sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Temer não cai

TEMER: O QUE HÁ POR TRÁS DE SUA FORÇA?

Por Alacir Arruda

Acredito que muitos brasileiros, diante de toda a repercussão na mídia, se perguntam: "por que o Temer não cai?" Quando Dilma Rousseff sofreu o Impeachment, em um curto espaço de tempo, os motivos alegados foram as “pedaladas fiscais”, artifício usado antes por Lula e FHC, sem falar nos governos dos Estados.  Embora Dilma tivesse uma impopularidade abissal,  e defendi  na época o impeachment dela,  o fato é que ela não havia sido indiciada em nenhum crime de corrupção ou caixa dois até aquele momento. Michel Temer, ao contrário, foi flagrado em escuta, seu intermediário filmado correndo com malas de propinas pelas ruas de São Paulo e ainda é  acusado pelo MPF do crime de obstrução à justiça. Nem Fernando Collor, odiado, tinha tantas evidências contra ele na época do Fora Collor. Temer tem, e ainda está lá. Se por muito menos Dilma e Collor caíram, por que não Temer? Afinal, acredito que "pau que dá em chico, precisa dar também em Francisco"

A grande verdade é que o impeachment de Dilma foi articulado pelo PMDB, PSDB e outros partidos aliados, com a ajuda de grandes grupos econômicos a quem interessam reformas, principalmente a trabalhista que visa diminuir seus custos de mão de obra (e a renda e os direitos dos trabalhadores). Claro, a propaganda é a de que tal reforma, em particular, trará mais empregos. Eu duvido! Duvido porque a nossa atividade econômica está se recuperando de forma muito lenta e assentada ainda na produção agropecuária. Esta, por sua vez, substitui mão de obra em grande velocidade. A indústria faz o mesmo e, ainda que haja algum aumento de emprego, eu duvido que isso se traduza em grande recuperação econômica, porque com baixos salários temos baixo consumo.

Mas, voltemos ao ponto. PMDB, PSDB, outros partidos e empresários “surfaram” nas notícias de corrupção na Petrobrás. Usaram a indignação popular para criar o clima para o impeachment, com uma ajudinha de movimentos como o MBL e da FIESP, que pagou os patos na Av. Paulista. A indignação popular foi catalisada com o discurso de ética e retidão dos que assumiram o governo. Deu tudo certo até há pouco. Dilma caiu, Temer assumiu e o PSDB junto. As reformas começaram a ser analisadas e votadas. Mas… mas Temer agora foi flagrado. E pior, junto com ele, Aécio Neves, em gravações piores do que todas apresentadas contra Dilma e Lula. Que fique claro, eu estou não  defendendo Dilma e Lula,alias,acho que deveram estar presos pelos desmandos, mas a verdade precisa ser dita, o impeachment foi um grande negocio para PMDB e PSDB  que lotearam o governo.

Se as instituições como MBL e FIESP, bem como o PSDB e outros realmente quiserem o fim da corrupção e a ética na política, Temer já deveria ter caído. Aécio deveria ter sido expulso e preso, bem como Temer. Mas não, nada aconteceu. Alckmin recebeu Temer em São Paulo, os ministros do PSDB  dizem que o partido não sairá do governo, mesmo com uma forte corrente dentro do partido pensando ao contrario. Pior, a comissão de ética do senado, que deverá analisar casos como o de Aécio, conta com indiciados nas investigações, como Romero Jucá. Tudo é mais escandaloso, ofensivo e um verdadeiro escarro no rosto da população. Mas o fato é que quem articulou a saída de Dilma tem um sério problema. Quem assume  se Temer sair agora?

É por isso que Temer não caiu. Se Aécio ainda fosse o queridinho de metade dos eleitores, Temer estaria fora e Aécio seria provavelmente o candidato. Mas não é. E o PSDB não se entende internamente sobre quem será o candidato e não se entende com o PMDB, muito menos com os demais partidos. A oposição é fraca e muito dela pensa na reeleição de Lula, o que apavora muitos. Marina não tem força e a bancada oposicionista não tem ninguém, nem simbólico a apresentar em uma eleição indireta.

Os empresários temem que o novo escolhido pelo Congresso seja incapaz de retomar as reformas. O PSDB teme perder espaço no governo que ajudou a criar. O PMDB teme tudo, inclusive a prisão de muitos de seus quadros. E então, tudo fica parado. E ficará até que os caciques políticos e econômicos decidam por um nome. Um nome de consenso deles, que possa ser apresentado à população e devidamente incensado pela mídia como a melhor opção.

E nós? Bem, nós assistimos. Não existimos.

Porém, o que mais me incomoda é que todo o processo de criação do governo Temer, se deu pelo discurso da moralidade. E agora, fica claro que a moralidade é relativa. Depende de quem está sendo investigado, e não porque está sendo investigado ou julgado. A moralidade depende de quem está disputando o poder e não do fato de ser um valor ético uma necessidade em si. Sendo direto e informal, a moralidade e a ética que se danem, o que importa, a eles é o poder.

Da mesma maneira em que acusei antes o PT - podem ver meus artigos de 2014, 2015 - de ser responsável pela crise econômica que levou a queda de Dilma, já que eles nunca deveriam ter feito as alianças que fizeram e, com certeza, devem ter se beneficiado de esquemas de corrupção, de caixa dois, agora eu acuso o PSDB de manter a crise. Acuso de ser farisaico, hipócrita e comprometido só com seu próprio poder, não com o país e, muito menos, como o povo. 

Temer se diz convicto de sua inocência, talvez ele devesse ler Nietzsche que dizia: "as convicções são as inimigas mais perigosas da verdade do que das mentiras"

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terça-feira, 3 de outubro de 2017

Niettzsche: o anticristo

NIETZSCHE E A FILOSOFIA DA RESIGNAÇÃO: O ANTICRISTO.

Por Alacir Arruda


Quando ministrava filosofia nas várias universidades que trabalhei, um dos momentos mais tensos do semestre era quando chegava a hora de ensinar Nietzsche , seja pela falta de conhecimento dos alunos sobre esse autor, seja pela ignorância de alguns ( vários deixavam a sala de aula) , Nietzsche sempre causava. E para você, que vai ler esse texto,  eu deixo uma alerta: "Nietzsche não é para qualquer um", sobretudo se você é desses que acreditam na metafisica do corpo, existência de outros mundos etc, como pregam determinadas religiões. Para esse pensador alemão tudo isso, em verdade, faz parte de uma grande sistemática opressora criada pelas religiões que ele denomina: "moral dos fracos", ou de rebanho. Para Nietzsche isso acabou por contaminar o homem ocidental retirando dele sua essência. 

Nietzsche faz uma análise do Cristianismo e compreende a fé como uma maldição do homem , a religião particularmente, o cristianismo, não ajuda ao desenvolvimento humano. Portanto, para Nietzsche Deus é o grande mal ao processo civilizatório, pois mecanizado no cristianismo leva a destruição da humanidade, favorecendo ao comportamento de fraquezas.

A maldição da fé se efetiva subjugando o homem, a uma situação de inferioridade cultural, leva ao homem assimilar suas derrotas como virtudes transformando em uma realidade benéfica imaginária. Com efeito, irreal do ponto de vista praxiológica, acreditar em Deus é optar pelo atraso, a destruição do processo civilizatório.O homo sapiens precisa libertar de Deus para poder atingir sua maior idade, a fé nega o que há de melhor na vida a liberdade, o prazer como fonte da felicidade. 

Isso tudo Nietzsche deixou registrado em uma das suas maiores obras:"O Anticristo" (em alemão: Der Antichrist), escrito em 1888 e publicado em 1895 e considerado pela critica internacional como uma obra prima. No entanto, ao ler o título do livro muita gente pensa, que Nietzsche deseja destruir Jesus Cristo. No entanto, não é o seu objetivo, pelo contrário, o cristianismo nunca assumiu o que realmente Cristo pregava. 

Entretanto o cristianismo assumiu uma concepção helênica mitológica da fé, um platonismo mistificado, a negação desse mundo, é muito mais uma concepção filosófica de Platão que do Cristo crucificado. Para Nietzsche é necessário destruir o helenismo platônico, a filosofia da resignação, não tem sentido abandonar esse mundo, como realidade material fútil como pensara Platão, em razão do verdadeiro mundo, que para o cristão seria o paraíso.

Segundo Nietzsche não existe outro mundo, a não ser o mundo do planeta terra, imaginar outro mundo é simplesmente  uma loucura da cultura grega pagã. Motivo pelo qual o cristianismo é a representação da tragédia humana. Nietzsche refere a outras religiões, como sendo superiores ao cristianismo, no entanto, sabemos que tal análise não é verdadeira. O filósofo está essencialmente preocupado em ironizar o cristianismo como algo incomparavelmente ruim, uma tragédia, que prejudica o desenvolvimento da humanidade.

