domingo, 15 de novembro de 2015

atentado em Paris

O LIMITE PARA AS ATROCIDADES HUMANAS É A NOSSA  IMAGINAÇÃO

Por Alacir Arruda



O mundo amanheceu coberto por uma nuvem de dúvidas e chocado neste sábado 14 novembro de 2008. Mais de 120 pessoas foram mortas e outras 300 se feriram em vários pontos de Paris vítimas da intolerância. A pergunta que não quer calar: Até quando!? Ate quando suportaremos inocentes sendo aniquilados por extremistas que buscam reconhecimento através do terror? E o G7, o grupo dos países mais ricos do mundo, o que tem a dizer sobre isso? Será que não eles os grandes culpados por toda essa barbárie? Ou seria Alah? Talvez Tiririca, (grifo nosso). 

Bom, perguntas e satirizações à parte, esse atentado em Paris apenas reforça a idéia de que vivemos em um mundo onde impera o transitório e o ambivalente. Transitório em função da extemporaneidade dos fatos, nada mais é óbvio os interesses, os princípios e até Deus vaga pela transitoriedade. Tentar responder qualquer das perguntas acima e mergulhar nesse mundo transitório. E ambivalente porque o conceito de ambivalência leva indistintamente, a existência simultânea, e com a mesma intensidade, de dois sentimentos ou duas ideias com relação a uma mesma coisa e que se opõem mutuamente. 

Tentar explicar quais são os reais interesses do Estado Islâmico é mergulhar em um oceano de incertezas, cogitações e dúvidas. Esse grupo se perdeu em suas propostas iniciais há tempos, hoje mais parece um partido radical tentando um golpe de estado tanto na Síria quanto no Iraque sob a égide da Sharia. O EI Utiliza do terror como arma em um mundo onde impera o medo. Países como Inglaterra, França, Alemanha e o Estados Unidos , sobretudo os dois últimos, apenas esperam o dia e horário do próximo ataque, pois uma certeza e corrente entre eles, o EI vai nos atacar! A pergunta é: Porque não reagem? Querem saber a resposta? Por que não há como reagir, simplesmente por isso. As armas usadas pelo Estado Islâmico, que se baseia na alienação religiosa, é a mesma utilizada (guardadas as devidas proporções) por essas superpotências há mais de 100 anos, a alienação capitalista voltada para consumo e o ter a qualquer custo. Esse mecanismo funcionou de tal forma que tente tirar uma coca cola de uma criança.....A reciproca é verdadeira e funciona da mesma forma do lado oponente: tente tirar um fuzil AK 47 das mãos de um extremista do EI! No fundo ambos são alienados, que os diferenciam são os interesses. 

Quem me acompanha sabe que gosto muito da filosofa alemã Hannan Arendt. Segundo ela: "À violência é sempre dado destruir o poder; do cano de uma arma desponta o domínio mais eficaz, que resulta na mais perfeita e imediata obediência. O que jamais poderá florescer da violência é o poder." (Hannah Arendt) 

O homem violento, aquele que acredita em sua força, este não tem poder. O poder só pode ser encontrado onde não há violência. Uma coisa é obediência e medo outra é o real sentido daquilo que transforma sem agredir. Esta é uma das razões pelas quais a democracia apresenta-se como algo frágil pois, está implícito em sua natureza este caráter de incompletude na medida em que dá ao outro a compreensão de que não há uma imposição antecipada. Ao contrário, o que existe é o direito da autoprodução dentro do percurso. 

Os riscos e as múltiplas possibilidades de escolhas fazem parte deste contexto de tolerância e respeito. Embora haja o risco, este sinaliza para a ausência de passividade e também para o recuo que as atitudes absolutas podem despertar com a falsa sedução de uma ordem preexistente. 

Faz parte do exercício da maturidade entender que a tolerância pode ser um caminho para uma convivência mais pacífica e que tal atitude não significa passividade. Portanto, nem sempre é necessário que o mais forte seguido, pois múltiplos são os caminhos... . 

Realmente é uma questão a refetir......Será que o Estado Islâmico atingirá seus objetivos pela violência? ou estão dando um tiro nos próprios pés? Passo a palavra a vocês.... 








quinta-feira, 5 de novembro de 2015

MEDIOCRIDADE

O Brasil  não passaria na prova do ENEM
Por Alacir Arruda
Estou horrorizado com a capacidade de superação dos conservadores reacionários e imbecis desse país. Se não bastasse terem eleitos bandidos para nos governarem, agora querem discutir Ideologia de Gênero  a partir de Simone de Beauvoir. A incapacidade de concatenar idéias desse povo supera qualquer governo Bush. Senão vejamos! Por uma questão do ENEM 2015 – por sinal muito bem elaborada- de humanidades,  onde o elaborador  cita um pequeno fragmento da obra “O Segundo Sexo” da filosofa francesa Simone Beauvoir resolveram execrar essa filósofa.  Aliás, filósofa da mais alta magnitude,  essa cidadã só  era esposa de Jean Paul  Sartre um ícone da filosofia existencial.
Agora imaginem  um aluno vendo na sua frente um parágrafo de texto escrito por uma figura histórica conhecida, uma dessas pessoas que viveu um momento histórico particular, que pensou sobre o mundo e agiu para transformá-lo. Será que consegue ler e interpretar o tal parágrafo? E se puder escolher uma resposta pronta entre 5 possíveis (sendo que algumas delas claramente não tem relação nenhuma com o texto)? Ajuda? Escolha a alternativa certa e eu vou saber se você conseguiu entender o que o texto estava dizendo. Isso é o resumo da mecânica de uma prova como o ENEM, que pretende avaliar as habilidades dos alunos com 180 questões e uma redação.
A polêmica a respeito de parágrafos de texto assinados por Simone de Beauvoir e Milton Santos, usados como enunciados de questões do ENEM, são uma má interpretação dessa mecânica. O objetivo da prova é avaliar, entre outras habilidades, a capacidade de interpretar textos, e isso não tem nenhuma relação com a opinião dos alunos. Se os tais enunciados são polêmicos ou se vão na contramão das convicções daquele que está fazendo a prova, tanto melhor. Se eu não conheço os autores citados, se não concordo com eles, mas ainda assim consigo ler e compreender o que eles estão querendo dizer, isso significa que eu consigo interpretar um texto, qualquer texto.
Mesmo a redação, não tem como objetivo abrir um espaço para conhecer a opinião dos alunos sobre esse ou aquele tema. A redação é também um teste para saber se o estudante consegue estruturar argumentos em sequência, com começo, meio e fim, sem apelar para afirmações sem fundamento. Aliás, os enunciados das questões, assinados por pensadores, poderiam servir como argumentos e contra-argumentos para a redação, já que o tema – a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira – pode ser abordado por diferentes ângulos. Isso mostra apenas como a prova é bem elaborada.
Se tudo o que conseguimos extrair do ENEM 2015 é a polêmica, a doutrinação ideológica, o feminismo etc., nossa capacidade de interpretar textos está bem prejudicada. A sociedade brasileira não passaria nessa prova de conhecimento gerais e habilidades básicas, e isso significa que não temos formação para navegar pela complexidade da vida contemporânea. Vamos ter que começar de novo. Aos livros, cidadãos!


