quinta-feira, 4 de maio de 2017

Não ha limites para o cinismo

" O CINISMO POLÍTICO NO BRASIL" 

Por Alacir Arruda

A cada dia mais concordo que os Políticos no Brasil não são eleitos pelas pessoas que leem jornais, mas pelas quais se limpam com eles.  Eu não sei vocês,  mas eu estou farto de ver nos noticiários as  respostas prontas usadas pelos  políticos "canalhas" quando seus nomes aparecem em  delações. São frases feitas como  "sou inocente"  ou "provarei minha inocência no processo", e  aquela que considero a mais cínica de todas: " isso faz parte de um complô politico contra mim". Ah, me poupe, bandidos! A impressão que temos, quando ouvimos as respostas desses crápulas,   é que a Policia Federal, a Justiça Federal e o Ministério Publico Federal,  que comandam a Lava Jato, se um  uniram para desmoralizar e conspirar contra nossos "éticos" homens públicos, que eles são coitadinhos, inocentes  e perseguidos.  Ah, vai contar historinhas pra outro! Esses bandidos de gravata, canalhas de carteirinha  que expropriam  a coisa publica  há décadas não possuem qualquer escrúpulo. Mas o pior defeito dessa corja, é a covardia, característica de quem deve, alguns choram, mostram os filhos, mãe, esposa, enfim não tem limites o cinismo dessa espécie.

Com a delação premiada, a cada dia, nos últimos tempos, políticos e empresários têm a difícil e nem sempre bem-sucedida tarefa de se defender. Um conhecido advogado de São Paulo confidenciou:  "nunca vi nada igual na minha vida. Quando você pensa que o cliente já contou tudo o que sabia, aparece um delator com novidades, eles roubaram demais"

Como os acusados, de maneira geral, são bons de oratória, quase sempre orientados por advogados, são eles próprios que se posicionam nas tribunas, ou vão para frente das câmeras e enfrentam os microfones. Usam a eloquência e demostram indignação na tentativa de refutar as acusações de que foram vítimas, procurando provar sua inocência.

Como veremos esses episódios com frequência cada vez maior, observe quais as táticas mais comuns usadas pelos acusados e tente avaliar, sem prejulgamentos, se estão dizendo ou não a verdade. Não nos esqueçamos ainda de que, por trás das acusações, pode haver também interesses políticos inconfessáveis.

Cabe aqui uma reflexão. Embora todos nós queiramos que bandidos e malfeitores travestidos de representantes do povo fiquem trancafiados atrás das grades, temos de tomar cuidado com as injustiças. Alguns querem aproveitar a onda para enfraquecer adversários e se beneficiar. É bom ter prudência. Em época de caça às bruxas, o risco de excessos pode incluir inocentes no pacote dos condenados.

O susto inicial

Assim que são acusados, a primeira reação é a de se mostrarem surpresos, incrédulos, como se não entendessem os motivos que levaram alguém a contar todas aquelas mentiras. Essa seria a atitude de uma pessoa inocente. Portanto, tendo culpa ou não, a reação será sempre a mesma. Alguns vociferam, outros demonstram tranquilidade, mas o objetivo é o mesmo – passar a imagem de inocente.
Baixada a adrenalina

Superado o primeiro momento, quase sempre, o acusado procura desqualificar quem o acusou. Seja alguém com culpa comprovada, atuando como delator. Seja um adversário político, um órgão de imprensa. Seja uma autoridade responsável pelo caso, um juiz, um delegado, um promotor.

Como o acusador nem sempre é muito conhecido, a intenção do acusado é mostrar que ele não tem reputação, autoridade moral, competência, imparcialidade, ou passado ilibado. Portanto, não tem credibilidade, e suas palavras não devem ser consideradas.
O momento do contra-ataque

Se os fatos forem contundentes, o próximo passo dos acusados é mostrar que são perseguidos por interesses políticos. Afirmam que suas ações contrariam posições adversárias, e por isso seus desafetos se valem de mentiras para atacá-los. Geralmente o nome dos algozes não é citado. Quanto menos identificado for o suposto grupo que o atacou, menores serão as chances de que sejam contestados.

As estratégias legais

Para as táticas objetivas de defesa, algumas linhas são bastante conhecidas. Se as acusações não puderem ser provadas com fatos concretos (lembrando que corruptos quase nunca deixam rastros evidentes de seus crimes) e se basearem em hipóteses, a defesa é feita pela simples negação.

Ora, quando não há como provar, basta negar que o crime tenha existido, ou, pelo menos, cometido por ele. Alguns condenados no caso do mensalão, por exemplo, só foram presos porque os juízes entenderam que houve o "domínio do fato". Mesmo não encontrando "recibo de culpa assinado", o crime não poderia ter ocorrido sem o conhecimento e a participação do acusado.

Quando, entretanto, a tese contrária se sustenta em documentos, a defesa é feita com a alegação de que as provas foram extraídas de maneira ilegal, que foram adulteradas, rasuradas, o que coloca por terra sua autenticidade. Recurso usado pelos advogados do dono da Odebrecht, que alegam ter sido um bilhete conseguido pela polícia de forma ilegal.

No caso de um documento ter sido produzido por alguém que não pode confirmar se ele é ou não autêntico, por morte, por exemplo, a defesa pode alegar que o estilo do texto é diverso, ou possui diferenças gritantes do usado normalmente pelo suposto autor.

Sendo a acusação feita por semelhanças, a defesa pode argumentar que há impropriedade nas comparações. Por exemplo, alega que os fatos associados com a situação de outros países não podem ser comparados com uma realidade tão diferente como a nossa. Já que possuímos cultura, história, situação econômica e social muito distinta.

Da mesma maneira, os exemplos históricos também são rejeitados, pelo fato de terem ocorrido em outra época e dentro de uma realidade muito diferente da que vivemos hoje. Ainda com relação aos fatos históricos, havendo alguma dúvida quanto à sua veracidade, a defesa simplesmente os considera falsos ou tendo caráter duvidoso.
Seremos observadores

Essas são algumas estratégias utilizadas pelos acusados na tentativa de se livrarem das penas que lhes seriam impostas. Como é possível avaliar, até que alguns desses criminosos sejam privados da liberdade, assistiremos a muitas marchas, contramarchas, provas, argumentos, refutações, e discursos indignados e eloquentes.

Assim, além das decisões judiciais, como os motivos e os detalhes serão divulgados durante todos os processos, nós também poderemos fazer o nosso próprio julgamento. Que seja feita a justiça,e aqui,não a divina.

Contato: agaextensao@gmail.com

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Apenas um desabafo!

"SUA EXCELÊNCIA, O POVO”.

Por Alacir Arruda

"É necessário acreditar no Brasil, não nesse país de corruptos, mas no Brasil que dá certo”. Começo esse texto plagiando o título e a frase inicial, mas isso justifica-se. Peço licença para apresentar aos leitores desse blog a excelentíssima senhora Ministra Carmem Lúcia, autora dessas frases e que hoje preside o Supremo Tribunal Federal. Fiquem tranquilos, eu também não a conhecia, salvo por discretas aparições oficiais na mídia.

Carmem Lúcia é mineira, tal qual, Drummond, Guimarães Rosa entre outras figuras importantes que nasceram nas gerais, e carrega dentro de si a mineirice e a simplicidade dos sábios . Ontem, num desses programas televisivo, tive o prazer de conhecer um pouco mais essa mulher com M maiúsculo, que orgulha, não somente o seu gênero, mas, sobretudo, a nós, os brasileiros. Confesso que fazia outra leitura dessa senhora, até pela função burocrática que a mesma desempenha, mas, ao ter acesso ao seu discurso de posse como Presidente do Supremo em 2016, revi meus conceitos. Essa mineira de fala fácil e ironia nos argumentos quebrou completamente o protocolo em seu discurso, ao cumprimentar primeiramente o povo, que, em próprio dizer: “é razão primeira da existência do Estado e a quem, todos os servidores públicos, devem satisfação”. 

Vivemos num país onde as referências de sucesso são: Ronaldinho gaúcho que ficou rico sem estudar, Gisele Bundchem que é rica e estudou só até a 8 serie e Xuxa, que também acumulou riqueza sem precisar terminar o ensino médio. Para se ter uma ideia da dimensão da ‘asnice”coletiva que contamina a nossa sociedade, hoje o maior sucesso da mídia é um adolescente denominado “Mc Kevinho” - que possui o 2 ano do ensino médio- e ja é dono de uma fortuna avaliada em mais de 5 milhões entre imóveis e carrões, antes mesmo de completar 20 anos de idade. Suas “musicas” ( ou aquilo que ele chama de música) já foram visualizadas por mais de 500 milhões de pessoas no Youtube ( a título de comparação,  esse blog tem 3 anos e agora que atingiu a marca dos 100 mil ). Com certeza, Kevinho é mais interessante que isso aqui. 

