que não concorda com as idiotices defendidas. O texto é construído a partir do narcisismo infantil do articulista. O autor sobressai no texto, em detrimento do argumento. Assim ele reafirma sua própria imagem desqualificando a diferença e a inteligência para vender-se como inteligente.

2- Não deixar jamais que seu leitor se sinta um idiota. Sustentar idiotices com as quais o leitor (o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool) se identifique, o que faz com que o mesmo se sinta inteligente.

3- Abordar de forma sensacionalista qualquer tema. Qualquer assunto, seja socialmente relevante ou não, acaba sendo tratado de maneira espetacularizada.

4- Transformar temas desimportantes em instrumentos de ataque e desqualificação da diferença. Por exemplo, a “depilação feminina” já foi um assunto apresentado de modo enervante, excitante, demonizante e estigmatizante. Nesse caso, o preconceito de gênero escondeu a falta de assunto do articulista.

5- Distorcer fatos históricos adequando-os às hipóteses do escritor. Em uma espécie de perversão inquisitorial, o acontecimento acaba substituído pela versão distorcida que atende à intenção do autor do texto para idiotas.

6- Atacar alguém. Este é um dos aspectos mais importantes da arte de escrever para idiotas. A limitação argumentativa esconde-se em ataques pessoais. Cria-se um inimigo a ser combatido. O inimigo é o mais variado, mas sempre alguém que representa, na fantasia do escritor, o ideal contrário ao dos seus leitores (os idiotas: o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool).

7- Reduzir tudo a uma visão maniqueísta. Toda complexidade desaparece nos textos escritos para idiotas. O mundo é apresentado como uma luta entre o bem e o mal, o certo e o errado, o comunismo e o capitalismo ou Deus e o Diabo.

8- Desconsiderar distinções conceituais. Nos textos escritos para idiotas, conservadores são apresentados como liberais, comunistas são confundidos com anarquistas, etc.

9- Investir em clichês e ideias fixas. Clichês são pensamentos prontos e de fácil acesso. Sem o esforço de reflexão crítica, os clichês dão a sensação imediata de inteligência. Da mesma maneira, o recurso às ideias fixas é uma estratégia para garantir a atenção do leitor idiota (o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool) e reforçar as “certezas” em torno das hipóteses do escritor (nesse particular, Goebbels, o chefe da propaganda de Hitler, foi bem entendido).

10-Escrever mal. A pobreza vernacular e as limitações gramaticais são essências na arte de escrever para idiotas. O leitor idiota não pode ser surpreendido, pois pode se sentir ofendido com algo mais inteligente do que ele. Ele deve ser capaz de entender o texto ao ler algo que ele mesmo pensa ou que pode compreender. Deve ser adulado pela idiotice que já conhece ou que o escritor quer que ele conheça.

Para além do que foi identificado acima, fica a questão para quem deseja escrever para idiotas: como atingir a pobreza essencial na forma e no conteúdo que concerne a essa arte?

A arte de escrever para idiotas constitui parte importante da retórica atual do poder. Saber é poder, falar/escrever é poder, e o idiota que fala e é ouvido, que escreve e é lido, tem poder. O empobrecimento do debate público se deve a essas “cabeças de papelão”, fato que é identificado tanto por pensadores conservadores quanto por progressistas.

O grande desafio, portanto, maior do que o confronto reducionista entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, entre machistas e feministas, parece ser o que envolve os que pensam e os que não pensam. Sem pensamento não há diálogo possível, nem emancipação em nível algum.

Se realmente não houver limites para a idiotice, como afirmou Einstein em 1953, ao contrário da esperança que me levou a escrever esse texto, só resta-nos o isolamento e estocar alimentos.

Quem sabe eu seja um desses idiotas, apesar de não ter Face, Insta, Snap e nem twitter, isso é bem possível. A diferença entre eu e você, é que eu tenho consciência disso!.

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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Nunca antes na historia desse país 2

"NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESSE PAÍS.."

Por Alacir Arruda

O Brasil vive um momento político interessante - para não dizer trágico -   e a frase que marca esse momento é: " Nunca antes na historia desse país". Essa frase, inventada pelo "catedrático" Lula  como lema de seu primeiro mandato, hoje é proferida por situação, oposição, centro,  direita  e  esquerda sempre com a mesma conotação; referir-se a justiça. Então vejamos:

Nunca antes na história deste país um presidente da República havia sido denunciado por corrupção. Michel Temer foi o primeiro, acusado pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, de corrupção passiva. Destinava-se a Temer a mala de dinheiro do Grupo JBS arrastada por rua de São Paulo pelo ex-deputado Rocha Loures (PMDB-PR).

Nunca antes na história deste país um ex-presidente da República havia sido condenado por corrupção. Lula foi ao ser sentenciado pelo juiz Sérgio Moro a nove anos e meio de prisão no processo do tríplex do Guarujá. Se a segunda instância da Justiça confirmar a sentença, ele será preso. Mesmo que não seja, ficará impedido de disputar eleições.

A primeira e única vez até aqui que Lula provou os dissabores da cadeia foi na condição de perseguido pela ditadura militar implantada no país em 1964, e que duraria 21 anos. Muito bem tratado, à época, pelo delegado Romeu Tuma, que depois se tornaria seu amigo e ingressaria na política, Lula fez greve de fome chupando balas. Foi logo solto e virou herói.

Mesmo que por ora solto e candidato a roubar do ex-ministro José Dirceu a condição de “guerreiro do povo brasileiro” conferida pelos militantes do PT, dificilmente Lula será encarado daqui para frente como herói pela larga maioria daqueles que no passado recente o enxergaram como tal. Sua biografia ganhou para sempre a mancha indelével da corrupção.

Pouco importa que ainda ostente o título de campeão das pesquisas de opinião pública com algo como 30% das intenções de voto para presidente se as eleições fossem hoje. . Tais pesquisas também o apontam como campeão de rejeição. Mais de 60% dos entrevistados dizem que jamais votariam nele. De resto, só haverá eleições em outubro do próximo ano.