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Enem. o dia seguinte

RESSACA DO ENEM: O DAY AFTER DE UM FRACASSO ANUNCIADO.
Por Alacir Arruda
Caros seguidores desse Blog, passados alguns dias do “temido” Exame Nacional do Ensino Médio, que se tornou a prova mais disputada do mundo segundo a revista Forbes, convêm fazer algumas reflexões. Primeiro sobre a prova em si. Para mim, nada de novo, temas atuais aliados a fatos históricos contextualizados, textos enormes em natureza e linguagens e uma matemática óbvia. Sei que aquele que esta lendo este texto deve estar imaginando: “ esse cara se acha”-  uma prova difícil daquelas ele dizer óbvia. Sim! Repito! ´ÓBVIA, bem a cara do ENEM.
Com isso não estou dizendo que a avaliação estava fácil, isso é outro departamento, apenas avalio a sua estrutura a partir de suas matrizes. Se  estava fácil ou difícil,  isso é juízo de valor  e desse mister eu me abstenho. Mas fico imaginando a primeira aula nos cursinhos e terceirões da vida logo  após o ENEM.  Permitam-me  conjecturar um pouco. Penso agora,  aquele professor entrando na sala, os alunos todos exaustos após dois dias árduos de prova dizendo: - “ eu não falei que iria cair aquilo?” – Lembram que dei aquele conteúdo? – “Nossa caiu tudo que dei na minha  ultima revisão”... Ou talvez,  humildemente, digam: “CAIU TUDO QUE ESTUDAMOS”. Imagino agora a cabeça do aluno que ouve isso e tem a convicção que foi mal na prova;  com certeza alguns pensam logo na figura  materna daquele “ser”  que  “habla” lá na frente numa condição,  que esse blog se julga incapaz  de transcrever.
As ilações acima, por mais bizarras que possam aparecer,  ocorrem todos os anos nas  escolas Brasil afora após o ENEM, sobretudo nas privadas. Fui,  e ainda sou professor de cursinhos,  presenciei isso   minha vida toda e até hoje presencio. Isso se deve a falta de humildade do docente que não se reconhece parte do fracasso escolar que abate nossos alunos. Todos são culpados por esse fracasso:  alunos, pais, Estado, o Judas  e até a PQP,  menos o sacrisanto “professor”.  Até porque se alguém culpá-lo,  ele subirá na égide de um velho discurso “ eu ganho pouco”..Ah vá....pra.....Melhor não continuar.
 Desabafos  de Alacir à parte, acredito que o  ENEM 2015  foi um divisor de águas para que as escolas possam rever seus currículos..Eu disse c.u.r.r.i.c.u.l.o...Não Cú...rriculo como vem se fazendo nesse país desde que a escola formal foi criado no século XIX. Rediscutir conceito de aula, tempo, inter, trasn e pluridisciplinalidade, qual o papel da escola no seculo do conhecimento? Etc...Essas sim deveriam ser as pautas a serem abordadas nas “famigeradas” reuniões de planejamento de janeiro ( que alias sempre odiei).
Aos alunos cabe de minha parte uma ultima reflexão seguida de uma orientação. Meus caros, vocês são maioria, não ocorrerá nenhuma mudança substancial nessa educação “praguejada”,  que criou raízes no Brasil,  sem a participação de vocês. Participem de reuniões, criem grêmios estudantis fortes e independentes, formule sugestões e cobrem repostas de quem de direito. Só assim podemos vislumbrar um futuro menos aterrorizantes para os senhores. E saibam: Não estudem em escolas ruins, não assistam aula de professores medíocres, usem esse tempo para ler Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, Hanna Arendt, Marx e Freud, será mais proveitoso, garanto.. (....grifo nosso)..

Por último, fica aqui minha homenagem àqueles docentes engajados  e que muito orgulham  nossa classe, sabemos que são poucos, mas existem.

sábado, 17 de outubro de 2015

Enem 2015: um culto a ignorancia

ENEM 2015:  MAIS UMA GERAÇÃO PERDIDA NO ESPAÇO DA IGNORÂNCIA.