A herança colonial foi cruel conosco, herdamos dos europeus portugueses aquilo que de pior o ser humano carrega. Vícios como: querer levar vantagem em tudo mentir, odiar livros e escola, explorar o próximo, trabalhar pouco e ganhar muito - sobretudo se for no serviço publico- , que é a grande “vaca leiteira” desse país, onde todos buscam uma teta para mamar. Essas características identitárias se espalharam de norte a sul do Brasil e hoje somos um dos países mais violentos e corruptos do mundo, com um sistema educacional que é uma piada e uma saúde doente.

Portanto, Sua Excelência Povo, não permita mais que um cartão, uma cesta básica, ou aquela conversa mole, diferenciada, e robusta de falsidades que a maioria deles possui para aplicar em você, possa deixa-lo perdidinho ao ponto de até meter o pau da bandeira na cabeça do seu melhor amigo, ou arranjar ferrenhas intrigas no seio familiar. Por quem se submeter a isso? Ah, por aquela lábia que promete até chover... Chuvas de mentiras, lógico...!!!

Estamos vivendo um momento delicado em todos os sentidos, porque a gente tira o nosso melhor que é a CONFIANÇA, e damos a eles... E dessa confiança eles usam e abusam contra você, e sem precisar buscar incontáveis exemplos, veja de forma resumida onde foi parar o seu dinheiro ultimamente: 

Porto de Mariel – CUBA; Hidrelétrica de San Francisco – EQUADOR, Hidrelétrica Manduriacu – EQUADOR; Hidrelétrica de Chaglla – PERÚ; Metrô Cidade do Panamá e Autopista Madden-Colón – PANAMÁ; Aqueduto de Chaco - ARGENTINA, Linhas 3 e 4 Metrô de Caracas e Segunda Ponte sobre o Rio Orinoco – VENEZUELA; Aeroporto de Nacala – MOÇAMBIQUE; Hidrelétrica de Tumarín – NIGARÁGUA; Projeto Hacia El Norte-Rurrunabaque – BOLIVIA; Via Expressa Luanda-Kifangondo, etc, e etc entre outras “obrinhas” tantas e tamanhas, que aqui está apenas uma pequena amostra... 

Qual foi o custo dessas “obrinhas”? Milhões de dólares... Dólares? Sim... Quem pagou? Aquele Banco com um nome lindo que tem em sua sigla o desenvolvimento, econômico e social, mas suas linhas de financiamentos não são para os pequenos, jamais! Sem falar que investem tanto no exterior, com tantas obras aqui inacabadas... 

Não sei se nosso Excelentíssimo Povo observou acima que construíram com o nosso dinheiro uma segunda Ponte sobre o Rio Orinoco na Venezuela, mas, não conseguem concluir 25 hospitais que estão com as obras parados desde 2010 e ninguém diz nada, ninguém levanta a voz, só se ler que se reuniram, e tornaram a se reunir e nada acontece. O fato é que nenhuma só voz se levanta seja nas ruas ou naquela Casa do Povo... Enfim, todos totalmente mudos, calados, e dormindo... 

Seria extenso esse texto se fosse lembrar ao Excelentíssimo Povo a farra que fazem com nosso dinheiro mundo afora, enquanto aqui dentro as carências cada dia se avolumam nas áreas mais críticas, principalmente a saúde do Povo, e só quem vai a um Posto Médico ou hospital sabe do que estou falando... 

Mas, espero que o pouco aqui descrito possa servir a sua Excelência, e de posse desse instrumento verdinho chamado Titulo de Eleitor, aprenda a se impor e inverta a forma de tratamento porque é o Povo que deve ser chamado de Excelência... Sim ou não? Sim...Como diz a Ministra Carmem Lúcia. 

Nesse contexto figuras de um caráter ilibado, como a Ministra Carmem Lucia, é um ponto fora da curva, sobretudo nesse momento em que um terço, dos 81 senadores, estão sob suspeita de receberem propina, na Câmara 200, dos 513 deputados, estão no mesmo caminho, dois ex-presidentes estão prestes a serem presos e o atual sob suspeita e o pais vive a maior crise financeira de sua historia.


Não tenho dúvidas que a Ministra Carmem Lúcia deve ser o desafeto de grande parte da classe politica brasileira, pois sua caneta é pesada e seus discursos incisivamente revolucionários. Oxalá essa mulher influencie , não somente outras mulheres , mas que seu bastião de caráter possa contaminar outros magistrados no sentido de se praticar a verdadeira justiça, que é a Justiça Social, fim primeiro do Direito. Só assim, “Sua Excelência, o Povo”, será o protagonista do país. 

E se um dia Gisele Bundchen, Anita, Xuxa entre outras olharem no espelho perguntar-lhe: "espelho, espelho meu existe alguém mais linda que eu? Com certeza o espelho responderá: "sim, Carmem Lucia é a mais bela de todas".



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segunda-feira, 1 de maio de 2017

ENEM 2017- A atualidade brutal: Hannan Arendt

HANNAN ARENDT: QUANDO O MAL SE TORNA ALGO BANAL.


Por Alacir Arruda

Sempre fui um admirador inconteste da filósofa alemã, de origem judaica,  Hannan Arendt ( meus ex alunos que o digam). Hannan faz parte de um grupo de intelectuais, entre eles Schopenhauer e  Nietzsche, que eu julgo difícil de serem  ignorados, pois você pode até odiá-los ,porém, jamais  conseguirá ser indiferente a eles. 

Recentemente perdemos grandes nomes da nossa música e até alguns intelectuais e o comportamento da mídia diante de tais fatos deixam claro que: ou somos um pais sem memória ou,  simplesmente, perdemos a capacidade de se consolidar com a dor próximo, o altruísmo. Quando nem mesmo a morte de um ser importante para a cultura de um país é mais respeitada pelo povo,  isso é um  sinal de que a sociedade está doente.

Qualquer semelhança com o passado não é mera coincidência. A escalada do fascismo no século XX ocorreu de modo semelhante.  Por isso, mais do que nunca, é importante revisitarmos a história, para não repetirmos os erros do passado. A direita saiu do armário e perdeu completamente os pudores. A oposição não tem mais vergonha de estimular a violência contra  qualquer um que julguem ser contra suas ideias, sejam eles ciclistas, feministas, homossexuais etc.

O momento político atual é propício para assistir ao filme Hannah Arendt – Ideias que Chocaram o Mundo. Como ensinou a filósofa alemã, de origem judaica, e perseguida pelo nazismo, todas as sociedades fascistas têm algo em comum: a banalização do mal


A atualidade brutal de Hannah Arendt

O filme causa impacto. Trata-se, tema central do pensamento de Hannah Arendt, de refletir sobre a natureza do mal. O pano de fundo é o nazismo, e o julgamento de um dos grandes mal-feitores da época, Adolf Eichmann. Hannah acompanhou o julgamento para o jornal New Yorker, esperando ver o monstro, a besta assassina. O que viu, e só ela viu, foi a banalidade do mal. Viu um burocrata preocupado em cumprir as ordens, para quem as ordens substituíam a reflexão, qualquer pensamento que não fosse o de bem cumprir as ordens. Pensamento técnico, descasado da ética, banalidade que tanto facilita a vida, a facilidade de cumprir ordens. A análise do julgamento, publicada pelo New Yorker, causou escândalo, em particular entre a comunidade judaica, como se ela estivesse absolvendo o réu, desculpando a monstruosidade.

A banalidade do mal é o tema  central da análise Hannan, porém, considero  importante lembrar do Holocausto, como uma tragédia cuja dimensão trágica ninguém vai negar, e jamais esqueçamos  que esta guerra vitimou 60 milhões de pessoas, entre os quais 6 milhões de judeus. A perseguição atingiu as esquerdas em geral, sindicalistas ou ativistas de qualquer nacionalidade, além de ciganos, homossexuais e tudo que cheirasse a algo diferente. O fato é que a questão da tortura, da violência extrema contra outro ser humano, me marcou desde a infância, sem saber que eu mesmo a viria a sofrer. Eram monstros os que me torturaram com acusações  vazias e desprovidas de qualquer fundamento usando a mídia? Poderia até haver um torturador particularmente pervertido, tirando prazer do sofrimento, mas no geral, eram homens ( policiais)  como os outros, colocados em condições de violência generalizada, de banalização do sofrimento, dentro de um processo que abriu espaço para o pior que há em muitos de nós.

Por que é tão importante isto, e por que a mensagem do filme é autêntica e importante? Porque a monstruosidade não está na pessoa, está no sistema. Há sistemas que banalizam o mal. O que implica que as soluções realmente significativas, as que nos protegem do totalitarismo, do direito de um grupo no poder dispor da vida e do sofrimento dos outros, estão na construção de processos legais, de instituições e de uma cultura democrática que nos permita viver em paz. O perigo e o mal maior não estão na existência de doentes mentais que gozam com o sofrimento de outros – por exemplo uns skinheads que queimam um pobre que dorme na rua, gratuitamente, pela diversão – mas na violência sistemática que é exercida por pessoas banais.