Para Nietzsche, o cristianismo não ajuda desenvolver a sociedade. Ele não deseja destruir o cristianismo por ser ateu, ao atacar a natureza do cristianismo a sua preocupação é destruir algo cuja essência, visa tão somente prejudicar a humanidade.  Nietzsche entende o cristianismo como uma doença psicológica, identificada em sua análise o conceito do bem e do mal e reflete tais conceitos no cristianismo, como a perversão da humanidade. Deus no cristianismo não tem função útil ao mundo ocidental.

Nietzsche alerta que é  necessário o  ocidente tomar consciência, não deixe a tragédia dominar a sociedade, pois a fé trava qualquer desenvolvimento político e econômico, e, sobretudo, impossibilita ao homem de atingir a própria superioridade.

E prossegue questionando  qual a finalidade da religião, expor eternamente a humanidade ao atraso, seu permanente fracasso, com a fé não se constrói uma civilização. Motivo pelo qual chama o cristianismo como doença social e psicológica. Em defesa do homem é necessário, exterminar com a fé. Ele deixa claro, fala com objetividade a crença em Deus é tão somente produto de Loucura. Deus não existe, acreditar em sua existência, não é apenas alienação, entretanto, o mais absoluto delírio.

Portanto, Nietzsche declara, o cristianismo é uma mentira inventada, não existe Deus, muito menos paraíso ou inferno, a única coisa que existe é a vida real no mundo, prejudicada nas relações sociais e políticas. Com efeito, declara Nietzsche, a mentira é a grande maldição, não poderia ter existido algo pior para humanidade que a invenção do cristianismo.

Desse modo, Nietzsche grita em bom grado, precisa ser extirpado a maldição, libertar a interioridade da humanidade, eliminar o instinto da vingança no plano ideológico, a perda da vida real como compensação ideológica de outro mundo, substanciado no delírio. A crença em Deus, a eterna mancha da humanidade, contra si mesma, então Nietzsche deixa claro, necessário negar o cristianismo e superar o paganismo platônico.

O grande problema da humanidade, o cristianismo intrometeu em tudo, transformando o homem em fraco, medíocre, incapaz de transformar a si mesmo, e, desse modo, à sociedade política. Recusa o atendimento aos instintos saudáveis, para viver a vida doente como compensação, a fé levou ao homem a ser corrompido pelo entendimento incorreto das coisas. O cristão é cego, vive a vida como realidade transviada.

Culturalmente inferior, uma vida sem valoração, sem procedimento ético, padrões comportamentais transviados, a espécie sapiens não tem futuro com o cristianismo, na história civilizatória. No entanto, o Nietzsche que ataca o cristianismo, preserva Cristo, sendo que a religião utilizou apenas sua nominalidade e não a sua exegese praxiológica.

Nietzsche achava Jesus Cristo um espírito livre e avançado, que superou a pequenez da humanidade. Com efeito, o cristianismo fundado em seu nome, usou sua nominalidade, ainda equivocadamente, pois seu nome real, nunca fora Jesus Cristo, no entanto Joshua de Abar.  A partir desse empoderamento,  usando o  nome de cristo,  a religião conseguiu seu objetivo, alienar milhares de pessoas mundo afora com promessas insanas .

O objetivo desse texto não é enfraquecer sua fé ou colocar sua crença em check,  mas sim, ampliar seu horizonte frente a um dos maiores pensadores que já surgiu.  A Obra de Nietzsche é imensa, não  circunscrita apenas a esse livro, portanto, procure estudá-lo antes de formar um juízo de valor. Concordar ou discordar com Nietzsche  são prerrogativas pessoais, o que não podemos é  sermos  indiferentes a ele. Nietzsche é o autor em filosofia que mais vende no mundo e  influenciou a psicologia, a história,  a física quântica, a antropologia a medicina e até a matemática. Tem admiradores e seguidores do kilate de: Albert Einstein, Sigmund Freud, Sartre, Foucault, Hannan Arendt entre outros grandes da história. Até o Papa Paulo VI certa vez disse que Nietzsche  era seu autor predileto.


PS:  Vou deixar um link  abaixo  para  que aqueles que se interessarem possam baixar o livro "O Anticristo"  em PDF. Faça isso antes de criticar..

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ph000245.pdf   


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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Projeto de Poder

TROCARAM O "PROJETO BRASIL" POR UM PROJETO DE PODER. 

Por Alacir Arruda

Acredito que muitos brasileiros, assim como eu, constantemente se perguntam: "onde foi que erramos?" O que aconteceu com o nosso país que o levou a esse total descalabro politico, econômico e social? Onde estão as gêneses dessas incongruências? Ora, se tivéssemos a resposta com certeza estaríamos ricos. A desgraça de um país não ocorre do dia para noite, salvo nas catástrofes naturais, mas sim , é resultado de um processo histórico que envolve vários atores. Todos os países que hoje se encontram mergulhados em crises internas, sejam elas, econômicas, politicas ou sociais, possuem um passado que os condenam. 

Vejam o  caso da Venezuela, que durante muitos anos esteve nas mãos de um mentecapto chamado Hugo Chaves,  e após sua morte o poder passou para seu discípulo, o não menos doente, Nícolas Maduro. Quanto a  nossa vizinha Argentina, que há anos vive um desiquilíbrio econômico e social, por décadas foi governada por populistas como Juan Peróns  décadas de 40 e 50 do século passado, sofreu golpe militar em 1974, esteve  nas mãos do incompetente Carlos Menem na década de 90 e sofreu a ditadura dos Kirchner, marido e esposa mais recentemente. Enfim, hoje a Argentina, que já foi a segunda nação mais rica do mundo na década de 20 do seculo passado,  tenta se recuperar de anos de desmandos políticos,  sendo o único caso na historia mundial de um país que era rico e ficou pobre.

No Brasil a historia não e diferente, Getúlio Vargas ,  um "canalha" que governou esse país por quinze anos direto (1930-1945) depois mais quatro (1951-1954) totalizando 19 anos,  instituiu, nas terras  tupiniquins, a  politica do "assistencialismo barato," convencendo a grande massa brasileira de que o Estado é nosso "paizão";  Getúlio é o criador do "Estado Vaca Leiteira", onde , até hoje, todos buscam uma teta para mamar.  Passados mais de 60 anos de seu suicídio (24-08-1954),  CHEGOU a fatura om juros e correção monetária:  juros são:  PMDB, PSDB, PR,PPS, DEM,PDT, etc.. E a correção monetária; Aa  Dilma e Lula. 

Ainda sobre o Brasil, acredito que os partidos da chamada  "social democracia",  que nos dirigem há mais de três décadas, devem explicar nossa degeneração política e o medíocre desempenho econômico”. Eu acrescento: “a persistência da pobreza e da desigualdade, a desagregação social, a violência generalizada, o desencanto dos jovens com a política e a tolerância com a corrupção”.

Uma explicação: não nos sintonizamos com o “espírito do tempo”, perdemos o vigor transformador. Enquanto a realidade se transformava, continuamos com as ideias do passado. Não entendemos que hoje a divisão entre presente e futuro é mais importante que entre capitalistas e trabalhadores; nem que estes se dividiram entre modernos, com bons padrões de consumo, e tradicionais pobres e excluídos, com um “mediterrâneo invisível” separando-os. Tampouco aceitamos que os sindicatos representam o setor moderno. Preferimos defender direitos dos servidores estatais à qualidade dos serviços públicos; ignoramos que estatal não é sinônimo de público, sob falso conceito de igualdade, abandonamos o reconhecimento ao mérito de alguns profissionais.

Optando pela disputa entre corporações, de capitalistas ou de trabalhadores, governamos sem buscar coesão social e rumo histórico. Substituímos propostas de um mundo melhor para as futuras gerações, por promessas de maior consumo no presente; criamos consumidores, não cidadãos. Caímos no oportunismo eleitoral ao prometer que todos atravessariam o “mediterrâneo invisível” apenas com “bolsas” e “cotas” para pobres e isenções fiscais para empresários. Não percebemos que o esgotamento dos recursos fiscais e naturais exige austeridade nos gastos e eficiência na gestão. Aceitamos a irresponsabilidade populista sem ver os riscos de induzir soluções inflacionárias e autoritárias no futuro.

Não entendemos que a justiça social vem da aplicação correta e responsável dos resultados de economia eficiente; que no mundo global não há mais futuro para economias movidas por nacionalismos isolados; nem reconhecemos que o capital do século XXI está no conhecimento para inovar e usar as novas máquinas inteligentes. Faltou a compreensão de que a eficiência e a justiça não virão da ocupação do Estado para subordinar as economias sob controle dos partidos, mas da educação para todos, filhos de pobres e de ricos em escolas com a mesma qualidade. Não acreditamos que a igualdade educacional com qualidade teria sido nossa nova bandeira.