Por Alacir Arruda
A cada dia que passa me certifico mais de  que sou: “ uma ilha de ignorância cercada por uma oceano de inteligência”. Senão vejamos. Tive a honra de ser convidado pelo INEP em 2006 para reestruturar o antigo ENEM, com 63 questões, e criar aquilo que hoje é conhecido como “NOVO ENEM” com 180 questões.   Era um grupo de 30 professsores doutores de todo o Brasil das mais variadas áreas do conhecimento,  e  todos com passagens por universidades estrangeiras.  Foram 02  anos de árduo trabalho para que em 2009 fosse aplicado o 1º  “Novo Enem”.  A  referência teórica utilizada foi o Relatório Delors de 1996 e o modelo adotado   era o S.A.T  (sigla para Scholastic Assessment Test ou Teste de Avaliação Escolar), que é um exame nacional norte-americano.
Bom, dito isso, e com autoridade para falar, uma coisa  tem me tirado  do sério todos  os anos:  O COMPORTAMENTO DA MIDIA E DAS ESCOLAS PRIVADAS SEMANAS ANTES DO ENEM. Chega a ser risível as reportagens que orientam os alunos de como se preparar para esse exame. Algumas redes de TV  chegam a patrocinar “aulões” em estádios de futebol para 30. 40 mil pessoas onde um grupo de "atores" ( que  se intitulam professores) fazem “micagens”, dançam, rebolam, cantam musiquinhas, fazem ginástica, entre outras bizarrices,  para que o  alunos gravem conceitos, fórmulas, datas etc.
O que mais impressiona em toda essa celeuma?  Nada daquilo que é ensinado nesse teatro de horrores, cai no ENEM. Será que as pessoas que organizam isso  conhecem o relatório Delors? Sabem qual o perfil do aluno do século XXI? Conhecem a Matriz de Referência de cada disciplina aplicada no ENEM? Sabe definir competência de habilidade? Inter/Trans/pluridisciplinalidade?  Sabe o que são áreas do conhecimento?  Entendem o que seja um aluno critico/observador? Garanto que não. Se soubessem não submetiam a isso.
O ENEM é uma nova forma de conceber educação,  e em nada se compara com  aquilo que hoje é ensinado em sala de aula. Costumo sempre dizer em palestras que  o currículo hoje praticado pelas escolas brasileiras está na contra mão daquilo que o ENEM cobra, e digo mais,  essas escolas estão cometendo um crime de “lesa pátria” com essa juventude que não tem a menor noção do que seja esse  exame. Prova disso são as medias do ENEM nos últimos 6 anos.
Quer ir bem no ENEM?  Esqueça todas essas aulas inúteis que  você teve nos últimos 10 nos, isso não serve para nada. Esqueça  fórmulas, conceitos etc. Entenda que o conhecimento não ocorre de fora para dentro, ao contrario, ocorre de  dentro para fora, ou seja, aprender nada mais é que “vomitar” aquilo que estava em seu interior, e o professor nesse processo é apenas o vetor. Nenhum  professor ensina nada para ninguém, professor é apenas uma luz que ilumina o caminho, mas não ensina ninguém a caminhar. Em suma, que ir bem no ENEM? Leia, autores como Nietzsche, Baumam, Freud, Sartre, Schopenhauer, Spinoza,  Foucault, Novak, Marx, Hobsbwam, Michael Sandell e Morin,  em humanas. Em exatas: Energia, Química fina, nanotecnologia, informática,   quântica  pesquise quais são os últimos vencedores do premio Nobel em Matemática, Química, Medicina, física e  seus estudos . Em linguagens,  faça uma leitura do mundo  a partir das mais variadas formas de linguagens e da estética.  E por ultimo, faça um simulado de 180 questões por semana, procure entender o que acontece no mundo do ponto de vista: político, econômico e social, leia jornais ou assista noticiários sérios.
Não há formula mágica para o ENEM, so existe uma saída- ESTUDE....MAS SAIBA ESTUDAR..


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

ser professor II

Porque sou professor...

Por Alacir Arruda

Certa vez um aluno na faculdade  me perguntou : por que você dá aula? “Você é  um cara inteligente poderia passar em qualquer concurso publico bom que pague altos salários assim  poderia ter uma vida tranqüila e um futuro garantido.!!”. Boa pergunta e digna de uma boa resposta. 

Por outro lado, o que vemos é o descaso e a falta de respeito que nós, professores, sofremos. A desvalorização em qualquer âmbito profissional nos leva a crer que não somos importantes e que não fazemos parte da sociedade de certa forma. Qualquer profissão que conduz à ética, como um dos principais valores a ser seguido, deve ser respeitada e valorizada a fim de que haja mais profissionais habilitados, motivados e imbuídos a exercerem seu papel com excelência, e tornarem-se, deste modo cidadãos mais dignos, nesse sentido, o professor deveria ser mais respeitados por quem de direito.

Bom.. agora vou responder ao questionamento do meu aluno. Vamos por partes: Primeiro sou professor por opção e não por condição, segundo que não busco segurança, ao contrario, sou um errante da educação busco sempre a incerteza pois ai que esta a necessidade. E terceiro..bom ...

“Quão satisfatório e motivador é levantar todos os dias para ir trabalhar com orgulho; um orgulho inexprimível, um orgulho que quando perguntado o que significa ser professor e não encontrar palavras para denotar. Um orgulho de saber que faço a diferença na vida das pessoas, o que é muito gratificante. Isso é uma prova que aquilo que eu faço (a paixão que tenho em ensinar), está sendo levado a sério, e está alcançando o coração das pessoas com a mensagem que eu quero transmitir.
Ver o brilho dos olhos de um aluno sobre o entendimento de um determinado tema que esta sendo explanado é algo simplesmente incomum a ser transmitido em palavras sobre o que sinto ao me deparar com tal ação. Além do ser professor procuro também ser amigo, ser companheiro. Acredito que isso me diferencia (não julgo que outros não façam). Costumo dizer:
Se em sala de aula você somente usar a Educação Bancária, muitas pessoas de opiniões que você diz estar ensinando (e elas dizem estar aprendendo) sairão com poucas ou nenhuma chance no futuro; com mínimas oportunidades na vida. Temos que formar alunos de opinião própria, também saber corrigir o limite que eles podem impor sua opinião.



Então....Não me perguntes porque sou professor...Porque ser professor para mim..é a minha vida!!!