Entre os torturadores que interrogaram na década de 70 os chamados, subversivos,  no DOPS de São Paulo,  tinha  um delegado que havia estudado no Colégio Loyola de Belo Horizonte, onde alguns interrogados também haviam estudado. Colégio de orientação jesuíta, onde se ensinava a amar uns aos outros. Segundo relato de Ladislaw um dos presos -que havia estudado com o delegado-  "Encontrei um homem normal, que me explicava que arrancando mais informações seria promovido, me explicou os graus de promoções possíveis na época. Aparentemente queria progredir na vida. Outro que conheci, violento ex-jagunço do Nordeste, claramente considerava a tortura como coisa banal, coisa com a qual seguramente conviveu nas fazendas desde a sua infância. Monstros? Praticaram coisas monstruosas, mas o monstruoso mesmo era a naturalidade com a qual a violência se pratica".

Segundo ainda Ladislaw, um torturador na OBAN (Operação Bandeirantes-SP) lhe passou uma grande pasta A-Z onde estavam cópias dos depoimentos dos seus companheiros que tinham sido torturados antes. O pedido foi simples: por não querer se dar a demasiado trabalho, pediu que ele visse os depoimentos dos outros, e fizesse o seu depoimento confirmando a verdades, bobagens ou mentiras que estavam lá escritas. Explicou a Ladislaw que escrevendo um depoimento que repetia o que já sabiam, deixaria satisfeitos os coronéis que ficavam lendo depoimentos no andar de cima (os coronéis evitavam sujar as mãos), pois veriam que tudo se confirmava, ainda que fossem histórias absurdas. Segundo o torturado,  se houvesse discrepâncias, teriam de chamar os presos que já estavam no Tiradentes, voltar a interrogá-los, até que tudo batesse. Queria economizar trabalho. Não era alemão. Burocracia do sistema. Nos campos de concentração, era a IBM que fazia a gestão da triagem e classificação dos presos, na época com máquinas de cartões perfurados. No documentário A Corporação, a IBM esclarece que apenas prestava assistência técnica.


Banalidade do mal: Panfleto atirado em frente ao velório do ex-senador José Eduardo Dutra, em Belo Horizonte, pede a morte de petistas 

O mal não está nos torturadores, e sim nos homens de mãos limpas que geram um sistema que permite que homens banais façam coisas como a tortura, numa pirâmide que vai desde o homem que suja as mãos com sangue até um Rumsfeld que, em 2007,  dirigiu uma nota ao exército americano no Iraque, exigindo que os interrogatórios fossem harsher, ou seja, mais violentos. Hannah Arendt não estava desculpando torturadores, estava apontando a dimensão real do problema, muito mais grave.

A compreensão da dimensão sistêmica das deformações não tem nada a ver com passar a mão na cabeça dos criminosos que aceitaram fazer ou ordenar monstruosidades. Hannah Arendt aprovou plenamente e declaradamente o posterior enforcamento de Eichmann. Eu estou convencido de que os que ordenaram, organizaram, administraram e praticaram a tortura devem ser julgados e condenados.

O segundo argumento poderoso que surge no filme, vem das reações histéricas de judeus pelo fato de ela não considerar Eichmann um monstro. Aqui, a coisa é tão grave quanto a primeira. Ela estava privando as massas do imenso prazer compensador do ódio acumulado, da imensa catarse de ver o culpado enforcado. As pessoas tinham, e têm hoje, direito a este ódio. Não se trata aqui de deslegitimar a reação ao sofrimento imposto. Mas o fato é que ao tirar do algoz a característica de monstro, Hannah estava-se tirando o gosto do ódio, perturbando a dimensão de equilíbrio e de contrapeso que o ódio representa para quem sofreu. O sentimento é compreensível, mas perigoso. Inclusive, amplamente utilizado na política, com os piores resultados. O ódio, conforme os objetivos, pode representar um campo fértil para quem quer manipulá-lo.

No 1984 do Orwell, os funcionários eram regularmente reunidos para uma sessão de ódio coletivo. Aparecia na tela a figura do homem a odiar, e todos se sentiam fisicamente transportados e transtornados pela figura do Goldstein. Catarse geral. E odiar coletivamente pega. Seremos cegos se não vermos o uso hoje dos mesmos procedimentos, em espetáculos midiáticos.

O texto de Hannah, apontando um mal pior, que são os sistemas que geram atividades monstruosas a partir de homens banais, simplesmente não foi entendido. Que homens cultos e inteligentes não consigam entender o argumento é em si muito significativo, e socialmente poderoso. Como diz Jonathan Haidt, para justificar atitudes irracionais, inventam-se argumentos racionais, ou racionalizadores. No caso, Hannah seria contra os judeus, teria traído o seu povo, tinha namorado um professor que se tornou nazista. Os argumentos não faltaram, conquanto o ódio fosse preservado, e com o ódio o sentimento agradável da sua legitimidade.

Este ponto precisa ser reforçado. Em vez de detestar e combater o sistema, o que exige uma compreensão racional, é emocionalmente muito mais satisfatório equilibrar a fragilização emocional que resulta do sofrimento, concentrando toda a carga emocional no ódio personalizado. E nas reações histéricas e na deformação flagrante, por parte de gente inteligente, do que Hannah escreveu, encontramos a busca do equilíbrio emocional. Não mexam no nosso ódio. Os grandes grupos econômicos que abriram caminho para Hitler, como a Krupp, ou empresas que fizeram a automação da gestão dos campos de concentração, como a IBM, agradecem.

O filme é um espelho que nos obriga a ver o presente pelo prisma do passado. Os americanos se sentem plenamente justificados em manter um amplo sistema de tortura – sempre fora do território americano pois geraria certos incômodos jurídicos -, Israel criou através do Mossad o centro mais sofisticado de tortura da atualidade, estão sendo pesquisados instrumentos eletrônicos de tortura que superam em dor infligida tudo o que se inventou até agora, o NSA criou um sistema de penetração em todos os computadores, mensagens pessoais e conteúdo de comunicações telefônicas do planeta. Jovens americanos no Iraque filmaram a tortura que praticavam nos seus celulares em Abu Ghraib, são jovens, moças e rapazes, saudáveis, bem formados nas escolas, que até acham divertido o que fazem. Nas entrevistas posteriores, a bem da verdade, numerosos foram os jovens que denunciaram a barbárie, ou até que se recusaram a praticá-la. Mas foram minoria.

O terceiro argumento do filme, e central na visão de Hannah, é a desumanização do objeto de violência. Torturar um semelhante choca os valores herdados, ou aprendidos. Portanto, é essencial que não se trate mais de um semelhante, pessoa que pensa, chora, ama, sofre. É um judeu, um comunista, ou ainda, no jargão moderno da polícia, um “elemento”. Na visão da KuKluxKlan, um negro. No plano internacional de hoje, o terrorista. Nos programas de televisão, um marginal. Até nos divertimos, vendo as perseguições. São seres humanos? O essencial, é que deixe de ser um ser humano, um indivíduo, uma pessoa, e se torne uma categoria. Sufocaram 111 presos nas celas? Ora, era preciso restabelecer a ordem.

Um belíssimo documentário, aliás, Repare Bem, que ganhou o prêmio internacional no festival de Gramado, e relata o que viveu Denise Crispim na ditadura, traz com toda força o paralelo entre o passado relatado no Hannah Arendt e o nosso cenário brasileiro. Outras escalas, outras realidades, mas a mesma persistente tragédia da violência e da covardia legalizadas e banalizadas.

Sebastian Haffner, estudante de direito na Alemanha em 1930, escreveu na época um livro – Defying Hitler: a memoir – manuscrito abandonado, resgatado recentemente por seu filho que o publicou com este título.3 O livro mostra como um estudante de família simples vai aderindo ao partido nazista, simplesmente por influência dos amigos, da mídia, do contexto, repetindo com as massas as mensagens. Na Alemanha da época, 50% dos médicos aderiram ao partido nazista.

Acredito que  próximo fanatismo político não virá disfarçado de bigode nem bota, nem gritará Heil... como os idiotas dos “skinheads”. Usará terno, gravata e multimídia. E seguramente procurará impor o totalitarismo, mas em nome da democracia, ou até dos direitos humanos.


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sexta-feira, 28 de abril de 2017

ENEM 2017 - A decadência da Esquerda brasileira

A ESQUERDA BRASILEIRA  FOI ANIQUILADA PELA SUA INCOMPETÊNCIA E O PODER GRANDE MÍDIA.