No lugar de gigante deitado em berço esplêndido, deixamos um Brasil amarrado em laços corporativos e antiquados. Nossos intelectuais ficaram acomodados em ideias antigas, filiações partidárias, fascínio por líderes. Substituímos ideias por slogans, filósofos por marqueteiros. Caímos em narrativas falsas e passamos a acreditar nas próprias mentiras. Prisioneiros de siglas partidárias sem ética e programas, trocamos princípios por preconceitos. Sem rumo, caímos no eleitoralismo populista e na corrupção, que mora ao seu lado. E ainda não fizemos uma autocritica, nem pedimos desculpas à história e ao povo.


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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Financiamento Publico de Campanha

ARTIGO PRIMEIRO: TODO BRASILEIRO DEVERIA TER VERGONHA NA CARA.

Por Alacir Arruda

Conta-se que o  historiador cearense Capistrano de Abreu (1853-1927), colega de classe de padre Cícero Romão Batista no seminário de Fortaleza, não ficou famoso por causa disso, mas por uma piada, seu projeto de Constituição, que rezava categórico apenas dois artigos: “Artigo 1.º: Todo brasileiro deve ter vergonha na cara. Artigo 2.º: Revogam-se as disposições em contrário”.

Nenhum de nossos projetos constitucionais de lá para cá  teve o poder de síntese dessa chacota, que de tão atual se tornou denúncia. A cada nova legislação este país se torna cada vez mais a “república dos sem-vergonha”. E a sociedade dos otários espoliados que chegou a ser primeira página do Estado de São Paulo  que recentemente registrou: Câmara quer mudar delação premiada e prisão preventiva. E a notícia a que ela se refere, da lavra de Isadora Peron, da sucursal do jornal em Brasília, completou: “Também estudam revogar o entendimento de que penas podem começar a ser cumpridas após condenação em segunda instância”.

Os  repórteres  de política do Estadão, Pedro Venceslau e Valmar Hupsel Filho,  relataram a saga dp deputado Vicente Cândido (PT-SP), para promover uma reforma política que incluiria um Fundo Partidário de, no mínimo, R$ 3,5 bilhões; o distritão, em que só os mais votados para deputado se elegem; e, last but not least, a “emenda Lula”. Esta merece destaque especial, por impedir que postulantes a mandatos eletivos sejam presos oito meses antes da data marcada para a eleição, mesmo que só venham a ter suas candidaturas registradas oficialmente quatro meses após esse prazo. O nome do presidenciável do Partido dos Trabalhadores (PT), no qual milita Sua Candidez, é usado como marca registrada da emenda por atender ao fato de que Luiz Inácio Lula da Silva recentemente foi  condenado a nove anos e meio de prisão e proibido de ocupar cargos públicos por sete anos pelo juiz Sergio Moro, na Operação Lava Jato.

A proibição de prender quem avoque sua condição de candidato é a mais abjeta das propostas do nada cândido (claro, impoluto) relator, mas não é a que produzirá, se for aprovada pelo Congresso Nacional, mais prejuízos, em todos os sentidos, para a cidadania. As medidas cinicamente propostas pelo “nobilíssimo” parlamentar produzem, em conjunto, um despautério que provocaria a aceleração do enriquecimento dos partidos e de seus representantes, em particular os dirigentes, sob a égide de um sistema corrupto e que trava a produção e o consumo, empobrecendo a Nação. O financiamento público das milionárias campanhas eleitorais legaliza a tunga ao bolso furado do cidadão.

Esse "nobre" deputado é ex-sócio do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, que não sai do País para não ser preso pela Interpol, Sua Candura-mor, o deputado ecumênico, integra o lobby a favor da legalização dos cassinos e foi um dos idealizadores da campanha de Rodrigo Maia (DEM-RJ) à presidência da Câmara. A reforma ressuscita uma ideia que nunca pareceu ter muito futuro e sempre foi apregoada pelo presidente Michel Temer: o distritão. Trata-se da volta do tílburi ao Vale do Silício, pois reduz a pó as tentativas vãs de tonificar a democracia, dando mais força aos partidos, e estimula o coronelismo partidário, usando falsamente a modernização, confundindo-a com voto distrital.

O patrimônio de Cândido aumentou nove vezes nos últimos nove anos (descontada a inflação no período). Neste momento, em que as arenas da Copa do Mundo da Fifa em 2014 – de cuja lei foi relator – têm as contas devassadas por suspeitas de corrupção e um juiz espanhol mandou prender o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira, o eclético parlamentar achou um parceiro no Senado: o relator da reforma política e líder do governo Temer na Casa, Romero Jucá (PMDB-AP) que conseguiu aprovar no Senado esse desplante, onde desvia  30% do dinheiros de emendas parlamentares para financiar campanhas, algo em torno de 1.6 bilhão.  Para quem não sabe o que são emendas parlamentares, refresco sua massa cinzenta: emendas parlamentares  podem ser propostas por deputados e senadores quando se vota o orçamento anual, e destina-se a: construções e ampliações de escolas, estradas, hospitais e outras ações de interesses  do povo. Vejam a que ponto esses "pulhas" chegaram, retirar dinheiro de onde ja falta!

Enquanto Cândido e Jucá providenciam a engorda dos cofres partidários para garantir as campanhas perdulárias, que anteriormente eram  feitas à custa de propinas milionárias (pagas por JBS, OAS e Odebrechet entre outras),  a comissão especial da reforma do Código de Processo Penal (CPP) batalha pelo abrandamento da legislação de combate à corrupção no Brasil.

A reforma do CPP, (código de processo penal)  que é de 1941, foi aprovada no Senado em 2010. Na Câmara ficou esquecida até o ano passado e foi desengavetada durante o mandarinato do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atualmente preso em Curitiba. O presidente da comissão especial que discute as mudanças na Casa, deputado Danilo Forte (PSB-CE), que apareceu recentemente na lambança de Temer ao tentar atravessar a adesão dos dissidentes do PSB ao DEM, discorda de presos fecharem acordos de delação premiada com procuradores.

Forte também considera que é preciso punir juiz que desrespeite as regras da condução coercitiva, que deveria ser empregada apenas se uma pessoa se negar a prestar depoimento. O presidente da comissão especial parece até ter inspirado sua ideia na recente decisão de Nicolás Maduro, que ameaçou de prisão os juízes que o Parlamento da Venezuela – de maioria oposicionista e contra a Constituinte que ele quer eleger no domingo, no modelo da pregada por Dilma – escolheu para a Suprema Corte.

A reforma política de Cândido e Jucá e as mudanças no CPP propostas por Forte, aliado de Temer, evidenciam tentativas de adaptar as leis eleitorais e penais do País aos interesses pessoais de chefões políticos encalacrados nas operações, Lava Jato entre elas, inspiradas em convenções da ONU, da OEA e da OCDE contra a roubalheira geral, importadas por Fernando Henrique e Dilma e agora ameaçadas pelos que defendem a impunidade de quem for flagrado. Esse “acordão”, que denota fraqueza e sordidez, põe o Brasil, já na contramão da prosperidade, também na trilha oposta da luta contra o roubo. Aqui a vergonha empobrece o portador.

Diante de todo esse  "escárnio" com a coisa publica promovida pelos nossos políticos, só me resta apoiar  a Constituição Fictícia do historiador cearense Capistrano de Abreu,  que estabelece: "o primeiro requisito para ser politico é ter vergonha na cara e revogam-se todas as disposições em contrario."

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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Vingança?

VINGANÇA OU LEI DO RETORNO?

Por Alacir Arruda. 

Eu fui ensinado desde novinho pela minha mãe, visto que perdi meu pai ainda muito garoto, sobre a lei de Talião – “olho por olho, dente, por dente”, como um exemplo a não ser seguido. Buscar vingança é visto em nossa sociedade como uma atitude de pessoas inferiores, mesquinhas. “Dê a outra face”, “supere”, “o mundo dá voltas”, “a lei do retorno é implacável”, “a lei dos homens pode falhar, mas a lei de Deus nunca falha”… São tantos exemplos contados por meio de parábolas e fábulas, para que nunca nos esqueçamos que a vingança, assim como o crime, nunca compensa.

Porém, se na vida não podemos nos servir somente da justiça quando nos encontramos em situações de abusos de autoridade, ilações e ou violência, a ficção pode nos ajudar a lidar com alguns conflitos ou mesmo, por meio da representação e da projeção, satisfazer o nosso desejo por vingança, mas no fundo carregamos aquele sentimento de que um dia quem lhe fez mal irá pagar.