"DEDICO A TODOS AQUELES QUE, COMO EU , ESCOLHERAM ESSE OFICIO"

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

a unica conclusão é a morte

NÃO ME VENHAM COM CONCLUSÕES!  A ÚNICA CONCLUSÃO E A MORTE!
Por Alacir Arruda
Alguém certa vez me disse: Alacir, a  falta de sono nos faz delirar(....) Sou prova disso, pois as  04h00 da madrugada resolvi  Plagiar o maior poeta da Língua Portuguesa Fernando Pessoa. E por quê? Porque acredito que essa frase é, absolutamente Schoperaureana e Nitiana, e como  admirador confesso desses dois filósofos resolvi refletir.
Para que verdades? Conclusões? Aliás, por que  precisamos sempre explicar as coisas, os fatos? E o imponderável? Onde ele reside? Talvez esteja ai a o grande responsável pelas nossas angustias e frustrações. A nossa incapacidade de lidar com as  limitações inerente  a nossa espécie e a  certeza de que carregamos um  “cadáver”  em nossas costas  nos  eleva a uma espécie de “cegueira branca” (de Saramago) onde preferimos  fingir de cegos a  encarar a única conclusão da vida, qual seja? A morte!
Ate as malfadadas religiões ( e aqui não poupo nenhuma)  tentaram nos ludibriar com  elucubrações e delírios  como a existência de  “deuses, céu, paraíso vida eterna”  entre outras insanidades. Porém, o objetivo final era sempre nos aliviar da certeza de nosso fim. Uma pergunta paira no ar: por que queremos a vida eterna? Qual o objetivo em continuar a viver mesmo que no plano espiritual? Talvez Freud nos ajude.
Segundo o criador da psicanálise, “Nós,  criaturas civilizadas,  tendemos a ignorar a morte como parte da vida...no fundo ninguém acredita na própria morte, nem consegue imaginá-la. Uma convenção inexplícita faz tratar com reservas a morte do próximo. Enfatizamos sempre o acaso: acidente, infecção, etc., num esforço de subtrair o caráter necessário da morte. Essa desatenção empobrece a vida...”.
Schopenhauer (1788-1860) pontua que certas religiões ou filosofias não preparam o homem como de fato seria necessário, assim por vezes o mesmo apresenta conceitos que o tornam inseguro. “É, de fato, uma coisa questionável imprimir precocemente no homem, nesse assunto tão importante, conceitos fracos e insustentáveis, e assim torná-lo para sempre incapaz de admitir o que é mais correto e seguro.” (Schopenhauer, 1788-1860,p.60).
Nietzsche ( 1844-1900)  afirma que o cristianismo promete vida eterna aos que souberem viver bem a vida, alimentando uma falsa esperança de um mundo ilusório, aquilo que ele  de chama de “morte covarde”. Para fundamentar sobre as conseqüências da morte não livre, Nietzsche faz menção à lembrança inerente ao homem do “foi assim”, considerado por ele como a causa de todo o sofrimento humano, sendo este submetido ao tempo que passa, perdendo a possibilidade de mudança da realidade. O homem não tem noção real de tempo, sendo acometido à morte que “parece ser um acidente que assalta”.A morte surge, para essas pessoas, como uma fatalidade.
Filósofos à parte, a nossa reflexão sobre a incapacidade  humana em lidar com sua finitude continua. Talvez o capitalismo, cada vez mais selvagem e individualista, seja uma das conseqüências desse nosso temor. Pois,  ao  apegarmos a bens materiais, nos auto-afirmarmos nesses produtos a ponto de torná-los a nossa razão de existir. Senão vejamos, um individuo que hoje possui uma Ferrari, essas de  ultima geração,  acaba por perder seu nome e sua identidade humana, ele passe a ser o “fulano da Ferrari” e assim segue com outras marcas de  destaque. Certa vez ao entrar em uma loja de departamento ouvi a vendedora chamando por uma cliente que estava saindo expressando a seguinte frase: “ senhora...senhora..é a senhora que esta com uma bolsa Louis Vilton....sua identidade ficou aqui no caixa (..) Detalhe, ela esteva com a identidade da senhora na mão. Será que tudo isso é medo da morte?  
Por isso afirmo... A  única conclusão que existe é a morte, portanto, aceite-a!!


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O FIM DO HUMOR

Como a Pós-modernidade Destruiu o Humor


Crítica de Nietzsche à Pós-modernidade

Chegou o tempo para que o homem se fixe em um objetivo. Chegou o tempo para que o homem semeie o germe de sua mais elevada esperança. Para isso, seu solo é ainda bastante rico. Mas um dia pobre e árido será esse terreno e nele já não poderá germinar nenhuma grande árvore. […] é preciso ter ainda um caos dentro de si para gerar uma estrela que dança. Isso vos digo: tende ainda um caos dentro de vós. Ai, aproxima-se o tempo em que o homem já não conseguirá gerar estrela alguma. Aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, daquele que já não pode se desprezar a si mesmo. […] Já não se sente necessidade de ser pobre ou rico. São duas coisas demasiado penosas. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São duas coisas por demais penosas. Nenhum pastor e um só rebanho. Todos querem a mesma coisa, todos são iguais.” (NETZSCHE, p. 21-22)"


Como a Pós-modernidade Destruiu o Humor: Do Rir do Poder ao Rir com o Poder

Livremos-nos, antes de darmos início ao tema, de um mal entendido capaz de dificultar a compreensão do que estará sendo dito: quando falo em poder, não me remeto a uma concepção dita tradicional ou jurídica de poder (o poder entendido como soberania, atrelado ao Estado) nem de uma concepção marxista (o poder entendido como possuindo um caráter unicamente repressivo). Trata-se, afinal, de evidenciar a leitura foucaultiana que faço do poder. Ora, como é sabido, o poder em Foucault não é aquilo que se encontraria concentrado no Estado como sendo o seu objeto e produto exclusivo; tampouco é tão-somente o efeito de uma repressão que incide sobre os indivíduos. Isso significa pensar o poder sob o ponto de vista de uma negatividade irremediável, o que não é verdade. Outro ponto: o poder também não é pensado como um objeto do qual um grupo de indivíduos (uma classe ou um partido) ou um único indivíduo (o patrão) teria posse, o que significaria, em outras palavras, pensar o poder como relacional; em suma: o poder é ação, possuindo também um caráter micrológico epositivo. Daí que Foucault permitir-se-á falar em termos de relações de poder (postura absolutamente nietzscheana) e não em termos de titulação (no caso do marxismo: a burguesia como sendo a classe titular do poder).