Por Alacir Arruda

Não há dúvida que a esquerda brasileira perdeu o rumo e vive agora o seu pior momento desde o fim da ditadura militar. Se Marx fosse vivo com certeza estaria rindo disso tudo sentado no Mac Donalds comendo um Big Mac acompanhado de uma boa Coca Cola, afinal ele alertou: " A ação comum do proletariado, pelo menos nos países civilizados, é uma das primeiras condições para sua emancipação". Na verdade a esquerda brasileira estaá pagando o preço pela sua falta de união e por  tudo de ruim que aconteceu durante o ciclo do PT na Presidência da República. Se olharmos os resultados das últimas eleições municipais (2016) em todo o Brasil, vemos que a esquerda sofreu uma derrota colossal em todo o país. Todos sabem que sou marxista, atualizado, mas marxista e acho que essas derrotas são uma boa oportunidade para refletirmos sobre "qual o papel da esquerda no século XXI".

É hora de pensamentos medievais serem substituídos por ações concretas e positivas,de nada adianta continuar  gritando  aos quatro cantos que o capitalismo  é o grande  e único culpado de todas as mazelas que o mundo sofre, precisamos fazer uma mea-culpa, e se perguntar: "o que fizemos em 100 anos para mudar isso"? Muitos questionamentos que surgiram durante as manifestações de 2013 ainda permanecem sem resposta e os eleitores se sentem distanciados do processo político. A esquerda brasileira, inclusive a não-partidária, a chamada esquerda social, paga hoje o preço dos erros políticos cometidos pelo Partido dos Trabalhadores.

Esses erros, naturalmente, não são os mesmos apontados pela imprensa conservadora e pela oposição de direita, embora também não se possa ignorá-los. A esquerda petista precisa baixar as armas. A política é uma guerra, mas também não é uma guerra. A diferença entre a guerra e a política é que, na política, não é necessário destruir o adversário para vencer; pode-se transformá-lo. Isso significa que o derrotado, em política, não é necessariamente eliminado, ele pode se transformar, seja para ser incorporado ao vencedor, seja para reconstruir suas estratégias e vencer mais tarde.

Depois da derrota  sofrida no pleito de 2016, o mínimo que se espera de toda a esquerda nacional é ouvir as pessoas e os quadros, com mente aberta e espírito crítico. Esta sensibilidade excessiva, que reage agressivamente a qualquer crítica, não contribui para iniciarmos um processo de revisão dos erros cometidos, única maneira de reconstruir institucionalmente, politicamente, o campo progressista.

Nesse contexto os  blogs são uma  ferramentas que deveriam ser mais usadas pois reflete uma espécie de anticorpo jornalístico à manipulação das notícias e da verdade feita diariamente pela grande imprensa. Já escrevi muito sobre esse fator darwiniano que, infelizmente, não é compreendido pelas empresas de mídia. Os blogs sempre vão existir porque são fenômenos naturais, necessários, e sempre serão particularmente fortes no Brasil justamente por causa da nossa realidade midiática: um sistema de comunicação dominado por poucas famílias, sendo que uma delas, a Globo, detêm um poder comparável somente ao de monarcas absolutos do oriente médio.

Os blogs são necessários, como anticorpos, para a sobrevivência da própria mídia comercial brasileira, porque são os blogs que combatem os vírus da manipulação e da mentira, que comprometem seus últimos vestígios de profissionalismo. Mesmo assim, não é possível atribuir a derrota da esquerda apenas à grande mídia, até porque uma das principais críticas que se faz aos governos petistas tem sido, justamente, o de não ter combatido o sistema cartelizado da imprensa nacional.

O PT não fez nada e até hoje não faz nada para combater o monopólio. Em 13 anos de governo, nunca organizou um mísero seminário - aberto a todos os partidos, movimentos sociais, sociedade em geral - para discutir mídia. Os encontros de comunicação organizados pelo PT sempre foram ridiculamente fechados, uma espécie de treinamento para produzir soldadinhos de internet pró-PT, ao invés de se abrir à sociedade. Os eventos partidários do PT, em todos esses anos, sempre foram fechados, sectários, elitistas, inclusive em 2014 e 2015, quando o mundo já desabava sobre o partido.

No período que governou,  a comunicação da legenda se limitava a patrocinar uma "Agência PT", o que é evidentemente uma péssima ideia, o conceito mais antijornalístico que se possa imaginar. O partido precisa ter seu site, com notícias de partido, naturalmente, mas a comunicação maior precisava ser minimamente não-partidária, para ter resultados práticos na formação da opinião pública.

Os dirigentes do PT, ainda hoje, depois de tudo que aconteceu, são incapazes de formulações minimamente embasadas para criticar a mídia. Limitam-se a repetir uma crítica ou outra que leram em blogs e apenas para dar uma resposta apressada à militância ao último ataque da imprensa ao partido. Não sabem como é a mídia em outros países, então não tem como oferecer à população nem à sua própria militância a argumentação necessária para combater o arbítrio midiático.  

Entretanto, o pior erro do PT, pelo visto, está em sua incapacidade de ouvir críticas, que não significa apenas ouvir, mas assimilá-las e reagir dialeticamente a elas. A esquerda no Brasil vive hoje o seu pior momento: não tem mais governo, não tem mais recursos, não tem mais voto.  O único recurso que lhe resta são estas jazidas de inteligência política, esparsas, fragmentadas, porém imensas, inesgotáveis, porque podem ser encontradas não apenas em território nacional e não apenas no presente, mas no mundo inteiro e em toda a história.

A vantagem de não ser mais governo, de não ter mais nada a perder, é esta liberdade maravilhosa de ouvir críticas sem que isso se torne um problema de "governabilidade". Nem todas as críticas são justas, ou inteligentes, ou corretas. Mas todas as críticas podem nos levar ao auto-aperfeiçoamento. As críticas injustas nos permitirão reafirmar valores e acertos. As críticas justas nos farão ver onde erramos e a desenvolver projetos e ideias que serão os vencedores amanhã.

A reação à crítica, no entanto, deve ser serena e inteligente, e sobretudo entender que se um partido é criticado é porque ainda há quem lhe dê importância. Ninguém critica o PP, por exemplo.  A questão da mídia é organicamente ligada à questão política. Ao não entender este ponto, o PT perdeu a batalha sem lutar: a mídia promoveu uma lavagem cerebral de toda a população brasileira sem que houvesse, jamais, uma mísera denúncia disso por parte do governo.

Por ocasião da morte de Roberto Marinho, Palocci, importante quadro do PT na época, divulgou nota dizendo que ele tinha sido muito importante para a democracia... Hoje Palocci é um preso ( não que ele nao mereça)  e a Globo baixa a lenha nele. O ex-ministro da Comunicação, Paulo Bernardo, foi preso por Sergio Moro e deveria ficar por lá para sempre   pois,  além de ladrão, enquanto  ministro jamais fez nada para combater o monopólio.

A comunicação falha gerou outros problemas: ao não desenvolver uma estratégia inteligente de comunicação, o PT não ouviu as massas, ou então as ouviu mal. Erros de projeto também são gerados por falhas de comunicação.  A questão da pobreza e da fome, que naturalmente sempre foram essenciais no país, foi atacada muitas vezes de maneira superficial, com investimento insuficiente em saneamento básico e mobilidade urbana.

Voltando um pouco à questão da comunicação, hoje eu vejo que a tão festejada pulverização de recursos da Secom durante a gestão de Franklin Martins, no primeiro governo Lula, foi na verdade uma iniciativa demagógica, que não resultou em nenhuma mudança estrutural na produção de notícia. Uma análise dos contratos da Secom mostram a distribuição de quantias incrivelmente ínfimas para uma quantidade enorme de rádios e pequenos jornais.

Num primeiro momento, esses recursos podem até ter sido importantes, mas depois de um tempo eles são naturalizados. Os custos aumentam, e o volume de recursos continua o mesmo. Mil reais para um pequeno jornal do interior já não significam mais nada. Não permitem o surgimento de nenhum tipo de jornalismo diferente. Pagam uma continha ali e aqui.

O governo, se quisesse usar seus bilhões anuais de publicidade federal para mudar a super-estrutura da comunicação social brasileira, tinha que ter ajudado a criar centros de produção de jornalismo autônomos e autossustentáveis, em todo o território nacional, em rádio, jornal impresso, internet e tv. Essa seria uma estratégia central inclusive para oferecer um mínimo de segurança midiática a seus próprio quadros.

Isso sem falar na questão liberal. Os institutos liberais brasileiros são pastiches hipócritas, contraditórios e cretinos, porque o liberalismo pressupõe respeito à pluralidade política, às garantias constitucionais contra a perseguição do Estado, à segurança jurídica e à liberdade individual, fatores que foram destruídos por esse golpismo patrocinado pelo monopólio midiático.

Claro que essa sempre foi uma batalha difícil. Mas era central, e a mídia sabia disso, tanto que, mesmo sem o governo fazer nada, ela iniciou um ataque maciço à qualquer ensaio ou mero discurso de mudança, taxando-o de bolivariano ou coisa parecida. E o governo cedeu antes de lutar, como aqueles lutadores de sumô que desistem apenas com um troca de olhar com o adversário.