A condenação de Lula por Moro produzirá efeitos no campo da esquerda. De saída reforçará as chances de Ciro Gomes (PDT-CE) de conseguir o apoio do PT para concorrer à presidência. Não se descarte a hipótese de Dilma desejar a mesma coisa. Afinal, em desrespeito à Constituição, seus direitos políticos foram preservados, embora ela tenha sido deposta.

Se escapar da Lava Jato sem maiores sequelas, pela direita o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) é o nome que terá mais a lucrar lucrar com a condenação de Lula. O prefeito João Dória não será páreo para ele na coligação de partidos a ser encabeçada pelo PSDB. A Dória restará a candidatura ao governo de São Paulo que atrai também o senador José Serra.

Quanto a Temer... Bom,  mesmo que a Câmara negue autorização para que seja julgado pelo Supremo Tribunal Federal, enfrentará uma segunda e talvez a uma terceira denúncia por corrupção e obstrução da Justiça, fora as delações do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e do doleiro Lúcio Funaro. Caso sobreviva, governará como um morto-vivo”. Uma verdade é inconteste:  Nunca antes na historia desse país havíamos visto isso..


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segunda-feira, 17 de julho de 2017

Aceitemos essa verdade!!

" A ÚNICA CONCLUSÃO É A MORTE!"

(Fernando Pessoa)

Por Alacir Arruda

Alguém certa vez me disse: "Alacir, a  falta de sono nos faz delirar(....) " Sou prova disso, pois as  04h00 da madrugada resolvi  plagiar o maior poeta da Língua Portuguesa Fernando Pessoa. Porque acredito que essa frase é, absolutamente,  Schoperaureana - Nitiana,  e como  admirador desses dois filósofos resolvi refletir.
Para que verdades? Conclusões? Aliás, por que  precisamos sempre explicar as coisas, os fatos? E o imponderável? Onde ele reside? Talvez esteja ai  a grande responsável pelas nossas angustias e frustrações. A nossa incapacidade de lidar com as  limitações inerente  a nossa espécie e a  certeza de que carregamos um “cadáver”  em nossas costas  nos  eleva a uma espécie de “cegueira branca” (aquela do  Saramago), em que  preferimos  fingir de cegos a  encarar a única conclusão da vida, a morte!
Ate as malfadadas religiões (e aqui não poupo nenhuma)  tentaram nos ludibriar com  elucubrações e delírios  como a existência de  “deuses, céu, paraíso vida eterna”  entre outras insanidades,  porém, o objetivo final de toda essa celeuma é nos aliviar da certeza de nosso fim. Uma pergunta paira no ar: "Por que queremos a vida eterna?"  Qual o objetivo em continuar a viver,  mesmo que no plano espiritual? Talvez Freud EXPLIQUE.
Segundo o criador da psicanálise, “Nós,  criaturas civilizadas,  tendemos a ignorar a morte como parte da vida...no fundo ninguém acredita na própria morte, nem consegue imaginá-la. Uma convenção inexplícita faz tratar com reservas a morte do próximo. Enfatizamos sempre o acaso: acidente, infecção, etc., num esforço de subtrair o caráter necessário da morte. Essa desatenção empobrece a vida...”.
Schopenhauer (1788-1860) pontua que certas religiões ou filosofias não preparam o homem como de fato seria necessário, assim por vezes o mesmo apresenta conceitos que o tornam inseguro. “É, de fato, uma coisa questionável imprimir precocemente no homem, nesse assunto tão importante, conceitos fracos e insustentáveis, e assim torná-lo para sempre incapaz de admitir o que é mais correto e seguro.” (Schopenhauer, 1788-1860,p.60).
Nietzsche ( 1844-1900),   afirma que o cristianismo promete vida eterna aos que souberem viver bem a vida, alimentando uma falsa esperança de um mundo ilusório, aquilo que ele  de chama de “morte covarde”. Para fundamentar sobre as conseqüências da morte não livre, Nietzsche faz menção à lembrança inerente ao homem do “foi assim”, considerado por ele como a causa de todo o sofrimento humano, sendo este submetido ao tempo que passa, perdendo a possibilidade de mudança da realidade. O homem não tem noção real de tempo, sendo acometido à morte que “parece ser um acidente que assalta”.A morte surge, para essas pessoas, como uma fatalidade.
Filósofos à parte, CONTINUEMOS  a nossa reflexão sobre a incapacidade  humana em lidar com sua finitude.. Talvez o capitalismo, cada vez mais selvagem e individualista, seja uma das conseqüências desse nosso temor, pois  ao apegarmos a bens materiais, nos auto-afirmarmos nesses produtos a ponto de torná-los a nossa razão de existir. Senão vejamos, um individuo que hoje possui uma Ferrari, essas de  ultima geração,  acaba por perder seu nome e sua identidade enquanto ser,  ele passe a ser o “fulano da Ferrari” e assim segue com outras marcas de  destaque. Certa vez ao entrar em uma loja de departamento ouvi a vendedora chamando por uma cliente que estava saindo: “ senhora!..senhora!....É  a senhora mesmo da Louis Vilton....A senhora esqueceu a sua identidade aqui no caixa (..) Detalhe, ela esteva com a identidade da senhora na mão, por que nao a chamou pelo nome? 
Por isso  eu insisto:... "A  única conclusão que existe é a morte". Aceite-a!!!!!

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ENEM 2017 -Uma Nova Ordem Mundial

UMA NOVA ORDEM MUNDIAL.

Por Alacir Arruda


Agencia Reuters

2017 tem sido um ano de transformações politicas nunca antes vista na historia. O crescimento da extrema direita no mundo civilizado - entenda Europa - , a  vitória de Trump nos Estados Unidos e as interferências russas em eleições de países como USA e França marcaram esse primeiro semestre. A era da hegemonia norte-americana e do neoliberalismo sempre foi,  por definição, tempos de turbulências e incertezas. Ninguém,  e  nem nada, pode prever com certeza um futuro imediato, menos ainda o de médio e longo prazo. Mas o acúmulo de acontecimentos permite projetar 2018 como um ano em que desenhará, com mais clareza, o surgimento de um mundo mais que multipolar.