Não comento a minha vida privada aqui no Blog, até porque não e essa a função dessa ferramenta, todavia quando você tem sua imagem desfigurada pela mídia e sua honra manchada por acusações infundadas com um único objetivo, lhe calar a mando de poderosos que não suportam a verdade, é obvio que tenho que reagir. Sobretudo quando todos aqueles "poderosos", insisto, todos aqueles "poderosos" que um dia lhe apontaram o dedo, lhe acusaram, e jogaram seu nome na lama e acabaram com sua carreira, alguns hoje estão presos, ou com tornozeleiras eletrônicas, prisão domiciliar e ou com a Policia na porta de sua casa as 06:00 da manha, exatamente como mandaram fazer comigo no passado. Mas ainda falta alguns, porém, reconheço que e só uma questão de tempo. E não é porque eu desejo, é porque são maldosos e seria uma injustiça muito grande eles se manterem impune. Confesso que não me sinto bem vendo eles sendo presos, porem,minha dor maior é ver o nosso governo entregue nas mãos de pessoas dessa estirpe, mas é a Lei do Retorno. 

Recomeçar foi difícil, construir uma nova vida após se sentir o pior dos mortais reafirmo: não foi FÁCIL. As pessoas te olharem na rua, lhe apontarem o dedo - influenciados por uma mídia infame, e pensarem: "será que é verdade o que falam dele"? Amigos, quer dizer, "amigos", que lhe abandonaram simplesmente por acreditar na mídia, sem nunca sequer ter me dado o direito do contraditório. Costumo sempre dizer que, dos mais de 200 "amigos" que frequentavam minha casa em churrascos bancados por mim, sobraram tão poucos que com os dedos de uma mão eu conto. Hoje são poucos realmente, porém fieis. Essa é a nossa mídia, ela tem a capacidade de destruir carreiras, histórias, legados em segundos e mesmo quando não conseguem provar nada contra você, ela é incapaz de se desculpar ou minimizar o estrago feito em sua vida. 

Ministrei Filosofia e Sociologia por 23 anos em várias universidades Brasil afora, e um tema eu adorava aprofundar com meus ex alunos, a Escola de Frankfurt. Essa Escola Filosófica alemã questionava: Qual é a influência de meios de comunicação de massa, como a TV,( hoje também a internet e as mídias sociais) sobre uma sociedade? Como as pessoas são mobilizadas a acompanharem um noticiário como se estivessem assistindo a uma telenovela, como ocorreu anos atrás no caso da morte da menina Isabella? Os primeiros filósofos dessa escola detectarem a dissolução das fronteiras entre informação, consumo, entretenimento e política, ocasionada pela mídia, bem como seus efeitos nocivos na formação crítica de uma sociedade, foram os pensadores da Escola de Frankfurt. 

Em um texto clássico escrito em 1947, “Dialética do Iluminismo”, Adorno e Horkheimer, filosofos fundadores dessa escola de pensamento, definiram indústria cultural como um sistema político e econômico que tem por finalidade produzir bens de cultura – filmes, livros, música popular, programas de TV etc. – como mercadorias e como estratégia de controle social.

A ideia é a seguinte: os meios de comunicação de massa, como TV, rádio, jornais e portais da Internet, são propriedades de algumas empresas, que possuem interesse em obter lucros e manter o sistema econômico vigente que as permitem continuarem lucrando. Portanto, vendem-se filmes e seriados norte-americanos, músicas (funk, pagode, sertaneja etc) e novelas não como bens artísticos ou culturais, mas como produtos de consumo que, neste aspecto, em nada se diferenciariam de sapatos ou sabão em pó. Com isso, ao invés de contribuírem para formar cidadãos críticos, manteriam as pessoas “alienadas” da realidade. 

Como afirmam no texto: “Filmes e rádio não têm mais necessidade de serem empacotados como arte. A verdade, cujo nome real é negócio, serve-lhes de ideologia. Esta deverá legitimar os refugos que de propósito produzem. Filme e rádio se autodefinem como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores-gerais tiram qualquer dúvida sobre a necessidade social de seus produtos.” 

Para Adorno, os receptores das mensagens dos meios de comunicação seriam vítimas dessa indústria. Eles teriam o gosto padronizado e seriam induzidos a consumir produtos de baixa qualidade. Por essa razão, indústria cultural substitui o termo cultura de massa, pois não se trata de uma cultura popular representada em novelas da Rede Globo, por exemplo, mas de uma ideologia imposta às pessoas. 

Dominação política 

E como a indústria cultural torna-se mecanismo de dominação política? Adorno e Horkheimer vislumbraram os meios de comunicação de massa como uma perversão dos ideais iluministas do século 18. Para o iluminismo, o progresso da razão e da tecnologia iria libertar o homem das crenças mitológicas e superstições, resultando numa sociedade mais livre e democrática. 

Mas os pensadores da Escola de Frankfurt, que eram judeus, se viram alvos da campanha nazista com a chegada de Hitler ao poder nos anos 30, na Alemanha. Com apoio de uma máquina de propaganda que pela primeira vez usou em larga escala os meios de comunicação como instrumentos ideológicos, o nazismo era uma prova de como a racionalidade técnica, que no Iluminismo serviria para libertar o homem, estava escravizando o indivíduo na sociedade moderna. 

Nas mãos de um poder econômico e político, a tecnologia e a ciência seriam empregadas para impedir que as pessoas tomassem consciência de suas condições de desigualdade. Um trabalhador que em seu horário de lazer deveria ler bons livros, ir ao teatro ou a concertos musicais, tornando-se uma pessoa mais culta, questionadora e engajada politicamente, chega em casa e senta-se à frente da TV para esquecer seus problemas, absorvendo a mesmos valores que predominam em sua rotina de trabalho. É desta forma que a indústria cultural exerceria controle sobre a massa. Como resultado, ao invés de cidadãos conscientes, teríamos apenas consumidores passivos. 

O que aconteceu comigo é a apenas parte de uma sistemática estruturada pelos meios de comunicação do Brasil e que se repete, onde a luta por audiência, o afã pelo furo jornalistico e a fome pelo poder não respeita nada. É a logica do "tudo pode". Para aqueles que me abandonaram eu só lamento, e sinto dizer: vocês estavam errados. Os verdadeiros "bandidos" hoje encontram-se encarcerados, usando tornozeleiras e ou em prisões domiciliares. Encerro esse desabafo com uma reflexão do ex Ministro da Fazenda dos governos Militares, o economista matogrossense Roberto Campos, que certa vez expôs a seguinte pérola: " a julgar pelo interesse e entendimento que o brasileiro tem sobre mídia e noticias, a burrice no Brasil tem um futuro brilhante". 



Sinta-se a vontade 

para discordar.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Reforma do Ensino Médio.

REFORMA DO ENSINO MÉDIO BRASILEIRO: UMA  EXCRESCÊNCIA JURÍDICA.


Por Alacir Arruda

Quem me conhece sabe que sou  radicalmente contra essa "reforma"do médio tão propagada pelo governo federal como a solução para a 'DESGRAÇA" que, não é de hoje, assola o vergonhoso ensino médio brasileiro. Como eu sempre digo, faço essa critica com conhecimento de causa, afinal, foram 23 anos de sala de aula, desses ao menos 21 dedicado somente ao ensino médio  como docente e coordenador. Acredito que esse governo que aí está, diante das denuncias que lhes são atribuídas,  não possui legitimidade moral nem legal de alavancar processos de mudanças tão grandes e importantes para a escola pública no Brasil.

Afirmo ainda que os "pseudointelectuais"  do MEC de suas salas acarpetadas de Brasilia que  pensaram esse essa reforma,  não possuem competência para tal.   Ainda que, como eles dizem,  essa reforma é necessária pois a  escola é  lugar privilegiado para a socialização do conhecimento, refuto que ela não é nem de longe o único canal para o acesso ao saber. Todavia, reconheço que ela ainda é insubstituível como espaço-tempo institucional de exercício da pluralidade de pensamento que não pode se realizar sem a convivência entre os diferentes que caracteriza a escola pública, notadamente, a brasileira.

Acredito ainda que o  papel do professor como um mediador – e não apenas como transmissor – desses processos de elaboração compartilhada do pensar e do agir sobre a complexidade do mundo é indispensável.

Reformar, inovar, transformar na verdade fazem parte de um conjunto semântico de palavras que carregam valor positivo, remetem à ideia de progresso e de melhoria. Com elas o governo de Michel Temer aprovou a reforma no Ensino Médio e tenta convencer a população sobre sua suposta eficácia.

O novo modelo do Ensino Médio prevê alterações na grade curricular e carga horária, possibilidade e estímulo à formação profissional técnica, entre outras. O ministro da Educação, Mendonça Filho, (investigado em varias ações judiciais) ressaltou, na cerimônia de sanção da MP que “A escola do ensino médio era estática, com 13 disciplinas obrigatórias. [O aluno] tem de assimilar aquele conteúdo de forma similar e igual para todos, como que cada um tivesse um perfil igual ao outro.” O presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Fred Amâncio, justificou que o ensino médio pode se tornar mais atrativo com a flexibilização da carga horária. Para esclarecer dúvidas sobre as mudanças o portal do MEC disponibilizou um espaço com respostas de perguntas mais frequentes e contato para o leitor enviar suas questões, clique aqui para conferir. 