No campo da corrupção, os governos Lula e Dilma, que poderiam colher frutos de várias iniciativas inéditas, como o portal da transparência, as auditorias, o investimento na Polícia Federal, deixaram de fazê-lo pela mesma razão de sempre: uma inexplicável e imperdoável ausência no campo da comunicação política.  O PT, sempre que tentava fazer, às pressas, algum tipo de comunicação, fazia mal, confundindo comunicação com propaganda.

A ausência de comunicação também gera corrupção. Os gastos precisam ser abertos para que a sociedade possa monitorá-los. A lição dos países mais bem sucedidos na guerra contra a corrupção é maior transparência e participação social no processo de execução orçamentária. A corrupção acontece obviamente onde circula dinheiro, então para combatê-la é preciso muita luz sobre essas áreas.

Se o PT quiser renascer como um legenda de esquerda, o que eu duvido muito, precisa ouvir as críticas, com serenidade, porque todas serão oportunidade para que o partido se reinvente, afinal naquele mar de lama que o partido se tornou ainda é possível que alguém sobreviva. Uma coisa é certa, incitar greves e manifestações sem fundamentos num país envolto por uma crise econômica sem precedentes  é, no minimo, uma burrice.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A Reforma Trabalhista

A REFORMA TRABALHISTA É ALGO INEVITÁVEL.

Por Alacir Arruda

Após muitas negociações o governo Temer conseguiu quorum para aprovar a Reforma Trabalhista na câmara e isso tem sido motivo de grandes preocupações para muitos brasileiros. Uma coisa é certa, faz -se necessário uma reforma em nossas Leis que regulam as relações capital-trabalho. A CLT se tornou obsoleta frente as mudanças do seculo XXI e uma nova ordem nessas relações tornou-se imperativa. Veja as principais mudanças propostas nas leis trabalhistas:

Trabalho temporário:


- Os contratos temporários de trabalho poderão passar dos atuais 90 dias para 120 dias, prorrogáveis por mais 120 dias;

- Os temporários poderão ser contratados diretamente pela empresa ou, então, como é feito hoje, por meio de uma empresa de trabalho temporário;

- Os trabalhadores passam a ter os mesmos direitos previstos na CLT e as empresas que fornecem mão de obra temporária ficam obrigadas a fornecer aos contratantes dos serviços os comprovantes de pagamento das obrigações sociais dos trabalhadores (FGTS, INSS e certidão negativa de débitos);

- Essa nova regra não se aplica aos empregados domésticos.
Acordo do sindicato valendo como lei

Os acordos coletivos de trabalho definidos entre as empresas e os representantes dos trabalhadores poderão se sobrepor às leis trabalhistas definidas na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) em 11 pontos específicos, que dizem respeito a jornada de trabalho e salário. Não podem ser alteradas normas de saúde, segurança e higiene do trabalho.

Não podem mexer também no pagamento do FGTS, 13º salário, seguro-desemprego e salário-família, que são benefícios previdenciários, bem como o pagamento da hora-extra de 50% acima da hora normal, a licença-maternidade de 120 dias e aviso prévio proporcional ao tempo de serviço.

A possibilidade de acordos trabalhistas terem força de lei recebe críticas de alguns setores por, em tese, permitir a redução de direitos assegurados nas leis trabalhistas.

Os defensores da medida afirmam que isso garante mais autonomia aos trabalhadores nas negociações sindicais e contribui para a geração de empregos. O governo afirma que direitos adquiridos não serão reduzidos.

Veja o que poderá ser negociado entre empresas e trabalhadores:

- Férias:

O texto prevê que as férias poderão ser divididas em três períodos de descanso.

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou que a proposta mantém um mínimo de 15 dias seguidos de descanso nas férias, mas que o restante do período poderá ser objeto de negociação coletiva. "A negociação coletiva vem com toda força e vai seguramente fazer com que tenhamos muito menos conflito [na Justiça do Trabalho]", disse.

- Jornada de trabalho:

Um dos pontos em que as negociações coletivas poderão se sobrepor à legislação trabalhista é a jornada de trabalho. O texto fala que o cumprimento da jornada diária poderá ser negociado entre patrões e empregados, desde que respeitado o limite máximo de 220 horas mensais e de 12 horas diárias. Hoje a jornada padrão é de 8 horas por dia, com possibilidade de haver 2 horas extras. A jornada padrão semanal é de 44 horas.

"A convenção coletiva vai poder definir a forma com que a jornada de 44 horas semanais será executada, desde que seja vantajosa para o trabalhador", disse o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira.

O ministro afirmou que a proposta não prevê ampliação na jornada. "A jornada de trabalho permanece a padrão de 8 diárias e 44 horas semanais. Nunca esteve, não está e não estará na agenda do governo proposta de aumento de jornada de trabalho", disse Nogueira.

- Intervalo:

O intervalo dentro da jornada de trabalho poderá ser negociado, desde que tenha no mínimo 30 minutos.

- Deslocamento até o trabalho:

Empresas e representantes dos trabalhadores poderão negociar se serão remuneradas também as horas gastas no trajeto de casa até o trabalho --atualmente, elas não são pagas. Essa hipótese é mais comum nos casos em a empresa oferece transporte aos trabalhadores que moram muito longe, como em fábricas que ficam fora da cidade, por exemplo.

- Banco de horas:

Os acordos coletivos também poderão prever a criação de um banco de horas para contabilizar as horas extras trabalhadas, além da forma de pagamento.

- Trabalho remoto:

A atuação do trabalhador fora da sede da empresa também é um dos pontos que poderá ser definido com força de lei pelas convenções coletivas.
Trabalho com jornada parcial

- O objetivo é estimular a contratação de jovens, mães, e trabalhadores mais velhos.

- Atualmente, prevê jornada máxima de 25 horas por semana, sendo proibidas as horas extras; a proposta é passar para 30 horas semanas, sem horas extras, ou para 26 horas semanais com até 6 horas extras.

- Hoje, o trabalhador tem direito a férias proporcionais de no máximo 18 dias e não pode vender dias de férias em troca de dinheiro; a proposta prevê 30 dias de férias e a possibilidade de vender dez dias.
Multas para empresas

As empresas que não registrarem seus empregados terão que pagar multa de R$ 6.000 por empregado não registrado e de igual valor em caso de reincidência. No caso de empregador rural, microempresas e empresas de pequeno porte, a multa é de R$ 1.000.

Independente de sua aprovação ou não, o importante e que cada cidadão brasileiro conscientize que o conceito de trabalho mudou em todo mundo,  e o Brasil não é uma ilha deve fazer  parte dessa onda, sem com isso ampliar a distancia que existe entre quem produz e quem detém os meios de produção.

Contato: agaextensao@gmail.com

terça-feira, 25 de abril de 2017

ENEM 2017 -Ayn Rand Filosofa russo- americana

AYN RAND, FILÓSOFA , E A CORRUPÇÃO.

Por Alacir Arruda

Na década de 20 uma filósofa atrevida já incomodava o mundo capitalista moderno. Ayn Rand. Nascida Alissa Zinovievna Rosenbaum – em São Petersburgo, 2 de Fevereiro de 1905 e faleceu em Nova Iorque, 6 de Março de 1982- foi uma escritora, dramaturga, roteirista e controversa filósofa norte-americana de origem judaico-russa, mais conhecida por desenvolver um sistema filosófico chamado de Objetivismo, e por seus romances The Fountainhead (que foi lançado no Brasil com o título de "A Nascente" e deu origem a um filme homônimo conhecido no Brasil por "Vontade Indômita") e Atlas Shrugged ("A Revolta de Atlas" no Brasil).

 Nascida e educada na Rússia, Rand emigrou para os Estados Unidos em 1926. Ela trabalhou como roteirista em Hollywood e teve uma peça produzida na Broadway, em 1935-1936. Ela alcançou a fama com seu romance The Fountainhead, publicado em 1943, que em 1957 foi seguido por seu melhor e mais conhecido trabalho, o romance filosófico Atlas Shrugged. Mas, sem duvida, foram sua reflexões sobre o caráter de alguns homens públicos que a fez conhecida no mundo literário da época. Uma de suas reflexões mais famosas é essa:

“Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; Quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; Quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; Quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; Então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada.” (Ayan Rand)


Como sabemos, a corrupção é um dos fenômenos mais perigosos para uma nação. Os efeitos econômicos são devastadores, à medida que o custo das empresas sobe, investimentos despencam, as pessoas começam a perder a confiança nas instituições do País e a democracia começa a ser ameaçada. Não é à toa que os países no topo do ranking da transparência internacional, como Finlândia e Singapura, estão entre os mais ricos, enquanto as nações mais corruptas do planeta, como Togo e Gana estão entre as mais pobres. A correlação entre corrupção e subdesenvolvimento é fortíssima. 

 
Qual a sua ideia de corrupção? É quase certo que você fale em desvio, por um administrador desonesto, do dinheiro público. É a ideia que se firmou hoje em dia. Mas, antes disso, a corrupção era termo mais abrangente, designando a degradação dos costumes em geral.
 
