quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

COMO FOUCAULT*  E  NIETZSCHE* DEFINEM A RELIGIÃO..

Alacir Arruda

  Nietzsche e Foucault são, sem nenhuma sombra de dúvida, dois dos mais importantes filósofos contemporâneos. Ambos mergulharam nas profundezas de nossas mentes, cada qual a seu modo, para tentar explicar esse fenômeno social denominado Religião. É interessante começarmos esse pequeno texto com as perguntas que conduzem uma especulação na direção de alguns apontamentos a respeito do tema: Como Foucault e Nietzsche pensaram a religião? De que modo tais pensadores são atuais e podem nos ajudar a compreender melhor as conjunturas contemporâneas? Em última instância: por que escolher Foucault e Nietzsche para tratar do assunto? É necessário, antes de empreendermos tal análise, a descrição de alguns pontos do pensamento dos autores citados a serem inseridos neste trabalho.
  Pode-se começar dizendo que Foucault é considerado um estruturalista (Chaui,2001). Nesse sentido, Foucault propõe que a história não pode ser descrita como uma seqüência contínua de fatos que possuem entre si um encadeamento lógico. Assim, não se pode falar em um sentido da história ou mesmo em algo de essencial nos fenômenos históricos. Os acontecimentos sócio-humanos são singulares e acidentais, no sentido de que não se pode encontrar em um acontecimento específico o sentido ou essência que faz crer numa continuidade ideal em que tal fenômeno está enquadrado.
  Na trilha desse entendimento, Foucault afirma que não há verdade, verdade no sentido de essência que explica todo o fenômeno; verdade que elimina o acontecimento singular e o põe articulado com algo metafísico e escondido no "interior" do próprio fenômeno ( Foucault, 1979).  É fundamental ter-se em mente que a verdade não passa de um conjunto de regras do discurso que são impostas aos dominados pelos dominadores, ou seja, os dominadores impõem aos dominados uma espécie de relação de poder. Portanto, a verdade não significa uma essência escondida atrás do fenômeno que mereça ser descoberta pela ciência ou pela filosofia, ela é, certamente, uma configuração específica de relação de poder vigente naquele período histórico.
  Nesse instante, devemos esclarecer mais dois termos fundamentais em Foucault : discurso e poder. O primeiro possui uma base material, a palavra, mas esta por si só não é suficiente. Para Foucault, o mais relevante é encontrar quais são as regras que permitem ou negam a palavra, quais são as regras que controlam a palavra. Tais regras estão engendradas por relações de poder. Este último é uma prática social historicamente determinada em que grupos dominantes impõem a dominados as regras formadoras e configuradoras do discurso. Sim, o discurso, este é um dos aspectos que pretendemos analisar neste trabalho e assim identificarmos quais são os grupos dominantes e que relações de poder se engendram a partir de condições de possibilidade que permitem a montagem de tais relações. As condições de possibilidade são necessariamente externas ao fenômeno, ou seja, elas propiciam, favorecem, mas não causam o fenômeno. As condições de possibilidade são demarcadoras de fronteiras e assim delimitam em que estrutura o poder poderá ser exercido.
    Foucault (2001) identifica nas instituições religiosas e judiciárias as mais claras maneiras do discurso ser construído e formatado a regras rígidas e de fortes procedimentos de controle. Nesse sentido, existem vários tipos de procedimentos de controle do discurso identificados por Foucault. Existem procedimentos como o do "comentador" que é muito comum em instituições religiosas, ou seja, os textos religiosos só recebem comentários que justifiquem e confirmem os sentidos previamente determinados. Aqui, verificamos como a idéia de verdade essencial permeia todo o discurso religioso.  O que se apresenta, comumente, numa instituição religiosa, é uma verdade essencial que está articulada com uma série de procedimentos e regras discursivas que sustentam as práticas assumidas naquele grupo religioso. Como diz Foucault (1979), a verdade é poder e é importante identificar-se qual o regime de verdade que se arranja em determinada instituição. Tal regime é regime político de enunciados discursivos.
    Outro tipo de controle do discurso é o de produzir a rarefação dos sujeitos que falam, que pronunciam o discurso. Aqui, os homens e mulheres que estão autorizados a pronunciar o discurso são raros e sujeitos a amplo controle institucional. O que está sujeito à regra não é somente o indivíduo, mas o discurso. Sim, o discurso, pois todos os procedimentos adotados visam controlar e regrar o discurso a ser pronunciado. Esse discurso está articulado com as relações de poder que se desenvolvem no ambiente próprio da religião.  Assim, deve haver, em última análise, uma rarefação dos sujeitos que detém o discurso, que estão autorizados a falar e a pronunciá-lo.  Com um número limitado de pessoas que estão autorizadas a pronunciar o discurso evita-se que diferentes interpretações possam ser feitas, que subversões e inversões se realizem.