O fim da Guerra Fria fez o mundo retroagir ao período histórico da hegemonia britânica, em que uma única potência detinha o predomínio mundial. A decadência britânica introduziu um tempo de disputa hegemônica primeiro entre os EUA e a Alemanha, com duas guerras mundiais no meio, depois entre os EUA e a URSS, no cenário chamado de "guerra fria".

O fim desta ultima fez com que a humanidade voltasse a um mundo unipolar, desta vez com a hegemonia imperial norte-americana. Não tardou a se anunciar que a história terminaria desembocando nessa hegemonia, que trazia, com ela, a economia capitalista de mercado e a democracia liberal, como horizontes insuperáveis da história. Seguiriam havendo acontecimentos, mas todos enfeixados nesse marco, que nos aprisionaria definitivamente. Ao invés de rodar para frente, a história teria retrocedido e ficado congelada. A superioridade militar, econômica, política e ideológica dos EUA não permitiram alimentarmos ilusões em outra direção. O fim do socialismo, que seria o futuro da humanidade, na concepção derrotada, relegava esse tipo de sociedade para o museu da história, como um longo parêntesis finalmente encerrado. A economia capitalista passava a ser simplesmente "a economia", a única possível, assim como a democracia liberal, a única democracia possível.

Porém a Pax Americana não trouxe o fim dos conflitos bélicos, mas sua multiplicação, ao mesmo tempo em que o reino do mercado não trouxe de volta o crescimento econômico, mas a recessão prolongada. Como resultado dessas contratendências, surgiram governos antineoliberais, como na América Latina, assim como forças que se coordenam pela construção de um mundo multipolar, como aquelas congregadas nos Brics.

Aquele episódio que parecia ser mais um exercício da superioridade militar dos EUA e dos seus aliados no bloco imperialista ocidental – como havia ocorrido no Afeganistão, no Iraque, na Líbia -, o da destruição do governo da Síria, como passo prévio para o bombardeio do Irã, acabou promovendo uma grande reviravolta que, somada a outros fenômenos, aponta para o surgimento desse mundo multipolar.

Os EUA não conseguiram criar as condições do bombardeio do Irã,  ao contrario, nem dentro do país, nem com seus aliados, ao contrario,para surpresa de analistas, houve ate uma certa aproximação entre Teerã e Washington. . A Rússia que se aproveitou disso,pois foi ela quem propôs um processo de negociação entre os EUA e o Irã, que teve sucesso, desarticulando os planos bélicos de Israel, apoiado pela Arábia Saudita e realizando o primeiro processo de resolução pacífica de um conflito importante no mundo, em muito tempo.

Esse sucesso foi o preâmbulo que permitiria uma resolução da também aparentemente interminável guerra na Síria. A Arábia Saudita incentivou o apoio ao chamado Estado Islâmico, hohe em fase terminal, que tornou-se a força fundamentalista e terroristas que que ameaçou os  governos no Oriente Médio,  e  em todo o mundo nos últimos 4 anos,   com suas ações terroristas. Como um dos seus efeitos, a guerra na Síria polarizou-se entre o EI e o governo sírio, tirando do cenário supostas forças de oposição moderada, usadas como pretexto para os EUA apoiar as tentativas de derrubada do governo sírio. O acordo entre a Rússia, a Turquia e o Irã, chancelado pelo Conselho de Segurança, apoiado na derrota do EI, pela intervenção decisiva das tropas russas, promoveu um novo grande acordo, desta vez sem os EUA.

A esse novo horizonte se soma à aliança em torno dos Brics, tendo a Rússia e a China como protagonistas essenciais, como forças que promovem o fortalecimento de modelos de desenvolvimento econômico com distribuição de renda, como contrapartida do esgotamento do neoliberalismo e a prolongada recessão em que desembocou esse modelo.

Tem ainda o  Brexit e a vitória de Donald Trump que apontam cada vez mais para a recuo do processo de globalização, com políticas protecionistas e enfraquecimento dos processos de livre comércio se impondo nas duas potências, que desde há mais de um século comandam, aliadas, o bloco imperialista no mundo.

A combinação desses fatores, com a retirada da Grã Bretanha da União Europeia, assim  como as ações - algumas desastrosas - do  governo de Trump, farão  com que aquilo que  já se vinha desenhando com o esgotamento do modelo neoliberal, a incapacidade dos EUA de concluir as guerras no Afeganistão e no Iraque e sua impotência diante da extensão dos conflitos bélicos para toda a região, bem como o fortalecimento da capacidade da Rússia como ator político e militar global, contribuirá para criação  de  um novo cenário mundial, onde atores como China e Rússia deverão ser os protagonistas. 

Um mundo que tem que ser, para a América Latina, um espaço de novas oportunidades, para fugir definitivamente de ditadores déspotas e uma extrema-esquerda que afundou países como:equador, Venezuela e Bolívia, além da hegemonia norte-americana, buscando aprofundar alianças que promovam a solução pacífica dos conflitos mundiais e apoiem políticas de desenvolvimento econômico com distribuição de renda. O Brasil, a Argentina, o México e todos os países do continente devem orientar suas políticas externas na perspectiva desse novo horizonte mundial.

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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Platão.

PLATÃO EXPLICA O BRASIL.


Por Alacir Arruda

O Brasil passa por um momento único em sua historia, os últimos dois  presidentes, e o atual,  acusados de desvios de dinheiro publico, grande parte dos parlamentares envolvidos em corrupção, uma economia estagnada que produziu 14 milhões de desempregados, pergunta que não quer calar: " e o povo, onde está"? Está por aí, alienado por novelas e futebol, vivendo no mundo  sensível, como dizia Platão, e abandonando o mundo das ideias.

Usando platão como referência, esse filósofo grego, acreditava que o mundo que conhecemos não é o verdadeiro. Para ele, a realidade não estava no que podemos ver, tocar, ouvir, perceber. A verdade, para Platão, é o que não se modifica nunca, o que é permanente, eterno. Mas como encontrar essa verdade?