Como a corrupção veio a se confinar no furto do bem comum? Talvez seja porque, numa sociedade capitalista, o bem e o mal, a legalidade e o crime acabam referidos à propriedade. Por analogia com a propriedade privada, o bem comum é entendido como propriedade coletiva — e até como bem condominial, aquele do qual cada um tem uma parcela, uma cota, uma ação.
 
Mas o bem comum é diferente, por natureza, do bem privado. No estatuto de uma sociedade comercial, é obrigatório incluir o destino a dar aos bens, caso ela se dissolva. Se constituo uma firma com um sócio, caso a fechemos repartiremos os bens que pertencem a ela. Mas isso é impossível quando se trata da coisa pública. Há certos “bens” que só ela produz e que não podem ser divididos: virtudes, direitos e uma socialização que não só respeita o outro como enriquece, humanamente, a nós mesmos.
 
Pensar o mau político como corrupto e, portanto, como ladrão simplifica demais as coisas. E sinal de que não se entende o que é a vida em sociedade. O corrupto não furta apenas: ao desviar dinheiro, ele mata gente. Mais que isso, ele elimina a confiança de um no outro, que talvez seja o maior bem público. A indignação hoje tão difundida com a corrupção, no Brasil, tem esse vício enorme: reduzindo tudo a roubo (do “nosso dinheiro”), a mídia ignora — e faz ignorar — o que é a confiança, o que é o elo social, o que é a vida republicana.
A corrupção continua, porém, sendo um tema republicano - só que com outro sentido, outro conteúdo. Ela ainda é o grande perigo para a república. Como esta valoriza o bem comum, todo desvio dele para o particular a ameaça. Mas nossa ideia de corrupção é mais fraca que a antiga.
 
Chamamos de corrupção o furto do patrimônio público. Ora, isso faz esquecer que o bem público tem natureza distinta do bem particular ou da propriedade privada. Muitos se referem ao Estado como se fosse equivalente a um indivíduo ou empresa. Com isso, ficam na perspectiva patrimonialista, cujos problemas vimos no capítulo anterior.
 
Uma saída para a pouca importância, hoje, do tema da corrupção seria apostar na educação. Diríamos: a corrupção ameaça a república, mas não se resume no furto do dinheiro público. O corrupto impede que esse dinheiro vá para a saúde, a educação, o transporte, e assim produz morte, ignorância, crimes em cascata. Mais que tudo: perturba o elo social básico que é a confiança no outro. Quem anda por nossas ruas, com medo até de crianças pequenas, e depois se espanta com a descontração das pessoas em outros países pode sentir o preço que pagamos por não vivermos numa república — por termos um regime que é republicano só de nome.
 
A saída educativa é indispensável. Mas ela exige dar à educação dos costumes um sentido distinto do que teve no antigo pensamento republicano. Não se trata mais de conter a sexualidade, de promover a castidade e a discrição. Os costumes viáveis, a educação desejável em nosso tempo têm a ver com a realização pessoal. Será preciso combinar essa promoção de si com o respeito devido ao outro. E será necessário, mais que tudo, recuperar — ou reinventar — a ideia de que haja algo, no espaço comum a todos, que seja mais do que um simples arremedo social da propriedade privada.
  


Despertem seres humanos!  Nossa sociedade está doente.  

Contato: agaextensao@gmail.com

ENEM 2017 - A PÓS-VERDADE

OS PERIGOS DA PÓS-VERDADE.

Por Alacir Arruda

Em épocas de delações premiadas, denúncias, dossiês e uma série de "dedos duro" morrendo de medo de irem pra prisão, faz-se necessário uma filtragem de  tudo aquilo que assistimos, lemos ou ouvimos. Gostaria de dar alguns exemplos de falsas verdades que, ainda  hoje, muitos juram ser "verdades absolutas". Por exemplo: D. João VI não era o imbecil que alguns professores insistem em propagar. Sua fuga de Portugal, ao contrario do que dizem, foi estratégica e salvou o reino português. Tiradentes nunca foi barbudo e jamais teve semelhança com jesus,  O MESSIAS, cristo jamais foi cristão e Pôncio  Pilatos era romano e não um fariseu e,  por último, Colombo era Italiano e não espanhol. 

Na sociedade contemporânea, é evidente que há uma facilidade de acesso às informações e, consequentemente, de opiniões acerca delas. Com o advento das mídias digitais e das redes sociais, se estabelece um terreno de propagação de conhecimentos que por vezes impressiona, noutras assusta, pois na medida em que é um novo espaço para se informar e ter voz, é também um recinto que engloba falácias e sensacionalismos. Esse fenômeno, ainda recente e passível de análises, afeta vários flancos: políticos, jurídicos, econômicos, e até mesmo em vidas pessoais. Mas o principal a se analisar são justamente as conseqüências numa área que é diretamente ligada ao ato de informar e opinar: a do jornalismo.

Dentro desse contexto da comunicação social, existem as vertentes daquilo que é informativo e do que é opinativo, mas com um porém: ambos necessitam de precisão e fatos objetivos para se concretizarem de maneira genuína. Erros históricos nascem da imprecisão. Profissionais como os repórteres têm o dever de serem contundentes e não emitirem juízos, pois qualquer mínimo erro ao retratar um cenário, uma história, ocasiona a falha daquele que vai expor a opinião e, consequentemente, a diversos setores da sociedade, afinal, quando um erra, a cadeia toda pode falhar: o advogado, o sociólogo, o antropólogo e mais para frente o historiador.

Com a brecha da internet de haver mais possibilidades no processo de se informar e reproduzir a informação, é necessário o dobro da preocupação na busca de fontes e na exigência da precisão ao apurar as notícias. A história sempre foi inicialmente escrita pelos veículos de comunicação e agora existem novas formas de abordá-la. Isso faz com que seja aberto um cenário de muitas incertezas e incognoscibilidades quanto ao futuro – tanto na área do jornalismo como na vida em si.

Em 2016, o Dicionário Oxford definiu “Pós-verdade” como a palavra do ano. O termo se refere a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais. Essa definição se deu principalmente por conta do referendo britânico sobre a União Europeia e nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Faz sentido trazer à tona esse conceito, pois isso se agrava precisamente de acordo com esse cenário agridoce da emissão de informações e opiniões nas redes digitais.

Para começar, os autores das notícias não possuem emancipação total ao escrever e apurar, pois a liberdade absoluta pertence ao dono do veículo onde se trabalha – no Brasil ou em qualquer lugar do mundo e de qualquer ideologia. Ao ligar esse fato ao significado da palavra pós-verdade na sociedade civil, é notório que se amplia o espaço às percepções corporativas e políticas pelos meios de comunicação. Portanto, é muito complicada e sutil a distinção entre ser um agente de opinião ou simplesmente um porta-voz de autoridade. E, principalmente, entre um verdadeiro agente de informação ou mais um enredado nas armadilhas e segmentações ocasionadas pelas redes e pelo contágio das pós-verdades.  Ja disse em outros artigos, não seja otário da vez, busque a fonte daquilo que ouve, lê ou assiste. Tv é espetáculo ja dizia Guy Debord.




domingo, 23 de abril de 2017

ENEM 2017 - O Sandinismo resiste

AUGUSTO SANDINO: UM HERÓI  ESQUECIDO E SEM MEDALHA.

Por Alacir Arruda

Augusto César Sandino (1895-1934) é considerado por muitos historiadores, o pai de todos os movimentos revolucionários da America Latina e um marco na luta contra o imperialismo americano. Apesar de esquecido, e considerado "bandido" pelos norte americanos, Sandino deixou seu nome gravado na luta contra a opressão e a desigualdade na América Central servindo de referência para movimentos como: Revolução cubana, Sendero Luminoso (Peru) Tupac Amaro (Uruguay), MR8 ( Brasil), ELN (Colômbia) entre outros. Confesso que falar de Sandino me causa uma certa emoção pois ele foi o responsável por toda a minha dedicação às ciências humanas. Li Sandino a primeira vez quando tinha 14 anos, por influência de uma professora de história, e desde então me dedico a pesquisar os sandinismo enquanto movimento politico e social.

A história de Sandino começa na pequena Nicarágua, na América Central, na primeira metade do século XX que sofria os ataques dos impulsos imperialistas norte-americanos bem antes da Guerra Fria, período de disputa da hegemonia geopolítica no mundo entre os Estados Unidos e a União Soviética que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. A América Latina sofreu as agruras desse embate. Nas décadas de 20 e 30 do século passado, o revolucionário nicaraguense Augusto Sandino foi o precursor em enfrentar a intervenção dos Estados Unidos nos assuntos internos dos países latino-americanos.

Ainda adolescente, Sandino testemunhou o enterro do general Benjamín Zeledón, que lutou contra a primeira intervenção militar norte-americana em seu país, iniciada em 1909. O general foi assassinado pelas tropas invasoras em 2 de outubro de 1912. Sandino sempre lembrava que a centelha de sua obstinada resistência ao invasor do Norte nasceu naquele momento. Ali se iniciava a fascinante história do líder revolucionário Sandino, que ainda vive no imaginário da auto-afirmação da identidade latino-americana. 