Escrevi esse primeiro parágrafo no intuito de dizer uma coisa bem simples (e é verdade, o simples nem sempre é fácil de perceber): não me compreendam como o intelectual lamuriento que insiste em repetir a velha e enfadonha choradeira marxista sobre como o poder é perverso, execrável, pernicioso, maquiavélico, malvado etc. Não! Não é isso! O que quero pensar aqui é em como, com o advento da pós-modernidade (1950, por convenção), o humor perdeu todo o seu caráter contestador e denunciador da ordem vigente para tornar-se aquilo de que o poder se serve para mergulhar os indivíduos num sono letárgico (o panem et circen pós-moderno: sexo alucinado, álcool desenfreado e farra contínua, por exemplo). Dizendo de modo mais sucinto: pensar a relação entre humor e poder no cenário pós-moderno a partir da ideia de uma despotencialização do riso.

O fantasma pós-moderno vagueia por todos os âmbitos, desde as ciências, as artes, a filosofia até chegar e engolir a vida quotidiana. Ele vagueia sutil, silencioso, sorrateiro, e não sabemos ao certo como reagir a ele: com um entusiasmo regado a funk, axé, pagode, psi, trance, Sex Shop, pornô e algumas drogas (tudo junto, pois a pós-modernidade é uma geléia onde se pode, ao mesmo tempo, ler Nietzsche e Augusto Cury sem medo de estar cometendo uma barbárie intelectual, em outras palavras: o vale tudo relativista); ou com uma nostalgia crescente dos tempos em que viver ainda valia a pena (saudade da solidez da modernidade onde ainda se podia crer no sentido das coisas: do amor, da amizade, da cultura, da ética, da política etc.). No final das contas, vemo-nos divididos entre pensar a pós-modernidade como a decadência ou a ascensão de um novo homem, de uma nova era para a humanidade saída das ruínas dos edifícios da modernidade.

Em meio a esse caotismo típico da pós-modernidade, o humor não escapa ileso, muito pelo contrário, meus caros! O humor também é engolido pela onda pós-moderna e sua porra-louquice elevada à enésima potência: uma nova maneira de rir caracterizada por uma indiferença absoluta. O motor dessa nova maneira de rir é um pensamento do tipo “que se dane o capitalismo selvagem e a repressão, o comunismo e o anarquismo, a política, a economia e todo o resto”; é o desmoronamento das meta narrativas descrito por Lyotard. Citando um trecho do livro O que é o Pós-moderno:

“Desde a Grécia antiga, as filosofias são discursos globais, totalizantes, que procuram os primeiros princípios e os fins últimos para explicar ordenadamente o Universo, a Natureza, o Homem. A pós-modernidade entrou nessa: ela é a valsa do adeus ou o declínio das grandes filosofias explicativas, dos grandes textos esperançosos como o cristianismo (e sua fé na salvação), o Iluminismo (com sua crença na tecnociência e no progresso), o marxismo (com sua aposta numa sociedade comunista). Hoje, os discursos globais e totalizantes quase não atraem ninguém. Dá-se um adeus às ilusões.” (SANTOS, 1987)

Ora, o pós-modernismo “desenche, desfaz princípios, regras, valores, práticas, realidades” (SANTOS, 1987). É o que o sociólogo polonês Zigmunt Bauman chamará de modernidade líquida. E não poderia ser diferente com o humor e o riso: todo o conteúdo crítico, subversivo, revolucionário do riso esvai-se em muita purpurina e músicas ridículas feitas em micro-computadores (as porcarias que se vê em programas como Zorra Total e Pânico na TV); e não podemos esquecer-nos das personagens extravagantes envolvidas por um ar de imbecilidade proposital (e são de fato imbecis e não apenas enquanto personagens) sabe-se lá porquê…

Deixem-me falar um pouco mais sobre os programas de humor. O Pânico na TV, por exemplo. Esse programa esdrúxulo oscila entre um erotismo promovido pela exibição contínua de belas mulheres seminuas (eis um bom momento para os libertinos me crucificarem e os liberais gritarem “seu moralista!”) e um falatório vazio que visa tão-somente alimentar as cabeças, igualmente vazias, dos seus telespectadores. E você que está lendo este texto, pôs-se a rir? Pois não deveria. Não há nada de engraçado nisso, ou ao menos não deveria haver. Pois a comédia de hoje será a tragédia de amanhã! Ouso fazer-me aqui de “vidente”, correndo o risco de ser linchado pelos macacos drogados pós-modernos que vêem nessa nova onda um grande barato. E que me chamem de pessimista!

Ah, outra coisa! Se você, caro leitor, é um pós-moderno e está bufando de ódio em razão das críticas que lanço mão neste texto, saiba do seguinte: que estou a rir, ou melhor, a gargalhar, de sua cólera!

Deleuze, filósofo que aprecio principalmente pelo fato de compor a linha de frente contra o pós-modernismo e o contágio niilista que ele promove, falava, na década de 60, em como se peca ao negligenciar a potência e o gênio cômicos de um autor. Essa potência e esse gênio dão testemunho do que, num determinado autor, pode-se chamar de sua eficácia anti-conformista1. Falemos de Kafka: sabemos muito bem o quão tenebroso é o universo kafkiano e o que constitui, nesse universo, o alvo de suas críticas. Mesmo assim, conta-se que quando Kafka lia O Processo, o público punha-se a rir. E isso de nada tem a ver com uma forma de depreciar a obra do autor. Ao contrário, é precisamente essa comicidade que expressa sua grandeza. Falemos de outro autor, agora filósofo: Nietzsche. Quem nunca riu ao ler alguma de suas obras não o leu verdadeiramente – permaneceu-se demasiado encoberto pelo espírito do sério, algo que o próprio autor denunciava2. Valho-me de um terceiro exemplo: Voltaire. Quem nunca leu seu romance Cândido ou o Otimismo e não riu da maneira trocista com que ele critica o otimismo filosófico, perdeu o essencial. É verdade que os acontecimentos envolvendo Cândido são terríveis e brutais, só que mesmo assim Voltaire nos provoca o riso e não o sentimento incômodo de quem está a ler páginas pouco ou nada agradáveis. Voltaire é um desses autores que fazem do riso uma arma contra o dogmatismo, contra o status quo. Com efeito, não se trata do mesmo humor, do mesmo riso, que se vê espetacularizado nos outdoors, nas campanhas publicitárias, na TV e na internet. E como poderia sê-lo, se o pós-modernismo, “sempre satírico, pasticheiro e sem esperança” (SANTOS, 1987), envenena tudo o que toca?