Na filosofia de Platão existem dois mundos: o primeiro é aquele que podemos perceber ao nosso redor, com os cinco sentidos. O outro é o mundo das ideias, onde tudo é perfeito e imutável. Não podemos tocá-lo, ele não é concreto. Só o pensamento pode nos levar até lá. Para entender melhor isso, a gente precisa lembrar uma história que Platão criou: o Mito da Caverna.

Nossa vida, para Platão, é como a dos prisioneiros do mito, acorrentados no fundo da caverna. Vemos as coisas que conhecemos como se fossem reais, mas não passam de sombras, ilusão. A verdade está fora da caverna, no mundo das ideias, na luz. Ou seja: é preciso desconfiar do que nossos olhos e ouvidos dizem. Devemos nos guiar pelo pensamento e pela razão. Foi em torno dessa ideia que nasceu a Filosofia, no fim do século V antes de Cristo.

O filósofo grego foi ainda mais longe: Platão afirmava que o corpo era um túmulo que aprisiona a alma. Um obstáculo ao pensamento. Platão acredita que para atingir a verdade e o bem, você deve se libertar da sedução dos sentidos. São os apelos do corpo, que nos levam a paixões descontroladas e nos afastam da verdade. Platão dizia que ele deve ser sempre submetido às avaliações do pensamento.

Mas qual a relação entre o mundo dos sentidos e o das ideias? Tudo o que a gente vê e percebe ao redor são cópias malfeitas das ideias, que são perfeitas e eternas. É como se a natureza e as pessoas fossem uma cópia de modelos que só existem no mundo das ideias. O que Platão quer com isso é distinguir o verdadeiro do falso, o semelhante do diferente, a essência da aparência.

Você sabia que Platão também desconfiava da arte? O motivo: ela seduz nossos sentidos e nos desvia da busca pela verdade. O artista se inspira em coisas que existem no mundo, ou seja: em cópias, por exemplo, como em uma mulher.

Uma mulher é a cópia de um modelo perfeito de outra que só existe no mundo das ideias. A arte, portanto, seria cópia da cópia - duplamente enganadora.

As ilusões da arte atrapalham, a filosofia, não! Só ela é capaz de conduzir o homem ao bem e a verdade!

O que a herança platônica nos deixou foi uma forma de avaliar o mundo que opõe o bem e o mal a partir de modelos fixos, de ideias. Vivemos guiados por ideais - o ideal de corpo, de filho, de marido - mas será que é possível atingi-los? Será que viver nas sombras é pior do que viver na luz, como Platão imaginou? Será que a cópia é pior do que o original? Existe mesmo um original?

Nesse mundo de mudanças, o que existe são diferenças. E em nossas diferenças, somos todos originais. O Brasil precisa acordar para isso.


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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Educação: ainda estamos na Idade Media

POR QUE A NOSSA EDUCAÇÃO É ULTRAPASSADA?

Por Alacir Arruda

Durante o período que palestrei para professores da educação básica, sempre  contava essa historinha para iniciar nossa reflexão:  "Se fosse possível ressuscitar um médico cirurgião, formado em medicina em 1920, e colocarmos ele hoje numa sala de cirurgia, será que ele conseguiria operar? Com certeza não! A medicina , nesses últimos 90 anos, evoluiu de tal forma que ele sequer acharia a sala de cirurgia, quanto mais operar. Agora pensemos o professor:  Se pegarmos um professor , que dava aula em 1890,  e o  colocarmos  numa sala de aula hoje, será que ele conseguiria ministrar uma aula? Com certeza! Sem dúvida que sim. pois ele encontraria em sua frente uma lousa com uma  caneta pilot, ou quadro negro e giz, uma mesa, carteiras e um bando de alunos com seus cadernos, livros (ou apostilas), sentados, olhando para a cara dele, exatamente como há 120 anos.

Sempre disse isso e reforço: "A educação no Brasil é um dos seguimentos que menos evoluiu nos últimos  100 anos." 95% dos nossos professores ainda dão aula, como se isso fosse algo positivo -. Aula não ensina nada para ninguém, e prova não avalia. Mas insistimos nesse modelo medieval, onde o aluno é obrigado a assistir aulas hibridas onde ele não se vê. No Brasil o aluno e tratado como um "imbecil", um bobo alegre,  que nada sabe, que deve copiar matérias desconexas com sua realidade e gravar fórmulas para a prova,  e  por ultimo, ele deve respeito ao professor, esse sim, detêm o conhecimento. Vocês sabem o que esse modelo conseguiu nos últimos anos? Fazer com que o educando "odeie" escola e tenha ojeriza de algumas disciplinas e, por extensão, da cara do professor. . Onde está o aluno como agente? 

Quando falo isso sou muito criticado, sobretudo pelos meus pares, que sempre  me perguntam:  "-fazer o que então Alacir, uma vez que fomos  doutrinados a fazer assim?" Sempre penso muito antes de responder, pois se eu falar o que penso,  os ofenderia. Mas pensemos o seguinte: " seria possível uma outra forma de educar?" Bom, usemos a   Finlândia como exemplo, que  parece um país muito distante quando buscamos pelas gélidas imagens das suas paisagens na internet,   mas ela  investe cerca de 50% do seu PIB em Educação.

A Finlândia é bem menor que o Brasil, com uma população de pouco  mais de 5 milhões de habitantes (estimada em 2013),  a Finlândia é o exemplo do que seja educação moderna. A  chefe do seu Departamento de Educação – Marjo Kyllönen –,  que recentemente esteve no Brasil, tem levado ao mundo as novas perspectivas do país para a área.