A realidade no entanto esta longe das utopias prometidas pelos reformadores. Escolas que  não possuem merenda, computadores e datashow. Professores não possuem outras opções para dar aulas, apenas o método tradicional, o que serão dessas instituições no período integral?

Os salários dos professores não são adequados para a quantidade de trabalho exigido na profissão. O professor comprometido tem muito material para elaborar e corrigir quando ele está fora de sala de aula, não tem finais de semana nem convivência familiar. Segundo o CNJ  o índice de divórcios entre educadores é 23% maior que em qualquer outro segmento,  e não precisa ser gênio para saber a causa. 68% dos professores já foram agredidos ou emaçados e desses, mais de 80% deles entraram em depressão e 3% cometeram suicídio. 

Juntamente com a nova lei do E.M., o governo brasileiro aprovou a PEC do Teto dos Gastos, oficialmente nomeada de emenda constitucional nº95 - anteriormente chamada de PEC 241 e PEC 55. Mesmo com muitos nomes, essa emenda não conseguiu evitar manifestações contrárias a sua aprovação. Com o objetivo de frear os gastos públicos, ela congelará investimentos em saúde e educação por até 20 anos. Confira reportagem do El País para entender melhor a questão. 

Segundo especialistas, a chamada  "PEC do Teto dos Gastos" deixa claro em seu texto  que a educação brasileira não precisa de aumento no repasse e sim uma gestão responsável - como se esse governo fosse exemplo para afirmar isso. Ora isso tudo é  uma tremenda  falácia,  tentar passar a ideia de que a educação não precisa de dinheiro, que é um problema de gestão. Má gestão, desperdício, é um problema que pode acontecer em qualquer lugar, na educação, no ministério da Fazenda, no Judiciário, na empresa privada, nos bancos. Mas, a verdade é que há carências básicas reais, em relação aos principais insumos que propiciariam a educação de qualidade. Segundo dados do Inep, em 2015, apenas 4,19% das escolas da Educação Básica tinham todos os itens de infraestrutura adequada. Isto, no agregado nacional. Na região Norte, por exemplo, eram 0,45%. A rede de esgoto sanitário estava presente em 35,78% das escolas. Má gestão é não gastar para fornecer estes itens básicos.” 

A Medida Provisória 746/2016, mais conhecida como MP do Ensino Médio, que agora é a lei nº13.415, de 16 de fevereiro de 2017, alterando a Lei de Diretrizes e Bases de 1996. Apresentada no final de outubro de 2016 pelo Presidente Temer, foi aprovada pela Câmara, no início de dezembro do mesmo ano, e pelo Senado, no início de fevereiro deste ano e em  16 de fevereiro, a MP foi sancionada pelo presidente.

Durante a sessão na câmara alta, a senadora Ana Fátima Bezerra (PT/RS) comparou o aspecto unilateral da decisão com a reforma instaurada em 1971 durante a ditadura militar. Reformar o Ensino Médio por meio de uma medida provisória tem sido alvo de duras críticas por diversos setores da sociedade, não apenas por seu caráter autoritário, e especialistas da área ressaltam pontos problemáticos na lei.

A grande verdade é:  entra governo sai governo e a  educação sempre se mantem como um  dos 'aparelhos ideológicos" do Estado para  forjar bons soldados, semi alfabetizados, que não possuem condições COGNITIVAS  de entender a super estrutura por de trás dessas mudanças, logo, não reagem. A cada ano que passa Louis Althusser e Bourdier  se tornam mais atuais, como diziam:"A ESCOLA É A PRINCIPAL REPRODUTORA DE DESIGUALDADES" 

Sinta-se a vontade para discordar..

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Funcionalismo Publico

FUNCIONALISMO PÚBLICO BRASILEIRO: CARO, INEFICIENTE E ULTRAPASSADO.

Por Alacir Arruda

Há mais  de 60  a marchinha Barnabé,  composta por Haroldo Barbosa e Antonio de Almeida, batizou os funcionários públicos acomodados. A musica fazia alusão àqueles que entravam no serviço público e não tinham a menor possibilidade ou vontade de crescer lá dentro. Nascia e morria barnabé. Contava dinheiro até o fim da carreira e continuava contando durante a aposentadoria. Era a imagem do paletó jogado na cadeira, o estereótipo de moleza e do emprego vitalício. 

E evidente que isso trata-se de um preconceito diretamente ligado à origem do Estado brasileiro, criado com o propósito de gerar emprego e renda para a população, além de montar uma estrutura de sustentação da iniciativa privada. Mas será que hoje a história é diferente? Antes de você, que esta lendo esse texto, emita qualquer  juízo de valor, gostaria de dizer que ja fui servidor publico, tanto federal (5 anos), quanto estadual ( 15 anos) e sai dos dois por razões de foro intimo. Dito isso, posso afirmar que  essa é uma seara que conheço muito bem e tenho respeito pelos poucos servidores comprometidos que convivi.

Servir ao público certo? Não é bem assim. Despreparo, perfil fora da função, sem conhecimento do cargo escolhido. Esse é o serviço público brasileiro, um misto de burocracia aliado com falta de modernidade.






Em 2010  fui a uma palestra em São Paulo muito interessante ministrada pelo presidente da Associação Brasileira das Empresas de Eventos (ABEOC Brasil) que demonstrou o mercado do segmento de eventos no Brasil. Porém uma frase me marcou muito na palestra: "nós somos serviçais, porque somos prestadores de serviços". Adorei a analogia entre servir ao público e prestar serviço.

Realmente quem presta um serviço é um servidor, ou seja, serviçal. Se pararmos para ler o significado de serviçal chegamos a conclusão que a pessoa que é um serviçal tem por dever servir, ou seja, ser requisitado para realizar determinada tarefa somente porque o satisfaz. De toda forma quem é voluntário para realizar algo é um serviçal, pois realiza determinada tarefa pelo fato de gostar em auxiliar.

Servir é como ser mordomo

O que me chama a atenção é a expressão que se utiliza para quem trabalha no serviço público: servidor. Ora, se o cidadão é um servidor público significaria que ele faz o trabalho porque o satisfaz, a despeito do salário que ele recebe correto? Errado. Hoje a carreira pública atrai profissionais descontentes com o mercado privado de trabalho, ou porque não tem "oportunidades" ou porque não conseguem os melhores empregos.

A série Os Aspones retratava uma realidade de repartição pública

Ao contrário da iniciativa privada que avalia as competências do candidato a um posto de trabalho, na iniciativa pública se avalia o candidato por meio de uma prova meritocrática. Todavia, com o passar dos anos, tais provas mais aprovam do que reprovam os candidatos, e com isso nem sempre os que assumem funções públicas detém as melhores aptidões ou perfis para o cargo exercido. É mais no estilo "se estudar é lógico que passa".

Enquanto na iniciativa privada um colaborador eficiente no mínimo deve deter curso superior, falar outro idioma, estudar uma pós-graduação ou MBA; na iniciativa pública basta as vezes somente  estudar o conteúdo da prova do concurso público, que em sua maioria são leis.

Um pouco de estudo, mas o resto é pura "decoreba"

O grande atrativo para o serviço público não são somente os altos salários sem esforço profissional - vulgo carreira corporativa - mas sim a possibilidade de não precisar mais procurar trabalho, ou seja, a estabilidade. Criada como uma forma de evitar que políticos usassem os servidores públicos como massa de manobra em eleições, a estabilidade se tornou a joia rara para quem não quer mais procurar emprego.

Dessa forma milhares de jovens que saem das universidades todos os anos acabam encontrando um atalho para uma segurança financeira e quiça profissional. Se tornam servidores públicos e com isso acabam se mantendo na mesma função por anos, até a aposentadoria. Dessa forma milhares de jovens que poderiam auxiliar em novas formas de fazer negócios acabam por si acomodando-se e usurpando da sociedade seu conhecimento.

As consequências da falta de preparo da grande maioria dos servidores públicos é notada diariamente nas chamadas "repartições" onde a burocracia impera: filas enormes, atrasos, carimbos, taxas e emolumentos, formulários extensos, e mais burocracia. Como um ciclo vicioso o sistema se retroalimenta, tendo no servidor público seu maior defensor desse sistema moroso e lento. Por diversas vezes ouvi dos meus pais, que são servidores públicos há tempos frases como: "para que mudar se está dando certo", ou, "não precisa fazer diferente".