Falemos de um humor conformista par excellence, que ao invés de introduzir no pensamento uma positividade e uma atividade, introduzi-lhe-á uma imobilidade, uma apatia, um fastio, um profundo desprezo pelo querer. Tem-se a impressão de sair do lugar, mas é tão-somente o efeito do simulacro pós-moderno – no final das contas apenas flutuamos entre micro chips, vibradores, imagens, signos que vêm de todos os lados, propagandas, embalagens comerciais, novelas, futebol, cerveja, cifras, dígitos, cartões de crédito etc. Os pós-modernistas “querem rir levianamente de tudo” (SANTOS, 1987), e não há nada tão venenoso quanto o riso mal empregado, o riso irrefletido; o riso que se ri por rir (o riso pelo riso, a marca do niilismo no humor!). Que se ria! Ora, nada há de mal nisso. Mas perguntemos antes qual a natureza desse riso. Seria o efeito de um devir-ativo das forças ou de um devir-reativo (pergunta de inspiração nietzscheana)? Que digam “vejam, ele quer acabar com o humor”, sei bem que estarão todos errados. Como poderia eu acabar com algo que já foi acabado? A pós-modernidade já fez o trabalho! Será que não percebem? Ai! Esses pós-modernistas, sempre desatentos. Nem imaginam que estão a pisar em cadáveres!





quinta-feira, 10 de setembro de 2015

quando a imbecilidade impera

A “infelicidade” não é nenhum mal, conforme pensam os ignorantes ilustrados, mas a expressão objetiva da impossibilidade da natureza humana em viver rigidamente sob os moldes do capitalismo. Mais saudável é o indivíduo que fica triste com sua precária condição, e não aquele que sufoca sua tristeza e a “transmuta” para viver “feliz”, mesmo que alienado.
Tampouco viver confortavelmente e ter saúde são garantia de felicidade. Pode-se muito bem ser rico e gozar de plena saúde e não ser uma pessoa feliz. Outro dia li, numa grande Revista, uma reportagem que tratava das diferenças entre um porteiro e  um homem de classe média. O jeito que a reportagem pôs as coisas, principalmente comparando o homem de classe média com o porteiro feliz, parece que o homem de classe média tem a obrigação (?!) de ser feliz, e como não é, dá a entender que o mesmo só pode estar doente.
Isso é outra mistificação, só porque todo mundo busca dinheiro e bens materiais, inferem que isso realmente traz felicidade. Não traz, só traz felicidade mundana, a mesma que temos quando usufruímos pequenos prazeres ou quando nos esquecemos de nós mesmos. Por si só, ter dinheiro ou poder consumir, não traz felicidade pra ninguém.
A “consciência feliz” não precisa mesmo de conteúdo material para se sustentar, pois existe tanta fome de imaginário, como há de comida. Tudo contribui para matar nossa fome de imaginário, desde as religiões, até o futebol, a música ou a “bunda da mulher melancia”.
A “alienação” faz as pessoas felizes. Isso ninguém pode negar.
Se não preenchesse uma necessidade psicológica, porque haveria tanta no mundo? Já a desalienação faz a pessoa mergulhar -pelos menos por algum momento- na consciência infeliz. Ela se sente isolada da sociedade e dos seus valores egoístas. Começa a não ver sentido no modo de vida que lhe impuseram. Não perde mais muito tempo tentando satisfazer desejos pueris. A pessoa, então, fica melancólica, pois não tem pra onde fugir, não consegue encontrar abrigo no seio da sociedade porque a considera decadente, tampouco acha que uma vida de prazeres resolve alguma coisa.
O porteiro só é feliz porque desconhece todas essas coisas, sua felicidade está na ignorância, é a felicidade de todos que estão inseridos no mundo, que se perdem no cotidiano. Ele, na verdade, é a grande vítima, é o bobo alegre, que ri da sua exploração, o homem, que mesmo tendo conforto, é triste, age de acordo com a natureza humana, que não pode se satisfazer plenamente no capitalismo. Tomar Serotonina e Prozac também são formas  de se alienar, pois quem, ao invés de lutar e resolver seus próprios problemas se ampara em muletas químicas, não só busca um método eficiente de não ter que lidar consigo mesmo, como cai no engodo ideológico de que devemos estar sempre -ou pelo menos predominantemente- felizes.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

escola da ponte: modelo de educação

Escola da Ponte modelo de educação moderna e a reinvenção da escola 
Por Alacir Arruda

 
Professor Jose Pacheco  fundador da Escola da Ponte 


Todos sabem que sou um critico ácido da educação hoje praticada no Brasil, pois não tenho a menor dúvida que as escolas brasileiras prestam um desserviço ao que se entende por educação como elemento transformador. Sou adepto da seguinte máxima: “ dentre as várias atribuições do professor no Brasil, a mais inútil é a aula”. A que aula me refiro? A essa aula conteudista, bancária, aquela que já vem pronta e o professor a injeta na cabeça do aluno como se este fosse dividido em compartimentos, essa aula maçante que faz com que 75% dos alunos simplesmente a ignorem, aulas que não traduzem a realidade do educando e sim atende a interesses corporativos e institucionais onde a lógica se justifica no lucro. 

Bom, peço licença para falar de algo sério, algo que transcende as experiências “idiotas” do estado brasileiro. Em Portugal, mais precisamente em Vila das Aves, a cerca de 30 km da cidade do Porto, localiza-se uma curiosa escola: a Escola da Ponte. Para quem nunca ouviu falar, vale um pequeno resumo de sua história. A Escolada Ponte é uma escola pública que sempre recebeu alunos muito “problemáticos”. Com resultados desastrosos, José Pacheco, o diretor, resolve repensá-la e em 1976 inicia-se o processo de autonomia curricular que é a marca da escola (ela é a única no mundo que alcançou este marco). A partir daí, mudanças ditas como impossíveis aconteceram e uma série de fatores levou a Escola da Ponte a se tornar referência, incluindo os resultados alcançados por seus alunos, que estão entre os melhores do país. 

“Meus alunos serem os melhores é um desgosto para mim”, afirma José Pacheco, ou simplesmente Zé da Ponte, como é conhecido. “Com uns sendo os melhores, outros têm de ser os piores. Todos deveriam ser os melhores.”