A mãe do guerrilheiro nicaraguense, Margarita Calderón, era muito pobre e sobrevivia como camponesa e empregada doméstica. Seu pai, Gregorio Sandino, vinha de uma família com um pouco mais de recursos e era proprietário de um pequeno lote de terra. Já com os pais separados, Sandino trabalhou durante a infância na difícil colheita de café ao lado da mãe na região do Pacífico nicaraguense. Aos 11 anos, Augusto foi viver com o pai. 

Augusto César Sandino nasceu há 122 anos na pequena Niquinohomo no dia 18 de maio de 1895. Morreu na capital nicaraguense Manágua em 21 de fevereiro de 1934, com apenas 38 anos.

Augusto César Sandino em 1928 (fonte: Wikimedia Commons)

Entre 1920 e 1923, Sandino trabalha na Guatemala nas plantações da United Fruit, multinacional norte-americana que comercializava frutas tropicais. Trabalha também em empresas produtoras de petróleo nas cidades mexicanas de Tampico e Cerro Azul, entrando em contato com militantes socialistas e anarquistas embalados pelo clima de mobilização sindical criado pela Revolução Mexicana.

Em agosto de 1925, depois de mais de 13 anos de ocupação, os Estados Unidos retiram suas tropas de Nicarágua e confiam seus interesses a grupos paramilitares. Em 1926, Emiliano Chamorro assume através de um golpe militar e após somente um ano, os marines dos Estados Unidos desembarcam novamente na Nicarágua já que não reconhecem a legitimidade de Chamorro. Em outubro deste ano, Sandino volta à Nicarágua e se une às tropas constitucionalistas. No dia de Natal, Sandino e outros constitucionalistas combatem os invasores com a colaboração das prostitutas que trabalham na região portuária da cidade litorânea de Puerto Cabezas.

Durante o ano de 1927, Sandino acompanha de perto o armistício entre o general Moncada e o governo do presidente republicano Calvin Coolidge, que governou os Estados Unidos entre 1923 e 1929. Sandino não se convence que a soberania nicaraguense foi respeitada pelo acordo entre os dois países e continua sua luta pela expulsão das tropas norte-americanas do país. Para isso, recebe o apoio de combatentes estrangeiros de países como El Salvador, Guatemala, México e Venezuela, inclusive do dirigente comunista salvadorenho Farabundo Martí. No final de 1928, Moncada é eleito presidente em eleição organizada pelos marines e contestada por Sandino.

Augusto Sandino (foto de La Voz del Sandinismo)

“Iremos até o sol da liberdade ou até a morte; se morrermos, nossa causa seguirá vivendo. Outros nos seguirão” (Sandino).

Entre 1930 e 1932, o Exército Defensor da Soberania da Nicarágua, comandado por Sandino, chegou a possuir em suas fileiras 6 mil soldados. Após uma longa guerra civil, no primeiro dia de janeiro de 1933, a causa sandinista consegue expulsar as tropas norte-americanas do país. Juan Bautista Sacasa assume a presidência e o general Anastásio Somoza passa a comandar a Guarda Nacional, que ainda sofre forte influência dos Estados Unidos. Em fevereiro, Sandino firma um acordo de paz com o governo central mesmo se queixando das perseguições e assassinatos perpretados pela Guarda Nacional a combatentes do Exército Defensor.

Sob as ordens do embaixador norte-americano, Somoza desobedece ao salvo conduto fornecido pelo governo ao líder nicaraguense e arquiteta seu assassinato no dia 21 de fevereiro de 1934 após uma reunião de Sandino com o presidente Sacasa. Em junho de 1936, Somoza derruba Sacasa e assume a presidência. Ele e seu filho dominaram o governo nicaraguense durante décadas. Em 1939, o presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, ironizou: “Somoza pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”.

O curioso é que Anastásio “Tachito” Somoza Debayle, filho do algoz de Sandino, foi derrubado do governo pela FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional), grupo político que, ate hoje, segue o ideário político de Augusto Sandino, em 1979. O ditador Somoza Debayle fugiu para o Paraguai onde foi assassinado em 17 de dezembro de 1980.

“Minha maior honra é ter surgido do seio dos oprimidos, que são a alma e o nervo da raça” (Sandino).

Contato: agaextensao@gmail.com 

sábado, 22 de abril de 2017

ENEM 2017- Che Guevara 50 anos sem o mito

50 ANOS SEM CHÊ GUEVARA: MORREU O HOMEM MAS O MITO PERSISTE...


Por Alacir Arruda
     
No dia 09 de outubro de 1967 o exército boliviano,  sob orientação  da CIA,  matava o revolucionário Ernesto Guevara de La Serna , o CHÊ. Mal sabiam os bolivianos que morria ali o homem e nascia o mito.  Se estivesse vivo, Ernesto "Che" Guevara completaria esse ano 89 anos de idade. O guerrilheiro tornou-se ícone das esquerdas, visto como um idealista disposto a dar a vida pela causa. Adorado em Hollywood e Paris, Che foi eternizado pela foto tirada pelo fotografo cubano Alberto  Korda em 1967, que virou estampa de camisetas e biquínis. A ironia do destino transformou o comunista em lucrativa marca de negócios. Ame-o  ou  odeiem, Chê ainda vive.

Esse ano completa 50 anos da morte da figura mais conhecida da America latina, Chê está entre as  100 figuras mais importante do seculo XX segundo a Revista Time e sua foto é a mais reproduzida do mundo, perdendo apenas para a imagem de  uma figura mítica, jesus cristo.  Mas, como alertou Nietzsche, a morte dos mártires pode ser uma desgraça, pois seduz e prejudica a verdade.

Para as pessoas de minha geração, Che Guevara é uma figura importante. Embora ele tenha sido morto na Bolívia, de uma certa forma ele continuou vivo, sempre de cabelos longos, barba rala, sério, olhando fixamente em uma direção fora da moldura, usando uma boina escura na qual se vê uma estrela branca. Esta é obviamente a descrição da sua fotografia mais famosa ou, por assim dizer, a “oficial”.

Mas quem foi Ernesto Guevara? E importa realmente quem ele foi? Parece que importa: o número de biografias sobre ele, sobre sua atuação na revolução cubana indica que depois de todas estas décadas ele ainda continua atraindo a curiosidade intelectual dos escritores, e o interesse de leitores. Mas o que mais se sabe de Che está relacionado com sua posição como um dos dentes da engrenagem capitalista contra a qual ele lutou.

Para exemplificar esta colocação, eu posso citar ter visto reproduções da famosa foto de Che, feita por Alberto Korda, em praticamente todos os continentes. Em algumas, a imagem aparece ao lado de personagens históricos locais. Em outras, ele está sozinho, rodeado de slogans. Em outras ainda, com as cores invertidas. Mas a ocasião mais interessante foi quando um aluno de primeiro ano de faculdade apareceu na minha aula com uma camiseta com a tal imagem. Eu perguntei se ele sabia quem era o homem. “Claro, é o Che”, ele respondeu. Quando eu perguntei quem era Che, ele respondeu, “Ah, é um cara que jogava beisebol por Cuba”. Fiquei sem saber se deveria corrigir o aluno, ou deixar que ele seguisse pensando da mesma forma. Afinal, pra uma pessoa de 18 anos, que diferença faz se Che jogava beisebol ou futebol, desde que fosse por Cuba?

Logicamente, faz uma grande diferença, não que tipo de esporte, mas que tipo de filosofia política Che teve e como a empregou durante sua vida. Como sabemos e vimos, ele era argentino de Rosário, e vinha de uma família que, de acordo com a história, era “acomodada”: nem rica, nem pobre, mas que vivia bem. Fez faculdade de medicina e desenvolveu sua visão política depois de sair em uma viagem de motocicleta com seu amigo Alberto. Eles atravessaram a América espanhola (pelo menos as partes mais interessantes e com gente com problemas), e foram até… um lugar ao norte e ficaram em um asilo para leprosos… e Che estava muito apaixonado por sua namorada argentina de família rica… e talvez por causa disto nunca teve sexo com ninguém durante toda a viagem, enquanto que seu amigo Alberto usou todas as oportunidades para conquistar as mulheres que encontravam. No final, Che e seu amigo se despediram, e vemos que o amigo ficou velhinho e trabalhou em Cuba. Mas, um momento! Este é o enredo do filme “Diários de motocicleta”! Será que Che realmente foi tudo o que o filme relata? É verdade que resistiu aos charmes da mulherada durante o trajeto? Deu mesmo aquele dinheiro da sua namorada para o casal de mineiros desempregados? O filme, pelo que quer indicar, vem dos diários do próprio Che, mas como é que podemos ter certeza? Não seria a primeira vez que o escritor do script adiciona algumas coisas para fazer mais efeito. O fato é que, depois de assistir este filme, meus alunos,sobretudo as alunas,  ficaram muito comovidos com a história de Che, especialmente porque quem o representou foi um ator bonitão

Mas a última foto real de Che não o mostra tão bonito como o ator de “Diários de motocicleta”. Embora aquela foto não tenha aparecido tanto como a fotografia tirada por Korda, ela apareceu em alguns lugares. Teria sido em Manchete? Teria sido em Fatos e Fotos? Agora já fica difícil lembrar. Mas a foto circulou no Brasil. Era do interesse dos nossos ditadores mostrar ao povão o que acontecia com um comunista. Sim, comunista! Esta era a palavra maldita que se usava para indicar qualquer um que poderia ter o fim semelhante ao do jovem guerrilheiro que tinha ajudado Fidel Castro a ganhar a revolução. Aquele corpo estendido numa maca, sem camisa, foi usado como um aviso.