Respaldado na questão legal, o serviço público fica engessado, e muitas vezes medidas corretivas ou de cunho modernizante acabam esbarrando na própria legislação que protege o sistema. Exemplo disso é a Lei de Licitações (Lei Federal 8.666/1993) que determina dentre seus capítulos que o serviço público deve realizar pesquisa de preços considerando o menor preço. Mesmo a letra fria da lei versando sobre a questão da qualidade, o que vale no final das contas é o preço daqueles fornecedores habilitados; mesmo que o mercado venha praticar preço menor que aquele prescrito na licitação, o que vale são os preços apresentados. Ai que nasce o famoso  "toma lá, dá cá"!

A falta de seleção por competências dos servidores públicos também faz com que "trapaceiros" ou "desonestos" assumam postos de trabalho. De tempos em tempos acabamos vendo casos de corrupção, propina ou suborno envolvendo servidores públicos, de qualquer esfera de poder. Um exemplo clássico é o caso da ex-servidora pública do INSS Jorgina de Freitas Fernandes que desviou em torno de R$ 2 bilhões de reais de aposentadorias.

Para quem não lembra da larapia, uma foto de Jorgina de Freitas Fernandes

E para piorar, em tempos de crise qualquer empresa que se preze pensa em redução da folha de pagamento. Apesar de trágico é natural para uma economia regulada pelo mercado. No serviço público isso não pode ser estimulado, muito pelo contrário, tal ação é motivo para organização de movimentos grevistas. Exemplo de ousadia foi do ex-governador do RS, Antônio Britto, que na década de 1990 criou um Programa de Demissão Voluntária, com o intuito de reduzir o eterno rombo nas contas do estado. Resultado foram alguns movimentos de greve, mas diversos servidores saíram do serviço público, não sem antes receber algumas vantagens, lógico.

Repito,  não sou contra o serviço público, muito pelo contrário. Se assim fosse além de ser contra minha própria história,  seria contrário a diversos servidores públicos competentes que se esforçam e se dedicam para dar um mínimo de dignidade aos serviços públicos que são oferecidos à população, principalmente mais carente.

Exemplo de servidores públicos, que a despeito do salário realizam suas funções porque amam o que fazem

A questão aqui é outra, trata se do modelo, o serviço público brasileiro é velho e ultrapassado, levando para dentro de prefeituras, câmaras, governos e ministérios, pessoas despreparadas ou descontentes com a iniciativa privada, que enxergam na iniciativa pública mais um alento para suas mazelas do que uma oportunidade de trabalho. 

Eu mesmo já realizei concursos públicos - mesmo contra minha vontade- porém posso dizer que as limitações impostas pela iniciativa pública como a falta de perspectivas de crescimento profissional, a incompatibilidade com a inovação, a burocracia exagerada, e a falta de objetivos concretos; não fazem muito meu estilo profissional. Acredito na livre iniciativa, no crescimento da pessoa, na alavancagem do conhecimento.

Só lembrando que esse modelo de serviço público que temos, onde um servidor só pode ser demitido por "Deus", só existe aqui no Brasil, em nenhuma nação do mundo se encontra um modelo parecido. 

Quem sabe um dia não teremos mais "servidores" públicos, mas sim funcionários, como em qualquer outro lugar.

Fique a vontade para discordar......

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Extrema direita: ódio e intolerância

EXTREMA DIREITA ALEMÃ: QUANDO O ÓDIO E A INTOLERÂNCIA VIRA POLÍTICA DE ESTADO.

Por Alacir Arruda

Foi em 1921,  que um austríaco de descendência alemã, baixinho e feio, porém bem articulado, chamado Adolf Hitler fundou o Nacional Socialismo  Alemão ( OU PARTIDO NAZISTA), e  logo  esse partido arrebanhou uma serie de adeptos. Com uma ideologia que pregava a supremacia dos arianos (brancos), a luta por um espaço vital do povo germânico e  um ódio mortal do povo judeu,  já nas eleições de 1927 eles conseguiram eleger um grande numero de deputados e em 1933 Hitler assumiu o poder  e declarou instaurado o III Reich (III império). Acredito que a partir dai todos devem ( ou deveriam) lembrar o que esse lunático aprontou. 

Para quem tem acompanhado o noticiário politico internacional dos últimos 5 anos tem percebido  um crescimento da extrema direita, sobretudo na Europa, em proporções geométricas. Donald Trump talvez seja o exemplo de maior sucesso dessa corrente que andava meio esquecida desde o fim da II Guerra Mundial  em 1945 mas esta voltando com força total.

Por exemplo,  A  CDU  ( Democratas Cristãos) de Angela Merkel venceu as eleições mas quem pode, de facto, cantar vitória, é a extrema-direita alemã. A Alternativa para a Alemanha assume-se como terceira força mais votada. A formação consegue, pelo menos, 13% de votos, segundo a sondagem divulgada pela televisão pública ZDF. A festa fez-se na sede de campanha do partido que consegue, pela primeira vez, sentar-se no parlamento alemão.

“A primeira coisa que vamos fazer é iniciar um inquérito Parlamentar a Angela Merkel”, afirmou Alice Weidel, uma das candidatas da formação.O medo e o ódio sempre foram aliados da extrema direita. Assim como o idealismo rancoroso é um aliado da extrema esquerda. E isso vale para a Alemanha e para o Brasil. Mas notem: eu não tenho paciência para pessoas que veem a política segundo esferas de sensações que atravessam mares, tomam continentes. Ao contrário: penso que isso é uma bobagem.

O que o país que deu 13,5% dos votos para o partido Alternativa para a Alemanha (AfD, em alemão), de extrema direita, tem a ver com os 20% alcançados por Jair Bolsonaro, no Brasil, segundo pesquisas? Respondo: no conteúdo, nada! A agenda da sigla AfD, criada em 2013 para pedir a saída daquele país da União Europeia, não faz sentido por aqui. Mas sim: há medo e ódio por lá. Há medo e ódio por aqui.

Angela Merkel deve formar uma coalizão para o seu quarto mandato. Seu partido, União Democrata-Cristã (CDU), ficou com 32,9% dos votos, mais de 12 pontos percentuais à frente do líder do Partido Social-Democrata (SPD), Martin Schulz, com estimados 20,8%. Hoje, eles são aliados. Mas Schulz já avisou que o SPD será oposição no quarto mandato de Merkel.

Vamos ver. Inexiste hoje, no Brasil, uma força governista que tenha os quase 33% da chanceler alemã. Mas é certo que o discurso radical da extrema direita mobiliza fatia considerável do eleitorado brasileiro. Se recente pesquisa CNT-MDA estiver correta, mais de 13% dos brasileiros dizem que só votariam em Jair Bolsonaro. Ele fica no patamar de 19%-20% no levantamento estimulado de primeiro turno. No segundo, o capitão reformado do Exército, que chegou a ser punido por indisciplina quando na ativa, não chega a 29%. Ou por outra: no Brasil ou na Alemanha, a extrema direita pode ter até uma votação expressiva, mas encontra dificuldade para crescer além do seu nicho.

A AfD nasceu como partido contra a União Europeia e se transformou na expressão principal da xenofobia. Seus militantes passaram a fustigar, sem piedade, a chanceler Merkel por ter aberto o país à imigração de refugiados dos países árabes em guerra. Seu lema é “Alemanha para os alemães”. E isso quer dizer que o partido prega abertamente que os refugiados deixem o país. Eles acusam Merkel de ter cedido às pressões da União Europeia.

Bem, meus caros, aquele país tem alguns monstros trancados no armário que deixam as pessoas civilizadas de lá e de todo canto com o cabelo em pé. Sabemos, e Bolsonaro o evidencia entre nós, que há os tipos que não resistem às soluções simples e erradas para problemas difíceis. Não duvidem: hoje, um levantamento sobre uma eventual intervenção militar no Brasil traria resultados terríveis, mas que não surpreenderiam.

Na Alemanha, os imigrantes estão na raiz do medo e do ódio — além, não se desconsidere, de velhos fantasmas. Entre nós, reconheça-se, o lado deletério da Lava Jato contribuiu de maneira significativa para desacreditar os políticos. E, como sabemos, mais sofreram os líderes que se opuseram ao petismo. Quando testados nas pesquisas, perdem de Lula nos votos e ganham na rejeição. O “ninguém presta” a que nos conduziram Rodrigo Janot, Deltan Dallagnol, Carlos Fernando e outros tantos é ruim, sim, para o PT. Mas é pior para quem estava na oposição aos companheiros: é como se tivessem traído também a esperança.

Mas só isso não explica a ascensão de Bolsonaro. Sabem os tiroteios na Rocinha? Sabem o número escandaloso de homicídios no país em um ano — média de 53 mil? Pois é: o nome da nossa “imigração” é “insegurança pública”. Seja a guerra da Rocinha, sejam os latrocínios país afora, eis os eventos a alimentar o medo. E isso é mel na sopa para os populistas de direita. Os de esquerda continuarão a achar que se vive naquela favela apenas mais um capítulo da luta de classes.

“Aparentemente somos o terceiro partido mais forte, o que significa que o próximo governo terá de estar preparado porque vamos persegui-lo, a ele, à Sra. Merkel, ou a quem quer que seja”, adiantou.