Desde 2015, Kyllönen tem trabalhado na “abolição” das disciplinas tradicionais dos currículos escolares. Isso significa que não haverá mais aulas de Matemática, Química, Física, História, Geografia, Finlandês ou qualquer matéria que tenha seu conteúdo isolado das demais. Exatamente o que praticamos aqui..Aulas hibridas,desconexas e sem qualquer razão de existirem. O aluno por sua vez se sente uma besta,chega em casa meio dia a mãe pergunta: " -teve aula de que hoje filho?". O filho,  " puto" de raiva, responde: "-pô mãe, eu ja fiz muito de ir na aula, lembrar que matérias tive,  ai já querer demais...sei lá!"

A chefe do Departmento de educação da Finlândia explica ainda que  “há escolas que estão ensinando à moda antiga, o que foi benéfico no início dos anos 1900 – mas as necessidades não são as mesmas, e precisamos de algo adequado para o século XXI”.

A FINLÂNDIA DEU ADEUS, SÉCULO XIX ( nós ainda estamos lá).

Para isso, professores, diretores, pais e alunos têm trabalhado em conjunto para adequar o procedimento cujo objetivo é permitir que os alunos estudem eventos e fenômenos em um formato interdisciplinar.

Por exemplo, uma aula da Segunda Guerra Mundial será examinada a partir da perspectiva da História, Geografia e Matemática, fazendo com que os alunos também interajam com todo um conjunto de conhecimentos sobre Língua Inglesa, Economia e habilidades comunicativas.

Este sistema será introduzido aos estudantes mais velhos, de 16 anos. A ideia geral é que eles possam escolher o tópico ou o fenômeno que querem estudar, tendo em mente suas ambições para o futuro e suas capacidades.

Dessa forma, nenhum aluno terá que passar por um curso inteiro de Física ou Química, perguntando-se o tempo todo: “Pra que eu preciso saber isso?”.

A grande diferença entre a reforma finlandesa e a recente reforma brasileira é que a primeira está sendo feita com diálogo e muita cautela a fim de respeitar os estágios tanto dos alunos quanto do próprio sistema educacional.

Assim, os pilares da estrutura não são simplesmente arrancados, desmoronando o [pouco do] alicerce que [ainda] existe.

E COMO FICA A RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO?

O formato tradicional de comunicação professor-aluno também está mudando. Os estudantes não se sentam mais atrás das carteiras e esperam a explicação do professor. Em vez disso, eles trabalham em pequenos grupos para discutir problemas.

Este sistema será introduzido aos estudantes mais velhos, de 16 anos. A ideia geral é que eles possam escolher o tópico ou o fenômeno que querem estudar, tendo em mente suas ambições para o futuro e suas capacidades.

Dessa forma, nenhum aluno terá que passar por um curso inteiro de Física ou Química, perguntando-se o tempo todo: “Pra que eu preciso saber isso?”.

A grande diferença entre a reforma finlandesa e a recente reforma brasileira é que a primeira está sendo feita com diálogo e muita cautela a fim de respeitar os estágios tanto dos alunos quanto do próprio sistema educacional.

Assim, os pilares da estrutura não são simplesmente arrancados, desmoronando o [pouco do] alicerce que [ainda] existe.

Isso mostra que o sistema educativo finlandês encoraja o trabalho coletivo (que é bem diferente de competição), razão pela qual as mudanças também afetam os professores.

A reforma escolar está exigindo uma grande cooperação entre professores de diferentes disciplinas.

Cerca de 70% dos professores de Helsínquia, capital da Finlândia, já realizaram trabalhos preparatórios em consonância com o novo sistema de apresentação de informações e, consequentemente, estão recebendo um aumento salarial.

MENTALIDADE DA SOCIEDADE AJUDA NO PROCESSO DE ADAPTAÇÃO

Quando coordenei uma Escola pública em São Paulo - era o ano de 2006-  implantei esse modelo no 1 ano do ensino médio como experiência. Um dia uma mãe soube que a escola havia abolido as provas tradicionais. Mal tive tempo de comemorar a liberdade das amarras do século passado, quando essa mãe procurou a Diretora  e disse  que a coordenação havia mudado o modelo avaliativo  e que eu teria de voltar atrás na minha  postura,  porque os outros  pais ficaram revoltadíssimos com o “novo” procedimento.  ( isso ocorreu em Guaratinguetá -SP ano de 2006)

Será que esses mesmos pais aceitariam as políticas educacionais finlandesas? Tudo indica que não. E os professores? Estão preparados para isso?

Em entrevista à organização Porvir,  a Chefe do Departamento de educação d Finlândia, Kyllönen, deixou  bem claro que o apoio da comunidade é fundamental e quando é perguntada sobre a opinião dos pais dos alunos a respeito das mudanças, a resposta é categórica:

“Na Finlândia, temos o privilégio de ter uma sociedade que valoriza a educação e os professores. Existem algumas escolas que estão dando apenas os primeiros passos e outras muito avançadas nessa reforma de suas rotinas. A resposta dos pais, no entanto, é muito satisfatória porque seus filhos estão verdadeiramente motivados.”

E no Brasil?

Estamos todos (ou deveríamos estar) cientes de que os rumos da Educação no Brasil – assim como os da Economia e Política – são incertos e preocupantes.

Passamos por uma fase que muito se assemelha à Idade Média em muitos aspectos, mas isso não significa que enquanto nós reclamamos atrás das telas dos nossos computadores, não existam pessoas trabalhando para a melhoria da população como um todo.

Como um TODO, não apenas para poucos privilegiados por uma meritocracia ilusória. Em setembro de 2016, por exemplo, a própria finlandesa responsável pelas mudanças em seu país participou do evento brasileiro Educação 360, “um encontro internacional que reúne pessoas que vivenciam e pensam a educação sob diferentes e novos pontos de vista e põem em prática iniciativas transformadoras”, promovido pelo Sesc e outros parceiros.

Há esperança e há caminhos claros a serem trilhados em busca de uma educação que abra a mente dos nossos cidadãos e quebre suas amarras. O que não há é desculpas para atribuir a culpa a terceiros enquanto se assiste à novela das nove.

“Tudo isso faz com que a gente reescreva a narrativa das nossas escolas. Os alunos precisam saber como aquilo que estão aprendendo está conectado com sua vida cotidiana. Queremos ser um país onde todos amam aprender.”, finaliza Marjo Kyllönen, defendendo uma abordagem cada vez mais holística do ensino e da aprendizagem.