Mas não foi o único aviso. Em 1969 um filme com Omar Sharif já vinha com sua versão da vida de Che. O nome do filme, “Che!”, foi traduzido no Brasil como “Causa perdida”, e a tradução dos diálogos do filme foi alterada de forma suficiente para indicar que a causa estava, realmente, perdida. Quem viu aquele filme quando foi liberado no Brasil? Quais foram as conseqüências? Difícil dizer. Mas, pelo menos para mim, que vi o filme em 1989, ficaram as cenas chocantes de Che assinando ordens de execução de gente relacionada ao regime do ditador anterior de Cuba. Simplesmente assinando, enquanto do lado de fora o pelotão de fuzilamento ia matando, matando, matando, e ele dizendo alguma coisa que “no hay que perder la ternura”. (Ou será que isto também vem de outra fonte?) Mas, naquele filme, no fim, aparecem as imagens do corpo sendo levado, amarrado à parte inferior de um helicóptero, os cabelos voando ao vento. E também as imagens do corpo estendido no chão do hospital para onde o cadáver foi levado depois da execução. A não ser que estas sejam imagens mentais que fiz depois de ler sua biografia.

Mas em Cuba, as crianças talvez não precisem de nenhuma imagem mental enquanto recitam, todos os dias, uma sentença que diz, “Seremos como Che, seremos internacionalistas.” E os que não querem ser como Che, têm uma opção? Será verdade o que um antigo prisioneiro em Cuba (Armando Valadares, antigo embaixador dos Estados Unidos na ONU) conta, de um menino de 12 anos que foi preso por ter brincado com a arma de um policial, e depois de ser seviciado e violentado na cadeia, ficou com doenças venéreas, e ia ficar na prisão até os 18 anos, sujeito a todo tipo de humilhação e violência? Podemos acreditar que todas as crianças de 12 anos em Cuba têm que ir passar um tempo em uma espécie de retiro, onde trabalham e recebem a doutrina, mas que acabam sendo violentadas por falta de supervisão?  Ou será que é verdade que todas as crianças — aliás todas as pessoas — em Cuba têm direito a assistência médica gratuita? E todas as escolas têm suficiente leite em pó, açúcar, arroz e feijão para dar a todos os alunos duas refeições diárias? Como vamos saber?

De vez em quando,  nos Estados Unidos, a imprensa se refere a Cuba. Depois do escândalo com o menino Elián, que sobreviveu a travessia e chegou à Flórida para ser o alvo de um conflito entre os familiares dos dois lados, o assunto que mais aparece é Fidel Castro. Está vivo!!  El comandante nao morreu!  Como é mesmo seu irmão? Os Estados Unidos devem ou não devem parar com o embargo? Quem gosta de charutos cubanos, etc.?

Talvez uma das imagens mais chocantes dos últimos tempos seja a que de Castro e Chávez, em 2001,  lado a lado, quando este último lhe estava dando a espada de Bolívar. Deu mesmo? Ou será que foi só para tirar as fotos? A espada pertencia a Chávez pra ele poder ir dando a Castro? Não pertence à Venezuela? Os venezuelanos foram consultados sobre esta doação? Quem sabe ao certo? Talvez nem mesmo Chávez, que parece não saber exatamente onde termina a realidade e onde começa sua auto-invenção.

E, logicamente, esta imagem dos dois juntos é especial. Chávez, autodenominado socialista, é o filho bastardo da revolução cubana, da qual fez sua própria tradução e interpretação livre. Depois desta última “eleição”, em que qualquer tentativa de disfarçar seus desígnios ditatoriais caíram por terra, eu fico pensando no que diria Bolívar, seu compatriota e herói da libertação da América espanhola, que sonhou com uma América democrática.

Mas uma outra coisa interessante daquela entrevista dos dois foi a imagem do velhinho Fidel, ainda chamado “comandante”, que entrava em conflito com a outra imagem mental que temos dele, uma espécie de Che mais magro, de cabelos mais curtos, falando à multidão depois da entrada triunfal em Havana. Sim, meus amigos, até os poderosos criam rugas e ficam com manchas na pele. É só uma questão de tempo.

Mas não para Che. Ele continua com o mesmo olhar penetrante. Furando o tempo. As doenças jamais o tocaram. Não teve cataratas. Não colocou dentadura nem implantes. Ali está ele, imortal. Furando o futuro e chegando até nós. É ou não é?

Como vamos saber se é mesmo verdade que as crianças de Cuba têm alimentação garantida? Sabemos que o país eliminou o analfabetismo e que exporta médicos. Mas, e a comida? Com o embargo imposto pelos Estados Unidos por tantos anos, e com a queda da União Soviética no fim dos anos 80, o país ficou mesmo como um pequeno navio num marasmo, velas murchas. Que fazer?

Em 1999, quando lecionava em São Paulo, participei de uma mostra de um filme, seguida de palestra e discussão, feita pela artista de origem cubana Coco Fusco. Naquela ocasião Fusco, que trabalha com teatro, especialmente teatro de performance (uma espécie de improvisação), relatou sua experiência em Havana, e como uma grande porcentagem das mulheres jovens da cidade trabalham em volta dos hotéis de luxo, como prostitutas, e sustentam a família com este trabalho. Ela trazia os filmes e entrevistas que havia feito, e a conclusão, naquele momento, era que a população cubana estava numa condição terrível, então as mulheres — mesmo meninas de 10 a 12 anos – faziam o que podiam para ajudar suas famílias. Fiquei com a impressão que nada havia mudado em Cuba, pelo menos não para as mulheres. Outra vez, a ilha tinha virado o bordel dos países ricos, em que homens endinheirados podem ir e escolher as mulheres que quiserem para usar e descartar. Elas não têm outra opção, não importa o que “el comandante” diga, e quantas espadas de Bolívar Chávez possa lhe trazer.

Eu nunca estive em Cuba. É bem possível que jamais possa ir. Mas a imaginação daquele país permanece, para mim, assim como para muitos outros, filtrada pelos versos do patriota José Martí, que morreu tentando libertar sua pátria dos espanhóis: uma terra de palmeiras, de brisa, de grande beleza. Talvez tenha sido esta a imagem que inicialmente atraiu o jovem idealista Ernesto Guevara.

As guerras, as revoluções, são mesmo como um omelete: não podem ser feitas sem se quebrar os ovos. Che entrou na luta pela libertação de Cuba pronto para quebrar ovos. Fidel ficou com o omelete. O povo cubano pode ter ganhado um pouco do omelete no início (especialmente depois que a maioria dos brancos se foi da ilha), mas pelo que se vê ultimamente, o povo cubano está realmente com as cascas dos ovos nas mãos, e as galinhas foram também comidas. Agora que Fidel se foi,  seguindo o estilo de ditadores, a presidência fica para seu irmão Raul Castro. O que se espera, para o bem do povo cubano, é que Raul — que também não é jovem — veja que eleições livres não têm que necessariamente significar que o país vai ser entregue aos ianques. Que adianta terem dado educação aos cubanos, se os irmãos Castro acham que o povo é estúpido e não sabe escolher seu próprio presidente?

As ditaduras, tenham as caras que tiverem, cheiram mal. Agora que Chávez, mesmo morto, pariu seu próprio modelo, é bem possível que a carniça se espalhe pela América Latina inteira. Não sei bem o que Che diria de Chávez, mas é bem possível que o que ele pensaria não poderia ser impresso em uma camiseta.

Quanto à imagem de Che, causa uma espécie de alegria vê-lo sempre jovem, varonil, bonito, tal como Casimiro de Abreu, Castro Alves e Lord Byron. Tal como estes poetas românticos, e tal como os ícones como Marilyn Monroe e James Dean, Che escapou dos achaques da idade, das dores de coluna, das varizes, das hemorroidas. Há uma grande beleza nisto, temos que admitir.

A não ser, claro, que a gente prefira a beleza da velhice plena de Michelangelo. Ou mesmo de um Fidel que hoje descansa no mausoléu dos heróis em Santiago.

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