A confirmarem-se as projeções o próximo Bundestag terá seis grupos parlamentares, o mais diversificado, em termos de formações políticas, desde 1950.Grupos judeus na Europa e nos Estados Unidos expressaram preocupação com a ascensão da extrema direita na Alemanha após as eleições do ultimo domingo (24).

O crescimento da sigla de direita populista AfD (Alternativa para a Alemanha) foi a novidade do pleito e, com 13,2% dos votos, o partido chega ao Parlamento pela primeira vez e como o terceiro maior.

A direita populista não era representada no Parlamento desde o fim da Segunda Guerra em 1945, o que é considerado um reflexo de esforços alemães para se distanciar dos horrores do Holocausto.

Após as eleições, o presidente do Congresso Judaico Mundial, Ronald Lauder, chamou a chanceler Angela Merkel de "uma amiga verdadeira de Israel e do povo judeu" e criticou o avanço do AfD.

"É abominável que o partido AfD, um movimento reacionário vergonhoso que repete o pior do passado da Alemanha e deveria ser proibido, agora tenha a habilidade de promover sua plataforma vil no Parlamento alemão", disse Lauder.
O AfD, que ganhou força nos dois anos, desde que Merkel acolheu mais de 1 milhão de migrantes, a maioria fugitivos da guerra no Oriente Médio, disse que a imigração compromete a cultura da Alemanha, mas nega que seja racista ou antissemita.

O Congresso Judaico Europeu, por sua vez, pediu aos partidos centristas para que cumpram seus votos e evitem formar coalizões com o AfD.

"Algumas das posições que adotou durante a campanha eleitoral exibem níveis alarmantes de intolerância não vistos na Alemanha há muitas décadas e que, claro, são de grande preocupação para os judeus alemães e europeus".

O Conselho Central dos Judeus na Alemanha disse que os resultados das eleições confirmaram seus piores medos e pediu união contra o AfD.

"Um partido que tolera o pensamento extremista de direita em suas fileiras e incita o ódio contra as minorias... agora será representado no Parlamento e em quase todas as legislaturas estaduais", disse o presidente do grupo, Josef Schuster, em um comunicado.

"Espero que nossas forças democráticas exponham a verdadeira natureza do AfD e suas promessas populistas vazias", acrescentou.

A Alemanha, que abriga hoje aproximadamente 200 mil judeus viu os crimes antissemitas aumentarem 4%, para 681 nos primeiros oito meses de 2017 em relação ao mesmo período do ano passado.

Só lembrando mais uma vez, no Brasil o representante máximo dessa corrente que hoje assombra a Europa e o mundo , é o senhor Jair Bolsonaro, que já aparece em segundo lugar nas pesquisas de intenção de votos para Presidente da Republica e possui uma legião de lunáticos ( tal qual ele)  que o admiram.


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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Uma reflexão sobre o jeitinho brasileiro

Afinal, quem somos nós, os brasileiros? À primeira vista, a resposta para essa pergunta é fácil: somos o produto da miscigenação entre os colonizadores portugueses, os índios que aqui viviam e os africanos trazidos como mão-de-obra escrava, além dos imigrantes que chegaram entre os séculos 19 e 20 (alemães, italianos, japoneses). Até aí, tudo bem. Somos, enfim, um povo mestiço genética e culturalmente que, apesar da diversidade, compartilha certos traços em comum.

A questão, porém, fica um pouco mais complicada quando se trata de buscar a essência do que se convencionou chamar de "caráter nacional", aqueles traços que explicam uma série de comportamentos que costumamos encarar com naturalidade, mas que, quase sempre, causam surpresa entre os estrangeiros.

“Não é só um estereótipo. As pessoas aqui se relacionam com mais afetividade. Os brasileiros conversam na rua, enquanto na Europa o silêncio predomina nas estações de ônibus e metrô”, diz o jornalista espanhol Juan Arias, que há 9 anos vive no Rio como correspondente do jornal El País. “Mas fiquei chocado com a burocracia kafkiana para tirar o visto de permanência após casar com uma brasileira. Foram mais de 600 dias de espera, 6 quilos de documentos e a insinuação de que tudo poderia sair rapidamente se pagasse 8 mil reais”, afirmou Árias ao deparar com a nossa já famosa “Burocracia”. 

Brooke Unger, correspondente da revista inglesa The Economist, em São Paulo, é mais um que se diz a um só tempo encantado e estarrecido com certos traços do povo brasileiro. “Quando cheguei ao Brasil pela primeira vez, vi garis em um desfile pelas praias do Rio, numa cena impensável para um americano”. Em compensação, ele diz não entender a espécie de amnésia coletiva diante de casos graves de violência e impunidade. “A maioria dos brasileiros sabe mais sobre o atentado terrorista de 11 de setembro nos USA ocorrido em 2001, do que sobre a barbárie diária  que mata ao menos 5 pessoas inocentes por dia no Rio de Janeiro.  Afinal somos o quê? Criativos ou enrolões, extrovertidos ou indiscretos, cordiais ou malandros, maleáveis ou corruptíveis? 

Recentemente  houve uma enxurrada de denúncias de corrupção dos governos, Lula, Dilma e Temer, com direito a queda de ministros, prisões etc., Nessa baila a discussão sobre do nosso caráter voltou à berlinda. De onde vem nosso jeitinho, nossa informalidade (aqui, até um ex-presidente da República era tratado pelo apelido), nossa naturalidade diante da miséria, nossos preconceitos, nossa capacidade de depositar fé em mais de uma religião? 

O que mais impressiona quem não e brasileiro são os porquês? Por que aceitamos ônibus lotado que mais parecem gaiolas de bois? Por que aceitamos a maior carga tributaria do Planeta, mais de 40% do PIB? Por que aceitamos Jose Sarney na politica desde 1954 comandando o Maranhão e o Amapá como um Caudilho? Por que aceitamos hospitais abarrotados de miseráveis morrendo a míngua em cenas que lembram os sanatórios religiosos da Idade Media? Por que aceitamos, apesar de emergente, ter a terceira pior educação do mundo, em que o governo finge que paga, o professor, este por sua vez finge que ensina, o aluno finge que aprende e a sociedade finge que esta tudo bem? Por que a nossa policia mata mais inocentes que países em Guerra? 

Por que somos omissos ao descaso com nossos idosos, a prostituição infantil, a violência contra a mulher e a criança ? Por que aceitamos um governo que comandou uma desfalque de quase 2 bilhões dos cofres públicos (mensalão, Lava Jato, entre outros nomes engraçados)? Por quê? Por que mantemos Renan, Jucá, Padilha, Moreira Franco,Pezão Temer e seus asseclas soltos? 

Nós somos assim, adoramos levar vantagem em tudo e isso é histórico, quem não se lembra do que fez o escriba Pero Vaz de Caminha assim que comunicou ao Rei de Portugal a descoberta do Brasil: " Vossa Alteza, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro, o que Dela receberei em muita mercê. Dito isso. Beijo as mãos de Vossa Alteza” (Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500)."

Esse é o primeiro caso de nepotismo que se tem noticias em terras brasileiras, de lá para cá os nossos "hábeis" políticos trataram de aprimorar tal comportamento. Quando assumem cargos públicos, nomeiam, sem qualquer cerimonia: esposas, filhos, sobrinhos, irmãos, sogras, noras,genros etc.. É a velha ideia do Estado como uma eterna " vaca leiteira", cheia detetas onde todos querem uma para mamar. 

Outra lembrança que vem a cabeça, é a famosa Lei de Gerson. Para aqueles que não lembram, refrescarei vossas memorias. A tal Lei de Gérson tem origem em uma propaganda que Gérson, um dos melhores meio-campistas da história do futebol brasileiro e ex-jogador de grandes times como o São Paulo Futebol Clube, fez para os cigarros Vila Rica no ano de 1976. Na peça publicitária, o boleiro fala sobre as vantagens do cigarro e pronuncia a seguinte frase: "É gostoso, suave e não irrita a garganta". Na sequência diz: "Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro?". Depois de propagandear o cigarro e falar sobre o quanto o produto era bom, Gérson dá um sorrisinho malandro e solta a última e infeliz frase da propaganda: "Gosto de levar vantagem em tudo, certo?". Desta forma, Gerson sintetizou de uma vez só o jeitinho brasileiro de fazer o errado parecer certo.

Apesar de já ser um jogador consagrado na época, Gerson ficou marcado pela propaganda. Depois de algum tempo, o "Canhotinha de Ouro" declarou que ficou arrependido de ter sua imagem associada ao anúncio. Mas já era tarde, seu nome acabou batizando a Lei mais salafrária do país e ficou no imaginário popular. Segundo o diretor do comercial, o publicitário José Monserrat Filho, "houve um erro de interpretação, o pessoal começou a entender como ser malandro. No segundo anúncio dizíamos: ‘levar vantagem não é passar ninguém para trás, é chegar na frente’”.