É isso....reflita!

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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Bauman e o Refugo Humano

"O REFUGO HUMANO"

Por Alacir Arruda

A Reforma Trabalhista proposta pelo governo Temer tem sido objeto de muitas críticas por possuir alguns pontos que tem como propósito principal, atender as necessidades de um mundo onde o capitalismo transcende as fronteiras de seus objetivos iniciais, qual seja, o comércio e o lucro, na verdade esse capitalismo do século XXI passou a atingir diretamente as pessoas naquilo que é considerado mais primário à sua sobrevivência,  o seu trabalho.

Um exemplo é o artigo desse projeto que institui o  chamado;"Trabalho Intermitente"  que, em resumo define o seguinte: A empresa me chama para trabalhar 8 horas, vou lá, faço às 8 horas, recebo por estas 8 horas e vou embora e aguardo a empresa me chamar e assim por diante. Se a empresa não quiser mais meus serviços simplesmente não me chamará mais, ou melhor, meu telefone celular não mais  tocará. Pronto, termina ai relação contratual: sem despedidas, sem indenizações, nem mesmo um obrigado ou um até logo. Ou seja, é o fim das garantias básicas de um trabalhador. 

Pensando nisso,  e no bojo das transformações geradas pelo capitalismo, ou mais precisamente pela globalização,  onde os seres humanos estão sendo deixados do “lado de fora”, ou melhor, excluídos do mundo social, pensei em falar de Zigmunt Bauman que há mais de 15 anos escreveu uma obra prima chamada:" Vidas Desperdiçadas" onde ele já previa que o ser humano caminhava para ser  transformado em um produto que,  como qualquer outro, seria descartado, ou como ele refere no livro, refugado. O famoso "Refugo Humano."  Vamos refletir um pouco essa obra.

Nesse espetacular livro que versa tanto sobre as conseqüências do processo de globalização no trabalho, como também sobre o cenário sombrio em que se encontra a vida humana, Zygmunt Bauman reflete de modo bastante simples sobre o banimento da maioria dos indivíduos do progresso da modernidade.

Em Vidas desperdiçadas, Bauman classifica os seres humanos que não conseguiram permanecer no carro da modernidade e que não conseguem se inserir no processo de globalização de “refugo humano”. A globalização é excludente, traiçoeira, eliminadora. Ela causa morte, fome, desemprego e caos para milhões de seres humanos, afirma Bauman.

Produz dejetos, sujeiras e lixo humano que são jogados longe dos grandes centros urbanos e são colocados em grandes depósitos em terras inabitadas, sem qualquer tipo de organização, de política de reciclagem. Nosso planeta está cheio, afirma Bauman, está cheio porque a modernização se globalizou chegando a terras longínquas, penetrando nos costumes, na organização do modo de vida de povos que não se interessavam pela corrida ao progresso.

Como o processo de produção de refugo humano é inquebrantável, ou seja, não pára um só instante, as áreas do globo estão cada vez mais lotadas, saturadas. Onde colocar o lixo, então? Essa questão é a que é mais debatida neste novo ensaio de Zygmunt Bauman sobre o processo de globalização e suas conseqüências.

“O mundo está seguro?” – pergunta Bauman. Como podemos perceber um mundo seguro onde existem milhares de refugiados, de asilados e de guetos almejando somente uma chance para pular no carro do progresso. Não estamos seguros pelo motivo de estarmos pisando em terreno minado, onde a qualquer momento soa o alarme de combate às ações terroristas, aos refugiados e ao refugo humano.

Essa é a expressão da vida contemporânea, carregada de uma ideologia consumista que prega a individualização do individuo e, conseqüentemente, a negação do sentido humano de solidariedade. Neste caminho segue a produção de refugo humano e de lixo em maiores quantidades, haja vista que a sociedade de consumidores se sobrepôs à sociedade de produtores. Quem não consume torna-se refugo humano e o que é consumido transforma-se em lixo, dejeto ou sujeira.

Este excêntrico livro está dividido em quatro grandes capítulos capazes de esclarecer o leitor no que diz respeito aos males da pós-modernidade como também às maléficas conseqüências da globalização. Ademais, todos os capítulos ressaltam aspectos importantes para entendermos a vida humana, ou melhor, a vida contemporânea no torvelinho dos acontecimentos sociais.

No primeiro capítulo, Bauman terce uma análise dos projetos que os indivíduos pós-modernos batalharam para criar. Tudo aconteceu a partir da chamada geração X, com o surgimento de uma nova doença tão pouco existente nas gerações anteriores: a depressão. As causas desta estavam diretamente relacionadas às dificuldades enfrentadas pela geração X, como o aumento do desemprego.

A globalização mudou a trajetória de vida desta geração, acabou com sonhos e projetos, criou dicotomias, rompeu com tradições e acelerou suas vidas. A globalizante modernidade líquida deixou pra trás a sociedade de produtores por uma sociedade de consumidores onde o que impera é a produção de refugos e de lixo. Ela fez com que os projetos humanos causassem a desordem e o caos no “admirável mundo líquido”.

Este capítulo trata também da internet, essa potente ferramenta da modernidade. A tecnologia com seus ciberespaços transformaram a internet em mais um deposito de refugo de informação. O ciberespaço concentra milhões de informações descartáveis e inúteis. Por outro lado, os sites contabilizam números recorde de informações sobre refugo (lixo). Digitando no buscador google a palavra refugo (lixo) encontraremos 11.500.000 sites referente ao tema. Este fato reforça a idéia de que o lixo está se tornando um dos problemas mais angustiante de nossos dias.

O refugo humano (as pessoas) está excluído de tudo, a lei não o contempla, os governos não se responsabilizam por eles. Vivemos no caos e na ordem. Os humilhados e excluídos do sistema, correspondem à maioria dos seres humanos existente na terra.