Nietzsche defendia uma nova postura humana diante deste nosso mundo ambíguo, uma postura de amor ao humano, de amor a tudo de bom e de terrível que esse mundo nos oferece (Nietzsche,2007). Acreditava Nietzsche que a religião realizou e talvez realize um desserviço ao homem ao fazê-lo crer que haja um mundo diverso do que vivemos, seria um mundo do "céu" onde toda dor e sofrimento desapareceriam e onde os fracos encontrariam abrigo. Sim, os fracos, pois Nietzsche propunha uma postura nova, de coragem diante da vida, dessa nossa vida com ou sem sofrimentos, com ou sem alegrias, mas literalmente sem lamentos e súplicas pelo afastamento da dor, do terrível, pois o terrível é humano, é nosso, demasiadamente nosso e é este homem com toda sua ambiguidade que deve amar o mundo humano com tudo que ele tem de bom e terrífico. Mesmo que não tenhamos explicações, razões, fórmulas e sentidos, o sofrimento é nosso e somente nosso e, portanto, não deve ser negado, odiado, lamentado, pois talvez só os fracos o façam. A religião transforma os homens em fracos ao prometer um mundo diverso que produz um aberto desgosto e ressentimento pelo mundo humano (Nietzsche,2007). A vida deve ser amada com tudo que ela têm de dor e prazer sem que nada seja negado ou lamentado. O medo da vida, da terrível vida humana pode ser elemento ou condição de possibilidade para que o discurso religioso se estabeleça, confirmado pela satisfação dos fiéis ao perceberem que o sofrimento e em última instância, a morte, pode ser negada. Nietzsche argumenta em favor do amor, como disse, ao humano com todo seu caráter de mortalidade, dor e também capacidade de criar e produzir prazer e alegria. 
   A religião castra o homem ao transformá-lo em um ser medroso, descrente do próprio homem e desejante do fim, do "céu" e um verdadeiro desertor da vida (Nietzsche,2007). Ainda neste sentido, Nietzsche (2007) afirma que reprimir os instintos, é negar a própria vida. Assim, a luta da religião para "moralizar" o homem, a partir da repressão dos instintos, só o torna mais e mais fraco. O ressentimento cristão a respeito da vida, da vida livremente instintual, só produz seres decadentes, adestrados, castrados. Um homem senhor de si mesmo, senhor de sua história, de seu destino, capaz de decidir a respeito de seus próprios instintos, quando ou não vivê-los, sem reprimi-los, eis realmente o amante da vida. Como dissemos, vida sanguínea, terrível, mas absolutamente humana. A dor é elemento indispensável para o vir a ser. Por a dor de lado enfraquece o homem, transforma-o num sujeito desprovido de espírito, pois só os espíritos corajosos se erguem diante do trágico e não tremem (Nietzsche,2007). Nesse sentido, a atual configuração, que por vezes se vê de desautorização do sofrimento, é um forte sinal de decadência social. Talvez estejamos diante de uma busca pelo prazer máximo, pela completa falta de sofrimento, de dor, como se o homem pudesse de algum modo mágico se libertar do trágico. O fato de ser humano já pressupõe o trágico e é esse mesmo trágico que deve ser amado, pois só assim se ama a vida.
    A respeito da verdade, Nietzsche (2007) concorda com Heráclito: o mundo é mutante, o vir a ser é presente em todas as coisas juntamente com o não ser. Crer numa verdade fixa, imutável é um engano. Tal afirmação é válida também para a moral. A luta pelo poder faz do homem um artífice de discursos promotores de verdades essenciais e imutáveis. Será que esse pequeno texto que vai chegando ao seu final, em certa medida, não recai no velho erro de proclamar uma nova verdade essencial ao assumir a presente crítica à religião? No mundo laico em que vivemos, num mundo secular, amantes do prazer a todo custo, que desautoriza o sofrimento, a dor, não teria a religião um papel reverso do que Nietzsche pensara? O próprio Nietzsche (2007) afirma que existem  muitos ídolos ocos que mereciam ser denunciados, quais são os ídolos de hoje? Quem sabe o consumo desenfreado, a busca insana por mais e mais estimulação provinda de substâncias como tóxicos e até mesmo remédios que se multiplicam justamente para aplacar a dor. Uma incrível máquina de produção farmacológica transforma os homens em meros joguetes de novas promessas, não mais as promessas da religião, mas as promessas de um mundo terreno livre do mal, do sofrimento, onde poderíamos ser quem quiséssemos ser, ou melhor, seríamos o que se espera que fossemos, belos, potentes, brancos, heterossexuais, ricos, não sujeitos ao fracasso, incapazes de nos responsabilizar por tudo e por todos. Afinal, drogas e mais drogas estão à mãos prontas para nos transformar em pessoas necessariamente felizes. Sim, necessariamente felizes, pois estar triste é um dos novos pecados modernos. Quais são os procedimentos que configuram o discurso portador dessas novas promessas? Quem são os detentores da atual hegemonia de poder? Estaríamos talvez nos umbrais de um novo mundo: sem a feiúra, sem a deficiência, sem o erro, sem a fragilidade e, por fim, sem a capacidade de expressão própria, sem qualquer vestígio de autenticidade. Assim, ainda a respeito do possível papel reconfigurado da religião, não teria Jesus assumido heroicamente o trágico do humano? Como não pretendemos concluir absolutamente nada, ainda não é possível responder adequadamente a tais perguntas. Sobre os motivos que nos levaram a escolher Foucault e Nietzsche como fundamento para esse pequeno texto, podemos dizer apenas que não se pode ter uma explicação racional para tanto. Nietzsche (2007) afirmava que a razão não é sinônimo de virtude e muito menos de felicidade, portanto deixemos aberta a porta para que aspectos menos "luminosos" do humano se manifestem.


*Michel Foucault importante filososfo estruturalista francês do seculo XX
*Friedrich Nietzsche: O maior nome da filosofia alemã do seculo XIX


5 comentários:

  1. Dr. Alacir quando voltará o Café Filosófico ?

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    1. Dia 15 de março.faremos o primeiro de 2014 aguarde orientações de tema e local aqui no blog. Abs

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Professor, qual livro de Nietzsche e Foucault respectivamente vc indicaria a respeito desse assunto ?

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    1. Vou indicar dois de Nietzsche..... " A GAIA CIÊNCIA" e " O ANTICRISTO". Tome cuidado ao ler Nietz, pois costumamos apaixonar por ele..Abs

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