domingo, 24 de fevereiro de 2019

ENEM 2019- VIOLÊNCIA: OS MENINOS E OS LOBOS:

SOBRE MENINOS E LOBO: O RETRATO DE  UMA SOCIEDADE LETAL.


Por: Alacir arruda

No Filme “Sobre Meninos e Lobo” (2003) , do Diretor Clint Eastwood, reside um importante comentário sobre a presença da violência juvenil na sociedade estadunidense que ele considera um vírus irreparável. É evidente que não vou contar aqui o filme (assistam), mas o drama é circunscrito a um grupo de pessoas cuja violência, de uma forma ou outra,  está presente em seus cotidianos. Como por exemplo, Jimmy (Sean Penn), um ex-criminoso que após cumprir alguns anos de prisão, tenta levar uma vida pacata alicerçada na dedicação à filha Katie (Emmy Rossum), mas que é impelido pelo assassinato brutal da garota, a retornar as ações do passado. Jimmy parece, assim, condenado a ser violento. 

Voltemos ao Brasil. Fiz essa introdução, usando um filme americano como exemplo, porque considero a nossa realidade muito semelhante a deles. Somos um dos lideres mundiais no numero de assassinado de jovens,  e  apenas 15% deles estão na universidade. Para se ter uma ideia, na Coreia do Sul 98% dos jovens estão matriculados em cursos superiores.  Toda a minha carreira como educador foi lidando com jovens ( ensino médio e universitário),  e uma cosia me chamava a atenção: como eles possuíam baixa auto estima, alguns  não sabiam o que fazer de sua vida, estavam, absolutamente, perdidos. Se imaginarmos eles como os futuros gestores dessa nação,  tamo fud...

Mas o que leva a tanto desalento? Por que eles são agressivos? Não e novidade para ninguém a velha máxima: "violência gera violência". Um, pais que lhe agride desde a maternidade, passando por uma escola pública alienante  e governantes corruptos,  não poderia apresentar dados diferentes destes. Nunca houve por parte dos nossos  governantes, politicas públicas voltadas aos  jovens. Somos o país dos "puxadinhos",  por exemplo:   Fies - que o aluno depois se fod.. para pagar. ProUni, que não consegue atender 5%  dos jovens aptos  à vida acadêmica entre outros fingimentos. A grande  verdade é que um numero  significativo  dos nossos jovens  - uma vez esquecidos pelo poder público - são cooptados pelo tráfico de drogas, facções criminosas ou se encantam na internet por grupos neonazistas. Nessas milícias,   alguns deles encontram uma razão de aqui estarem, um meio de vida. Infelizmente  poucos sobrevivem para  contar aos filhos suas memórias. Estamos perdendo mais uma geração e o governo se omite, em discussões vazias e teorias medievais.

Usando a  sociologia como referencial teórico,  vamos entender o conceito "violência"  à luz da ciência. 

Violência e sociedade tem sido objeto de estudos de diversas ciências, as quais cada uma a seu modo, tentam apresentar argumentos convincentes que justifiquem suas origens, causas das problemáticas diversas apresentadas e respostas às indagações surgidas no cotidiano. Por que a sociedade está cada dia mais violenta? Por que e como a violência está destruindo a sociedade? Quem produz a violência? O que de fato é violência? Ou ainda, o que é uma sociedade do ponto de vista daquilo que aprendemos que era ou que deveria vir a ser?

Por mais que a vida em sociedade seja gerida pelo estabelecimento de regras jurídicas, valores morais, limitação da vontade pessoal em detrimento da convivência harmônica coletiva e ainda pela égide da ordem social para alcançar-se o progresso, o ser humano, sempre e através de suas ações eventuais ou reiteradas, irá produzir atos que possam ser tipificados como violência. Tanto o estudo da origem da formação das sociedades, quanto a natureza dos processos de violências nelas existentes, ambos possuem relação direta com a forma como o ser humano exerce, desempenha e age, ações estas que trazem reflexos diretos na vida e na forma da coletividade.

A primeira reflexão a ser exercida é como o ser humano se encontra em relação ao seu papel na criação e manutenção da vida em sociedade. Considerando de forma bem simplista, de que a sociedade é basicamente o ajuntamento de pessoas cujos objetivos em tese são os mesmos: sobreviver e prosperar (no sentido de viver bem e em paz), ela parte então do sentido primário e minúsculo de comunidade, onde há (ou devia haver minimamente) um entendimento compartilhado ao qual o homem adere tacitamente, como bem leciona (BAUMAN, 2003).