Bauman salienta no segundo capítulo deste livro que o mundo está super populoso e que não existem mais terras para a enorme produção de refugo humano O debate em torno das questões demográficas ganha sentido quando, afirma Bauman, que existem países bastante povoados e países pouco povoados. A questão central deste capítulo gira em torno de um paradoxo: os órgãos governamentais afirmam que a população de 6,5 bilhões de habitantes existente na terra cresce rapidamente e que não haverá comida suficiente para todos. No entanto, a distribuição desta superpopulação é irregular, desordenada e caótica. O território europeu concentra uma grande quantidade de pessoas por kilometro quadrado. Já a população da África é insuficiente para o seu território. A questão são os recursos financeiros que cada país dispõe para sua população.

Superpopulação gera refugiados e asilados, um dos grandes problemas das nações ricas. O medo surge como marca de nações como os Estados Unidos, a Inglaterra e França. Atentados como o 11 de setembro mudaram os programas governamentais para refugiados e asilados. Agora estes são visto em muitos casos, como potenciais terroristas. A mídia incita os cidadãos e o próprio governo a xenofobia. Nasce, dessa maneira, uma genealogia do medo baseada no receio ao terror e ao estranho (imigrantes, refugiados e asilados).

Os estranhos (imigrantes, refugiados e asilados) têm como função receber toda a descarga de raiva e as ansiedades dos indivíduos, sobretudo por representarem um perigo para a segurança dos cidadãos. Daí, eles se tornam alvos fáceis de tema de campanhas xenofóbicas tanto pelos governos como pela população.

Os imigrantes e os asilados são considerados o refugo da globalização, lixo humano que vaga em busca de um lugar na sociedade do progresso. Mas, o outro lixo, aquele tradicional que é produzido por “nós” também não existe mais lugar onde depositá-lo, guardá-lo. Os consumidores estão produzindo toneladas de lixo, alias, sem contar com o novo tipo de lixo produzido pela modernidade líquida: o lixo industrial, eletrônico. Estes têm vida longa, demoram milhares de anos para se decompor, poluem e estão destruindo nosso planeta.

Globalizaram o medo, globalizaram o crime, os governos preferem prender imigrante a acabar com o crime organizado. No terceiro capítulo o autor terce um panorama sobre as políticas governamentais no que concerne a mudança do Estado social para o Estado excludente.

O mundo globalizado prega por uma política de exclusão, de retirada de refugo. Cada país cuida de seu “lixo”, de sua população redundante retirando-a do convívio com os outros indivíduos úteis. A população redundante é a parte inútil, imprestável, que deve ser retirada de circulação, jogada em campos de refugiados. Para que isso aconteça, os países ignoram as leis internacionais, perpetram limpeza étnica e genocídios.

O Estado de tolerância zero é acionado, os guetos são isolados, os bairros de imigrantes são vigiados dia e noite. Há uma produção de um Estado de emergência baseado no medo do “outro” (o estrangeiro). Tudo isso ocorre porque o mundo líquido destituiu o Estado de seus programas sociais, de seu dever para com sua população. O Estado social transformou-se em um Estado de guarnição, no qual o que impera é a proteção dos interesses das corporações globais e das transnacionais.

No último capítulo Bauman, explora as conseqüências da modernidade líquida, sua função e sua cultura: do lixo. A cultura do lixo predominante da era líquida representa os novos modos de viver no mundo. O consumir soa ressonante nos ouvidos dos indivíduos de maneira a tornarem escravos dos cartões de créditos, do luxo e da beleza/estética. Sem falar que o consumismo cria a difícil batalha para permanecer dentro do mercado de trabalho, paradoxalmente cria-se a cultura do não emprego permanente, do fim dos compromissos com o “emprego para sempre”.

Os relacionamentos tão pouco exigem compromisso, fidelidade. Namorar não requer mais todo um ritual de conquista, de galanteio e de sedução. Agora, namora-se à distância, temos diversos tipos de relacionamento, você escolhe: relacionamento de bolso, relacionamento à longa distância, relacionamento cool, encontro veloz e outros.

Mudamos nossos comportamentos, porque a sociedade está em constante transformação. Nossos ideais transformaram-se em sonhos, por vivermos num mundo de permanente incerteza, onde tudo que agora é novo daqui há alguns minutos torna-se velho, lixo.

Estamos na era da insegurança, na qual o medo predomina mais precisamente nos grandes centros urbanos. Na modernidade líquida os indivíduos não se olham tête-à-tête, preferem a tecnologia do telefone celular para se comunicar, pois é mais seguro não sair de casa. Preferem os reality show da televisão, como o Big Brother, é mais emocionante do que ir ao parque, ao cinema.

Em suma, tal pensamento expressado pelo autor neste livro reflete a preocupação surgida nos últimos anos em relação às conseqüências da globalização no mundo: o aumento da produção de lixo (refugo humano, lixo tradicional e industrial), o aumento da população mundial e o aumento das desigualdades continentais. Ele reflete ainda sobre a separação entre os ricos e os pobres, os europeus e os não-europeus, os países subdesenvolvidos (sul) e os desenvolvidos (norte). Ademais, faz com que pensemos nas relações sociais re-configuradas a partir da Era Líquida, onde o mundo todo está em constante transformação.


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quarta-feira, 28 de junho de 2017

"A coisa aqui ta preta"

AQUI NA TERRA TÃO JOGANDO FUTEBOL (..)
Por Alacir Arruda 

Na década de 70 o grande compositor Chico Buarque escreveu uma música chamada " Meu caro amigo", que foi dedicada aos brasileiros que se encontravam exilados a época. Mas por que falo dessa musica? Porque acredito que talvez ela sintetize o que hoje ocorre no Brasil. Nessa música Chico, usando de toda a sua inteligência, manda mensagens subliminares aos seus amigos sobre a situação do Brasil, que vivia um Regime de Exceção com os militares no poder. Colocarei aqui apenas o inicio , ela inteira estará no final do texto. Sugiro que ouçam."