Um homem altamente cordial, Zé Pacheco faz uso de pensamentos de muitos teóricos e afirma que no Brasil ele encontrou os melhores. Tal fato o incentivou a morar aqui, pois, para ele, os professores brasileiros são os mais preocupados em mudar a situação pela qual passa a Educação. Atualmente, vive em Belo Horizonte, Minas Gerais, e acha necessário seu afastamento da Escola da Ponte depois de 35 anos envolvido com ela. “Ela pode seguir seus passos sem mim.” O projeto educacional da Escola da Ponte está sendo trazido para o Rio de Janeiro, mas ele ainda não pode revelar o nome de seus novos parceiros. 

Zé Pacheco, falando sobre suas histórias, que se entrelaçam com as da escola que ajudou a construir, costuma referir-se a ela como “minha escolinha” e quando os alunos são mencionados, muitas vezes figuram como “os miúdos”. Esse carinho não é por acaso. Zé defende o professor como um trabalhador solidário e não solitário e prega uma cultura de cooperação entre todos que fazem parte da escola. 

Educação estrábica
Perguntado sobre como ele vê a educação, Zé responde de maneira extremamente bem-humorada. “Eu a vejo de modo estrábico, como já devem ter percebido.” Ele possui um grau de estrabismo bem acentuado. Deixando as brincadeiras de lado, ele trata da Educação com muita seriedade e utiliza frases bem fortes para descrevê-la. “Nós existimos com os outros e tudo está focado na relação. A educação não se encontra somente dentro da escola.” Essa relação envolve desde os auxiliares da escola até as famílias dos alunos, que são grandes incentivadores da metodologia proposta pela escola. O educador acredita que esta parceria garante a sobrevivência da escola perante a “caça” que a Ponte sofre por parte do estado português: “Não conseguirão de jeito algum fechar aquela praga!”

A idéia de renovar a educação veio de modo simples, diz Pacheco. “Tudo começou com perguntas. Trabalhamos com a ideologia mesmo. Para começar uma mudança, é preciso apenas um pequeno grupo e o que estava errado era o modo de ensinar e não o de aprender.” Ele ainda diz que as escolas de hoje (muito iguais às de 200 anos atrás) constroem o sentimento de competição e concorrência. No fim, ele questiona se esse é o verdadeiro progresso. 

A Escola da Ponte está diretamente ligada à pedagogia libertária, que segue a tendência da educação como transformadora e criadora da autonomia. Lá, o mais importante é o que vem do aluno, algo que tem a ver com a autoformação através da politécnica da aprendizagem, sistema por ele defendido. 

Para se entender um pouco melhor a Escola da Ponte, é necessário perguntar-se não o que ela tem, mas sim o contrário: ela não tem diretor, aulas, horários, séries, grupos etários, presença de ponto, provas, notas, enfim, comparando-a com a escola tradicional, ela possui praticamente só o mesmo espaço físico em comum. Sobre essas “ausências”, Pacheco diz que com um tempo as pessoas conseguem entender as propostas ali defendidas (e é assim que o trabalho consegue ser efetivado) e alerta que precisou dar muita, mas muita aula para ver que aula não presta para coisa alguma. Ratificando sua opinião, ele responde que a única coisa a ser feita para deixar a sala de aula mais interessante é implodi-la. 

Muitos questionamentos surgem depois de todas essas informações: “Como são as ‘aulas’ lá?” “O que faz o professor?” “Quem comanda tudo isso?”. Resumidamente, é tudo muito simples. Todo mundo faz tudo, juntos. Os alunos vão às ‘aulas’ (que são uma espécie de oficina) que querem e ficam o tempo que querem. Se acharem por bem, voltam depois, ou não. Os professores apresentam essas oficinas (muitas vezes, propostas pelos próprios alunos) e sua função é mais de indagar do que esclarecer. Quando questionado sobre algo, ele sempre procura a resposta no aluno – ao invés de responder diretamente, ele indaga sobre a opinião do aluno e o porquê dela. Quanto ao comando, todos participam efetivamente. Todos os professores são diretores (querendo ou não!) e os alunos fazem assembléias constantes para definirem os direitos e deveres de cada um dentro da escola, o que permanece e o que precisa mudar. 

Nenhum prazer
Pensando de maneira simples, como gosta de fazer o Zé da Ponte, as escolas de hoje são lugares onde nem o aluno nem o professor sentem nenhum prazer de estar, logo, é óbvio que algo não anda muito certo. A Escola da Ponte tenta e consegue acabar com isso. Não é um mero reparo na escola, mas sim a sua reinvenção. 

Zé Pacheco, por fim, afirma que, hoje, a escola em sua forma tradicional é um mal necessário e diz que num lugar onde há hierarquia é impossível a existência de uma autonomia. Diz também que nem só de vitórias vive a Escola da Ponte e ele próprio está para lançar um livro falando do lado negativo da escola. Zé não acredita em modelos, mas sim em exemplos que podem dar certo, como é o caso da Ponte. “Não consumimos, produzimos currículos.”

Com uma humildade ímpar, José Pacheco divide o mérito com todos e se diz mais um no processo de formação da Escola da Ponte. Ressalta ainda que tudo que a Ponte fez já tinha sido dito e tentado por outros teóricos que muitas vezes não são minimamente conhecidos e, sendo assim, não são lembrados por tal triunfo. “Não foi nenhuma invenção minha. Isso tudo já foi pensado no começo do século passado.” Exatamente por esse motivo, ele exclama: “Eu sou muitos. Eu sou ‘nós’!”

Para muitos que pensam ser impossível tudo isso que foi aqui apresentado, que isso não passa de uma mera utopia, vale lembrar que utópico é algo ideal, mas ao mesmo tempo irreal, imaginário. A Escola da Ponte existe e quem dera se existissem outras com o mesmo propósito!


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

o Enem e o embuste das escolas privadas

ESCOLAS FICTÍCIAS: ALUNOS REAIS

Por Alacir Arruda

Alguns podem até achar que pego muito no pé das escolas privadas do Brasil, mas falo com propriedade são 21 anos de sala de aula,  sendo 18 somente em escolas  privadas de renome nacional. Portanto, eu sempre soube das “falcatruas” realizadas por essas instituições para melhorarem seus índices no ENEM, os grandes grupos que trabalhei em SP já faziam isso em 2010, mas a “cara de pau” dessas escolas superou até o mais otimista dos críticos. 