Partindo do pressuposto que o ser humano, nasce, cresce e se reproduz na sociedade e nela deve buscar seu progresso como pessoa humana e produzir durante toda a sua vida de forma incessante ações positivas para que a mesma se mantenha e evolua; por que então a prática dos atos de violência? Como pode alguém se revestir e operar um papel de destruidor do habitat e da comunidade da qual ele mesmo faz parte? Há um papel primordial que está deixando de ser representado (exercício da razão), e estes atores (omissos ou ameaçadores da ordem) estão abalando os alicerces da vida coletiva, comprometendo as perspectivas de melhoria e fomentando a cultura da vida individual como a mais ideal e segura (pois conviver em coletividade já não é mais seguro e atrativo), um verdadeiro retrocesso que poderíamos popularmente definir como o retorno às cavernas.

Analisar os processos de violência na sociedade passa por um olhar multidisciplinar sobre o que está acontecendo como o ser humano (principalmente as crianças e adolescentes) onde os conceitos de regras, valores, ordem, progresso, segurança e paz social não possuem mais tanta necessidade de existirem.

A segunda reflexão, consequência da primeira, nos conduz aos atos e fatos que estão desintegrando a vida em coletividade, onde a insegurança social é uma delas. Ações simples como estacionar o carro e namorar (mesmo em frente de casa), andar de bicicleta, usar um tênis ou relógio de marca, esperar um ônibus no ponto à noite, andar pelas ruas, deixar as portas e janelas abertas para se refrescar a casa em dia de calor, utilizar um caixa eletrônico, atender ao celular na via pública, realizar uma compra pela internet com cartão de crédito ou outras, passam a ser revestidas de metodologias e truques especialmente desenvolvidos para que a pessoa não seja roubada, furtada, sequestrada ou até morta. E falando em morte, a vida tornou-se tão banal que para tira-la, o agressor além de subtrair bens pessoais, vale-se de requintes de crueldades indescritíveis antes de matar. O homem tornou-se fera, lobo de seu semelhante, como bem afirmava Hobbes (homo homini lúpus) “o homem e o lobo do próprio homem”

Novamente vemos o homem afastando-se de seu papel de construtor coletivo e portador do ato racional, agindo exclusivamente no interesse próprio e ameaçando a vida e o patrimônio de seu semelhante, alimentando a desintegração do modelo consagrado de sociedade e fortalecendo posturas pautadas no enclausuramento (grades, alarmes, blindados, armas, câmeras e controles diversos). A sociedade passa a ser ameaçada em sua única forma de existir: o ajuntamento coletivo, o formato plural, o relacionamento humano, o respeito entre os seres, o edificar para o bem comum ou ainda, o espaço seguro para todos.

Finalmente, a terceira reflexão nos posta diante do quadro inegável, de que a cada dia a sociedade se desintegra, pois as suas moléculas, as quais devidamente fundidas (homem + homem + regras respeitadas por todos), as quais poderiam construir o elemento chave (vida em coletividade) estão se modificando. A triste constatação é que não há outra forma ou elementos que possam ser substituídos, para que a fórmula final (a sociedade) se complete e passe a existir. Assim como não se faz uma molécula de água sem a junção do hidrogênio com o oxigênio, não se constrói sociedade alguma sem que haja um comportamento humano pautado na tolerância, compreensão, mediação de conflitos e pacificação. Não haverá sociedade sem regras as quais sejam respeitadas, cumpridas e zeladas por todos.

Não deixará de existir a violência (em qualquer uma de suas múltiplas formas) se a pessoa humana não for suficientemente tolerante, compreensiva, seguidora de valores e princípios construídos para o bem comum. A violência na sociedade, podemos divagar, possui seu DNA na degradação moral do ser humano, na perda da racionalidade, no desprezar do valor personalíssimo do semelhante e principalmente no se apropriar da errada visão de que o outro, sua cultura, valores, patrimônio e até a sua vida podem ser destruídos ou arrebatados mesmo que isso importe na quebra da sobrevivência harmônica coletiva.

É certo que não há sociedade sem violência, seria uma utopia. O desenvolvimento e o progresso geram sim desigualdades, exclusões, fome, miséria e degradação de partes do coletivo social. O equilíbrio ou o desequilíbrio, não importa qual, não podem permitir que fatores transversais (e a violência é um deles) intranquilizem e ponham fim à fórmula da sociedade (homem + homem = vida coletiva, diferenças, respeito, harmonia e evolução). O oposto seria  (homem - homem = Brasil) . Neste Brasil, tal qual o filme:  "estamos condenados à violência"


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