Meu caro amigo, me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate o sol 
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta 

Muita mutreta pra levar a situação 
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça 
E a gente vai tomando que também sem a cachaça 
Ninguém segura esse rojão

A decisão do Presidente Temer em não renunciar, após ser denunciado pelo MPF, sem dúvida nenhuma é um desastre para a nação. Bom,  disso,  nós e o mundo, sabemos! A sua insistência em permanecer no comando do país, com certeza, o levará ao colapso. Mas Temer não e o único, esse comportamento apenas reflete um velha prática bem brasileira, que é "sempre levar alguma vantagem", seja no governo, seja no trabalho, enfim,..no dia dia. Em suma, Temer não quer largar osso pois, para ele, ainda é possível retirar alguma carne. . Mas por por que eles agem assim?

O povo brasileiro é mundialmente conhecido como um povo alegre, criativo e capaz de gerar soluções práticas para os problemas. Claro que essa última característica se estende a muito mais que simplesmente buscar agilizar a burocracia, otimizar o tempo e as relações comerciais e sociais, e sim está associada ao famoso “jeitinho brasileiro”, em que, para se conseguir o desejado, vale quebrar regras e até cometer atos ilícitos.

Isso foi retratado até mesmo nos cinemas quando, nos anos de 1940, o Brasil ganhou representatividade internacional com o personagem “Zé Carioca”. O conhecido papagaio brasileiro, com seu jeito típico de malandro, encontrava solução para tudo, e assim saia de qualquer enrascada. 

Essa esperteza brasileira é uma velha conhecida que foi se arraigando há muitos anos em nossa cultura, de maneira que se tornou amplamente aceita para o alcance de benefícios pessoais. 

Por exemplo, há pessoas que, despudoradamente, estacionam seu carro em vagas destinadas a deficientes e idosos, furam a fila, compram atestado médico para enganar o patrão, pagam para fazer sua monografia, enganam no troco, “pagam o café” para se livrar da multa, surrupiam material da empresa, como canetas, papel sulfite, papel higiênico, sabonete etc. 

Sem falar dos milhões de “gatos” feitos para roubar luz, água, internet, sinal de TV a cabo etc. Veja que, para tudo, o brasileiro é capaz de arrumar uma maneira de enganar. 

O problema é que essa habilidade, que começa na infância e normalmente dentro de casa, vai se refinando até se tornar em crime lá na frente. Por isso temos tantos ladrões de colarinho branco que roubam o pão da mesa dos mais fracos; vemos o direito do doente ser atendido dignamente em um hospital público ser ignorado; a escola e a merenda da criança ser defraudada etc. E não apenas isso: quantas pessoas há que enganam, mentem e fazem de tudo para levar certa vantagem e acham que jamais serão penalizadas? Muitos estão acostumados com a ideia que para subir na vida vale tudo. 

Diante disso, que incoerência clamar por políticos honestos, se a desonestidade campeia solta no dia a dia da maioria! Que contradição exigir a verdade dos outros, quando “mentirinhas” são contadas a três por quatro para se safar de problemas! 

Com isso, os escândalos que tanto nos envergonham têm raízes em pequenas ações erradas, permitidas e incentivadas, em nome da esperteza. 

Sendo assim, o problema não está no político que estava antes ou no que virá, muito menos na sigla partidária. O problema está em toda a nação, pois a “matéria-prima humana”, isto é, as autoridades, que constituem nossos três poderes estão doentes moralmente. 

Então fica latente que nossa necessidade urgente é de integridade. Homens e mulheres que façam o que é certo como algo natural e constante. Pessoas que sejam corretas não apenas quando alguém está vendo, mas quando ninguém está por perto, pois o que as coage internamente é o seu caráter e não a observação alheia. 

Assim, chega de jogar a culpa em terceiros! Temos direitos como cidadãos, mas também deveres, e precisamos assumi-los, antes que não haja mais nada a ser feito pelo nosso País. 

Individualmente fuja de tudo o que infringe, é ilegal ou imoral, pois trará danos à nação de igual forma. Por exemplo, mesmo que você seja alguém que poderá ser prejudicado por não fazer parte do jogo sujo das propinas ou subornos, escolha o certo e deixe o restante nas mãos de Deus. Pois as consequências pelo bem que fazemos sempre virão, assim como não passará em branco as consequências das nossas más atitudes. 

Quatro a cada cinco brasileiros (81%) têm a percepção de que é melhor “dar um jeitinho” do que seguir as leis. O dado é de uma pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas em 2016 para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Possivelmente, você leu esse número e não caiu de costas para trás – convive com essa constatação desde sempre. 

Enquanto isso, vale lembrar de que o esporte nacional é criticar a corrupção na política. Os vereadores não valem nada,os prefeitos não valem nada os governadores não valem nada deputados não valem nada, os senadores não valem nada, a presidente não vale nada...Eu concordo, realmente grande parte dos nossos políticos são "canalhas", nunca duvidei disso, mas não seria momento de colocarmos as mãos na consciência e perguntar: "quem os colocou lá? Ou será que esses políticos vieram do espaço? Pois éh! Essa pesquisa pesquisa da FGV só comprova que os escolhidos pela população são só um retrato dela mesma. 

Não é moralismo, é fato. Você com certeza já deve ter visto algum sujeito bradar contra escândalos que envolvem peemedebistas, petistas, tucanos etc.., ao mesmo tempo, não se envergonhar de sonegar imposto, praticar suborno e manter contatos com políticos que sempre dão “aquela ajudinha” para burlar uma ou outra lei que os demais mortais precisam seguir. Quem nunca chegou num politico e disse: "olha amigo, não esqueça de mim ok". Ou: "arruma uma boquinha pra mim lá ." ( só um detalhe, eu nunca!) 

Os quatro quintos do “jeitinho”, no fundo, admiram os políticos que metem a mão no jarro, mas que mantêm a capacidade de não serem pegos. Votam por cumplicidade. Mas não desistem de dizer que a culpa é dos outros.



Meu Caro Amigo


Meu caro amigo, me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo, eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo, eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita careta pra engolir a transação
Que a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus!





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