Com os escândalos políticos que ocorrem frequentemente na política brasileira, tais como fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro, superfaturamento, entre outros, a expressão Lei de Gérson acaba surgindo na boca do povão todos os anos. Enraizada na cultura popular, virou sinônimo de levar vantagem acima de tudo, sem respeitar códigos éticos ou morais.

Aqueles que gostam de entender o Brasil, se lembrarão que no século XX, livros como Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, tentaram responder a algumas dessas perguntas. Mas as interpretações clássicas sobre o que é o brasileiro seguem válidas hoje? “A base dessas interpretações ainda é essencial, mas é preciso lembrar que o chamado caráter de um povo é algo que muda a cada instante”, diz a antropóloga Lilia Schwarcz, da USP.

Se o Brasil, e por extensão o brasileiro , “não é para principiantes”, como disse certa vez o Maestro Soberano Tom Jobim, com ajuda de alguns desses especialistas em nossas origens temos hoje um guia para entendermos mais do porque somos assim , ou seja, a genética do jeitinho brasileiro cuja a melhor definição que ouvi ate hoje é: "No Brasil a corrupção está em nosso DNA." 


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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A Etica em Nietzsche

PARA QUE SERVE A VERDADE? UMA VIAGEM PELO PENSAMENTO NITIANO.

Por Alacir Arruda



Em épocas onde se questiona a ética, sobretudo na politica, nada melhor que buscar em Nietzsche um entendimento dessa característica humana na sua gênese.   A ética nietzschiana se caracteriza, sobretudo, pelo combate à Filosofia Ocidental, de cunho metafísico, e à Ciência Moderna, por enaltecerem valores supremos como solução para as desditas humanas. Essa forma de pensar, estritamente racional, teria levado o homem a desprezar a vida no âmbito dos sentidos e se voltar para uma realidade idealizada, irreal, estática. Para o filósofo, a nossa cultura, desde Sócrates, privilegiou, no âmbito psicológico, o deus Apolo (harmonia) e esqueceu Dionísio (desmesura).

Nietzsche se inspirou no pensamento dos filósofos pré–socráticos, que concebiam como fundamento da realidade o DEVIR – em especial Heráclito. Nesse momento embrionário da história da humanidade o pensamento estava marcado pelo corpo e a noção de VERDADE ainda não estava estabelecida. Preponderava a ideia de TRANSFORMAÇÃO e que a vida é um fluxo.

Segundo o filósofo, o nosso modo de pensar começou com Sócrates e seguiu um rumo equivocado ao NEGAR a vida dos sentidos. O homem, ao colocar o pensamento acima do corpo, construiu uma imagem de si mesmo muito superior do que ele pode ser. Com o advento da “verdade”, pensamento e vida se dissociaram.

Mas Nietzsche desloca o foco da abordagem filosófica tradicional e pergunta: Para que serve a verdade?

Considerou que a verdade não é produto da curiosidade humana, mas da necessidade psicológica de duração (medo da morte), como ocorre no campo da religião. Entendeu que o homem não é forte o suficiente para enfrentar a vida sem a proteção de entidades metafísicas, por isso construiu a ideia de VERDADE. Mas essa ideia o fez negar o corpo, o agora, o conflito e a transformação. Nesse contexto, o homem ficou apático, sem ânimo, indiferente. Instituiu-se, assim, o NIILISMO, contra o qual o filósofo se posicionou.

Nietzsche combateu o NIILISMO (ideia de culpa) por entender que nele os valores afirmativos da vida perdem a importância, como ocorre no CRISTIANISMO e na CIÊNCIA. Duas são as formas de niilismo: Negativo e Reativo.

O niilismo negativo é a teoria que sustenta que esta vida é um erro, logo devemos nos concentrar na “outra” vida, que é a verdadeira (visão judaico-cristã). O cristianismo funciona como o platonismo do povo.

Por outro lado, o niilismo reativo ocorre na modernidade com a morte de Deus, quando a ciência passa a explicar a realidade. O homem moderno colocou a vida sob a tutelada razão esclarecida, por isso, segundo Nietzsche, todos nós somos responsáveis pela morte de Deus. Nesse contexto, a FELICIDADE se apresenta como um conceito supremo e está ligado ao consumismo e outros procedimentos do homem moderno, fazendo-o viver sempre no PORVIR, tirando-o do momento presente e, por conseguinte, da vida. O ideal passou a presidir a existência embora não possa ser vivido.

Esse é o ambiente em que surge a moral dos ressentidos, baseada no medo e no ódio à vida. O homem fraco, incapaz de viver no âmbito dos sentidos, no fluxo das transformações, inventa outra vida, futura, eterna, incorpórea, que será dada como recompensa aos que sacrificarem seus impulsos vitais e aceitarem os valores dos escravos. A moral seria uma criação dos fracos para corroer a alma dos fortes, impingindo-lhe o ressentimento. Ela seria uma estratégia psicológica de dominação.

O homem moderno para o filósofo alemão seria hipócrita: ele quer se emancipar, mas quer se manter sob a proteção de elementos absolutos.

Nietzsche constrói a ideia de super-homem (além do homem), não como alguém que possui poderes sobre humanos, mas como quem cria a si próprio, superando-se. A sua essência está na superação, não na verdade. É aquele sujeito capaz de encarar a vida sem os consolos metafísicos inventados para negar a experiência do tempo e da morte. Para superar esse estado de coisas é preciso estar “além do homem”.

Para Nietzsche a existência não deveria ter justificação religiosa, ética, nem metafísica, mas reconheceu que o poder que se estabeleceu no mundo é o poder da fraqueza. Como exemplos dessa moral dos fracos estão as que afirmam que os seres humanos são IGUAIS, seja pela racionalidade (Sócrates e Kant), seja por serem irmãos (Cristianismo), seja por possuírem os mesmos direitos (ética socialista e democrática). Contra a moral dos escravos, o filósofo propõe a moral dos senhores, dos melhores, dos aristocratas, fundadas nos instintos vitais, nos desejos e na vontade de potência, cujo modelo se encontra nas sociedades antigas, nos guerreiros belos e fortes, que, pela guerra, buscavam a glória, fama, honra etc.

Para fazer essa crítica, Nietzsche combateu a METAFÍSICA, investigando problemas de LINGUAGEM, centrando-se nas questões morais. Ele percebeu que foi a mudança da linguagem, do vocabulário, que operou uma verdadeira revolução na MORAL. Foi o discurso que operou essa transformação.

Ele perseguiu os adjetivos morais. Perguntou inicialmente: o que é BOM? (quando usamos a palavra “BOM”?). Percebeu que a palavra “BOM” tem uma peculiaridade: possui dois antônimos MAU e RUIM (BOM – MAU e BOM –RUIM) e por possuir dois antônimos ela também possui dois sentidos: “Bom” no sentido técnico, que se opõe a ruim; “Bom” no sentido moral, que se opõe a mau.

Nietzsche percebeu que a palavra “bom”, como contraponto de “ruim’, faz parte do vocabulário dos FORTES, SADIOS e SENHORES. São aqueles que se consideram bons, porque o adversário não é hábil, não sabe lutar, não tem técnica, logo merece perder. Neste caso não há arrependimento ou compaixão, pois o outro perdeu por causa das suas próprias deficiências. Porém, quem usa a palavra “bom” em oposição a “mau” são os DOENTES, FRACOS e ESCRAVOS, ao tentarem impingir no espírito do outro a idéia de pecado, transgressão, culpa, etc, fazendo com que ele próprio sinta CULPA por submeter o outro ao seu poder, seja físico ou psicológico. Em Nietzsche os conceitos FRACO-FORTE, DOENTE-SADIO e ESCRAVO-SENHOR indicam tipos psicológicos para explicar como, pela palavra, o homem que era forte e viril, na Grécia Arcaica , ao ser seduzido pelo discurso metafísico, se tornou um animal de rebanho. Segundo Nietzsche, na história do pensamento ocidental os fracos venceram.

Os fracos inventaram a capacidade de mudar o vocabulário, logo mudaram o comportamento. Assim, criam a ideia de LIBERDADE, de o sujeito poder mudar a sua conduta, de má para boa. A ideia de liberdade gera a ideia de SUJEITO (consciente de suas ideias e responsável pelos seus atos, logo com liberdade para agir). Para Nietzsche os conceitos de “liberdade” e “sujeito” são invenções da gramática, isto é, do modo de falar. Em outras palavras: são invenções dos fracos. A proposição “Paulo agiu bem” cria o entendimento de que ele, Paulo, está no comando da ação, porque ele é livre para escolher dentre as ações possíveis, a “boa ação”, mas, para Nietzsche, tudo seria uma ficção promovida pela linguagem.


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