O Resultado por escola do ENEM 2014 revela que aumentou a prática, entre as escolas particulares, de separar os alunos em unidades e/ou CNPJ’s diferentes para parecerem ser melhores do que realmente são.

Das 10 escolas com maior média no ENEM 2014, 8 delas são escolas de muitos alunos, só que a que aparece nos primeiros lugares do ENEM é uma escola com menos de 60 ou menos de 30 alunos. As escolas maiores, de mesmo nome, na mesma cidade ou até no mesmo endereço, também aparecem no resultado. Porém, se ranqueadas, estão em posições muito distantes das primeiras colocadas e com resultados, em geral, muito ruins se comparados aos das primeiras colocações.

A prática de ‘inventar’ escolas, para aparecer entre as primeiras colocadas no ENEM, é feita por motivos publicitários. O objetivo é usar essa informação nas suas propagandas para que consigam captar mais alunos ou, em alguns casos, para que vendam com mais facilidade seus materiais didáticos.

Algumas dessas escolas nunca participaram do ENEM. Explico: foram criadas há poucos anos, somente para aparecer entre as primeiras colocadas. A metodologia utilizada por essas oito escolas é padrão: com centenas e centenas de alunos, elas escolhem os que mais pontuam em simulados internos e os transferem para a escola ou o CNPJ escolhido para servir como instrumento de publicidade.

Também utilizam de sistemas de captação de alunos com alta performance em simulados e que estão matriculados em outras escolas, inclusive de outras cidades. Boa parte desses alunos, captados durante o ensino médio, são bolsistas parciais ou integrais destas escolas. Não pagam, ou pagam muito menos do que os outros, não necessariamente pelo mérito de acertar mais questões, ou por necessidade socioeconômica, mas pelo simples motivo de que são ‘usados’ para os interesses financeiros destas instituições. Algum interesse pedagógico? Não, nenhum.

Os alunos, que vieram desse modelo de captação, não foram formados por essas escolas durante todo o percurso escolar. Ficam pouco tempo nelas, geralmente somente os últimos anos do ensino médio ou somente durante o ensino médio.

Quando fazem propaganda de estar nos primeiros lugares no ENEM, tais instituições passam a impressão de que qualquer pai pode procurá-los e conseguir matricular seus filhos. Não é o que acontece. Se hoje um pai procurar essa escola, terá seu filho encaminhado para as unidades em que os alunos pontuam bem menos dos que aqueles que foram ‘usados’ para a publicidade da escola.

Novamente, no resultado do Exame de 2014, o primeiro colocado nacional é o Colégio Integrado Objetivo, de São Paulo, que funciona no mesmo endereço do Colégio Objetivo, na Avenida Paulista. No ano anterior a escola ocupava, ao mesmo tempo, o lugar 1 e o lugar 569 da lista, depois de ranqueadas todas as escolas do Brasil que tiveram mais de 10 alunos do terceiro ano prestando o ENEM.(http://educacao.estadao.com.br/blogs/mateus-prado/campea-do-enem-e-ao-mesmo-tempo-a-escola-1-e-a-escola-569-do-brasil/).

Um destaque do ano é a cidade de Fortaleza. Três escolas da cidade apareceram, em 2014, entre as 10 primeiras colocadas do ENEM. Duas delas já separavam alunos, o que já estava indicado nos dados dos anos anteriores, e uma passou a separar há pouco tempo, aparecendo pela primeira vez entre as primeiras. As escolas de Fortaleza parecem ter ‘aprimorado’ as suas formas de selecionar alunos para aparecer entre as primeiras colocadas, e passaram a ser as primeiras do Nordeste, resultado que tradicionalmente era do Dom Barreto, de Teresina.

Os dados de Fortaleza refletem a situação do mercado local, onde três escolas, todas muito grandes, disputam de forma bastante agressiva o mercado de alunos de alta renda. Duas delas possuem Sistema de Ensino que vendem para outras escolas, principalmente do Norte e Nordeste, e que receberam grandes aportes financeiros nos últimos anos.

Outro destaque são duas escolas, uma do Rio de Janeiro e outra de Minas Gerais, que pertencem ao mesmo fundo investidor e à mesma empresa (Fundo Gera, empresa ELEVA). Há dois anos, essas duas escolas eram desconhecidas nacionalmente. No ano de 2013 a escola do Rio de Janeiro, pertencente a este grupo, chegou a ocupar (ao mesmo tempo) o lugar 3 e o lugar 2015 entre as escolas que tiveram mais de 10 alunos do terceiro ano fazendo a avaliação. O controlador do grupo Gera é o megainvestidor Jorge Paulo Lemann. Além de um dos homens mais ricos do Brasil, Lemann é conhecido por ser assíduo doador de dinheiro para projetos educacionais (através da Fundação Lemann).

Em Goiás também há uma escola que, para aparecer entre as primeiras colocadas, matricula os alunos que costumam ter maior rendimento em simulados na sua unidade de ensino fundamental (os demais ficam na unidade do ensino médio).

As duas que aparecem entre as dez primeiras e não utilizam esse padrão (de ‘inventar escolas’) são do estado de Minas Gerais. As duas possuem alunos oriundos de famílias de alta renda (quando cruzamos os dados de todas as provas do ENEM, até hoje, renda é a principal influência nas notas da avaliação. Em média, alunos de maior renda conseguem notas superiores aos alunos de menor renda). Não é demais citar o colunista Hélio Schwartsman: “quando uma escola aumenta sua mensalidade, ela aumenta sua nota no ENEM” (2014, adaptado). 

Ou seja, o resultado divulgado pelo INEP das melhores escolas do Brasil no ENEM não é critério  para que país venham colocar seus filhos  nesses estabelecimentos, ao contrario isso apenas vem confirmar o seu despreparo no trato com a educação. E no futuro  quando alguém lhe perguntar se educação enriquece: Responda. Sim!  "pergunte aos donos de escola"